Escolhido pelo jornal Folha de S.Paulo
como o melhor livro brasileiro de literatura do século XXI numa votação da crítica, "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves (Record, 952 páginas, ano de publicação original: 2006), é uma ficção histórica longa e extremamente detalhista. O livro impactante foi decisivo para que a autora fosse eleita recentemente para a
Academia Brasileira de Letras.
“Um defeito de cor” conta a história de Kehinde, uma mulher africana que é capturada aos oito anos de idade no Reino do Daomé (atual Benin) e trazida para a Bahia como escrava. A personagem seria inspirada na figura histórica de Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta e abolicionista Luís Gama (1830-1882), mas a própria autora reconhece que, como pouco se sabe sobre ela, quase tudo no livro é invenção — possível de ter ocorrido, mas ficção.
Kehinde vivia com sua família na África, onde tinha uma vida marcada por tragédias — como a morte da mãe —, e acaba sendo levada com sua irmã como escrava para o Brasil quase que por acaso: elas estavam na rua, brincando, e foram pegas. Não houve nenhum planejamento dos captores para capturá-la, o que traz um grau a mais de choque para uma história terrível.
Inicialmente ela vem para a Bahia e, entre grandes sofrimentos, engravida por estupro pelas mãos de seu dono fazendeiro. Mas muita coisa ainda faria parte da extremamente movimentada vida de Kehinde: filhos, riqueza e pobreza, casamentos, liberdade, mudanças (para o Rio de Janeiro e depois de volta para a África), revoltas — como a dos Malês, que eram escravos muçulmanos —, espiritualidade e amizades. O livro todo tem uma justificativa interna: Kehinde conta a história para alguém, mas estragaria a surpresa contar quem é.
Com “Um defeito de cor”, a autora quer contar uma história completa sobre o período da escravidão no Brasil, tantos são os acontecimentos que perpassam a trajetória de Kehinde. Mais do que isso, ela apresenta todas as questões espirituais que podiam surgir para os escravos brasileiros, que tinham sua própria religião nativa, mas que precisavam se adaptar ao catolicismo dominante. Fascinante também é o contato dela com os escravos muçulmanos, normalmente alfabetizados e respeitosos com as mulheres.
Sem dúvida nenhuma, “Um defeito de cor” é uma obra fascinante e que merece o sucesso que fez. Porém, o nível de detalhe com que a autora descreve diversos acontecimentos, por mais que acrescente camadas de compreensão à história, acaba sendo frequentemente irritante — ela mesma parece confessar isso algumas vezes, no final do livro.
Ou foi apenas uma impressão minha, sei lá.
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Imagem criada pelo Claude
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