Crítica de Livros

“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves
Literatura
“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves
9 de agosto de 2026 at 02:34 0
Escolhido pelo jornal Folha de S.Paulo como o melhor livro brasileiro de literatura do século XXI numa votação da crítica, "Um defeito de cor", de Ana Maria Gonçalves (Record, 952 páginas, ano de publicação original: 2006), é uma ficção histórica longa e extremamente detalhista. O livro impactante foi decisivo para que a autora fosse eleita recentemente para a Academia Brasileira de Letras. “Um defeito de cor” conta a história de Kehinde, uma mulher africana que é capturada aos oito anos de idade no Reino do Daomé (atual Benin) e trazida para a Bahia como escrava. A personagem seria inspirada na figura histórica de Luísa Mahin, que teria sido mãe do poeta e abolicionista Luís Gama (1830-1882), mas a própria autora reconhece que, como pouco se sabe sobre ela, quase tudo no livro é invenção — possível de ter ocorrido, mas ficção. Kehinde vivia com sua família na África, onde tinha uma vida marcada por tragédias — como a morte da mãe —, e acaba sendo levada com sua irmã como escrava para o Brasil quase que por acaso: elas estavam na rua, brincando, e foram pegas. Não houve nenhum planejamento dos captores para capturá-la, o que traz um grau a mais de choque para uma história terrível. Inicialmente ela vem para a Bahia e, entre grandes sofrimentos, engravida por estupro pelas mãos de seu dono fazendeiro. Mas muita coisa ainda faria parte da extremamente movimentada vida de Kehinde: filhos, riqueza e pobreza, casamentos, liberdade, mudanças (para o Rio de Janeiro e depois de volta para a África), revoltas — como a dos Malês, que eram escravos muçulmanos —, espiritualidade e amizades. O livro todo tem uma justificativa interna: Kehinde conta a história para alguém, mas estragaria a surpresa contar quem é. Com “Um defeito de cor”, a autora quer contar uma história completa sobre o período da escravidão no Brasil, tantos são os acontecimentos que perpassam a trajetória de Kehinde. Mais do que isso, ela apresenta todas as questões espirituais que podiam surgir para os escravos brasileiros, que tinham sua própria religião nativa, mas que precisavam se adaptar ao catolicismo dominante. Fascinante também é o contato dela com os escravos muçulmanos, normalmente alfabetizados e respeitosos com as mulheres. Sem dúvida nenhuma, “Um defeito de cor” é uma obra fascinante e que merece o sucesso que fez. Porém, o nível de detalhe com que a autora descreve diversos acontecimentos, por mais que acrescente camadas de compreensão à história, acaba sendo frequentemente irritante — ela mesma parece confessar isso algumas vezes, no final do livro. Ou foi apenas uma impressão minha, sei lá. *** Imagem criada pelo Claude Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail  
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Vale a pena ler “A Classe de Grego”, livro de Han Kang sem edição no Brasil? – Uma análise crítica do romance de 2011 da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.
Literatura
Vale a pena ler “A Classe de Grego”, livro de Han Kang sem edição no Brasil? – Uma análise crítica do romance de 2011 da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura.
5 de julho de 2026 at 11:00 0
Recentemente, li “O Livro Branco”, da coreana Han Kang, vencedora do Prêmio Nobel de 2024. É um dos livros mais pungentes e bonitos que já li. Anteriormente, eu tinha escrito sobre “A Vegetariana”, da mesma autora, um excelente romance explosivo de sexualidade e loucura. Foi com a maior das expectativas que comecei a ler a versão em espanhol (“La clase de griego”, Random House, 176 páginas, traduzido por Sunme Yoon, ano de publicação original: 2011) de um romance de Han Kang que ainda não tem edição brasileira. O meu entusiasmo com o livro é justificado não somente porque amei os dois livros supracitados da autora, mas porque o romance que estou escrevendo, “Não tenho medo do escuro”, tem um personagem que fica cego, do mesmo modo que nesta obra. Achei que a leitura poderia me familiarizar um pouco com o tema. O livro de Han Kang conta a história de um homem na faixa dos trinta anos, um coreano que estudou e trabalhou na Alemanha boa parte da vida, especialista em grego clássico. Ele dá aulas em um curso noturno em Seul para alguns alunos – a maioria estudando a língua de maneira diletante –, e uma de suas alunas é uma mulher muda: ela pode ouvir, mas não consegue emitir palavras. Os dois são solitários. O professor tem uma vida simples, com poucos amigos, e aparentemente foi se acomodando no emprego e na falta total de qualquer ambição. A lenta perda da visão é encarada de maneira estoica, sem grandes dramas. Já a estudante muda tem um filho de um relacionamento fracassado, e o pai do menino consegue a guarda dele. O mutismo da estudante aconteceu de forma súbita após seus traumas: ela sempre tendeu a ser calada, mas o silêncio tomou tal dimensão que, quando ela conhece o professor, tornou-se totalmente muda. Sim, é uma espécie de loucura, um tanto semelhante à da personagem principal de “A Vegetariana”. É até difícil descrever o abismo de solidão que é a vida dos dois personagens principais: Han Kang consegue, com a maestria de sempre, fazer o leitor mergulhar em sensações de profunda dor, tão grandes que parece não haver palavras para descrevê-las. Mais do que dor, parece que o tempo, em “A Classe de Grego”, parou em algum lugar, um lugar frio, solitário e sem esperança. Francamente, por mais que eu reconheça a maestria de Han Kang, neste livro ela pesou demais a mão na solidão e na loucura. “A Classe de Grego” é estático, dolorido e solitário um pouco além da conta. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem obtida no Google Gemini.
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