história do brasil

Além dos melhores discos: meus livros essenciais de não-ficção
Ciência, História
Além dos melhores discos: meus livros essenciais de não-ficção
16 de maio de 2026 at 15:18 0
Faço listas basicamente desde que tive acesso à internet: melhores filmes, melhores músicas, melhores discos etc. Acho que é um bom e divertido exercício de lembrar de experiências agradáveis em vários aspectos. A lista do texto de hoje é uma que penso em fazer há tempos: quais os livros de não-ficção e não-religiosos que mais me marcaram? A lista segue abaixo, sem ordem de preferência. Alguns deles eu li há muitos anos já e nem tenho mais comigo, então eu coloco as informações de alguma edição recente.
  • A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (Folha de S. Paulo, 704 páginas, traduzido por Renato Zwick, ano de publicação original: 1900)
A cada nova revelação deste longo, didático e extremamente bem-escrito livro eu ficava pensando comigo: “Nossa, isso faz tanto sentido”. Minha terapeuta não é freudiana, mas frequentemente rimos que alguma história pessoal minha bate com o que Freud dizia no começo do século XX.
  • Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen (Companhia das Letras, 680 páginas, traduzido por Luiz Paulo Rouanet, ano de publicação original: 1996)
Muitos estudiosos reclamam da conclusão principal de Goldhagen, de que os alemães realmente queriam matar judeus, dizendo que havia, sim, alemães contra o homicídio de judeus. Mas é muito difícil ler os capítulos sobre os Einsatzgruppen (esquadrões móveis que realizaram fuzilamentos em massa no início da invasão da União Soviética) e as Marchas da Morte (evacuações forçadas e brutais de prisioneiros dos campos de concentração no final da guerra para evitar que fossem libertados pelos Aliados) e não achar que Goldhagen estava certo, pelo menos em parte. O livro é tão perturbador que me atrapalhou o sono por semanas – e, em última análise, me impede até hoje de ter muito medo de filmes de terror, por mais que eu ame o estilo: a realidade retratada em Os Carrascos Voluntários de Hitler é pior do que qualquer terror cinematográfico.
  • O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 480 páginas, ano de publicação original: 1995)
Quem, como eu, acompanhava muita política nos anos 1980 pela televisão certamente se lembra bem de como o político Darcy Ribeiro era exuberante e espalhafatoso: falava muito e rápido, e tinha uma obsessão enorme em fazer com que todas as crianças passassem o dia na escola. Quando, no início dos anos 2000, resolvi ter contato com esta obra-prima, fiquei ao mesmo tempo surpreso com a qualidade do livro (já que o político Darcy Ribeiro não me impressionava muito) e como O Povo Brasileiro realmente tem a cara do seu autor: exuberante, intenso, apaixonado. O livro conta a história da miscigenação dos povos que formaram o Brasil – brancos, negros e índios – de uma maneira como você nunca imaginou naquelas aulas chatas de história na escola.
  • Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras, 232 páginas, ano de publicação original: 1936)
Eu odeio a expressão “obrigatório” para se referir a livros, filmes, músicas: ninguém é obrigado a nada, afinal, quanto mais a consumir o produto cultural que seja. Mas se tivesse que apontar apenas um livro para entender o Brasil, este certamente seria Raízes do Brasil, do pai do Chico Buarque. A teoria principal do livro é que, ao contrário dos europeus do norte, que prezam a “fria” competência no trabalho, os brasileiros - assim como eram os portugueses colonizadores - se importam muito mais com relações pessoais. A famosa frase de que o “brasileiro é um povo cordial” tem a ver com relações “cordiais” (do coração) e não com uma suposta afetividade. Bem, é só ver o noticiário para saber de onde vem esse nosso “jeitinho” tão prejudicial para o país como um todo.
  • A Ciência Tem Todas as Respostas?, de Sabine Hossenfelder (Editora Cultrix, 272 páginas, traduzido por Mayara Ismael, ano de publicação original: 2022)
Aqui eu tinha escrito um texto sobre este que é a obra de divulgação científica que mais gostei de ter lido, e seguem alguns trechos deste livro maravilhoso:
“Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se alguém achar que isso tem valor por alguma razão, tudo bem para mim – todos devem ser livres para praticar sua religião. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica que pode ser dada é ‘nós não sabemos’. (...) Não é que eu queira ser simpática com pessoas religiosas pela única razão de ser agradável. Para começo de conversa, eu não sou exatamente conhecida como uma pessoa agradável. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que ‘não existe a possibilidade de um criador’, ou como Victor Stenger, que Deus é uma ‘hipótese falseada’, demonstram que não entendem o limite de seu próprio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declarações presunçosas.”
Chamar o ateísmo de “teologia” – isso vindo de uma agnóstica ferrenha – meio que lava a minha alma.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
Ciência, História
O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
26 de abril de 2026 at 11:31 0
Reinaldo José Lopes é um dos jornalistas mais interessantes da nossa imprensa. Católico praticante, ele é especialista em religião e ciência. Seu blog se chama “Darwin e Deus”, com a explicação de que é “um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas”. Ele é um ótimo exemplo de que você não precisa ser ateu ou agnóstico para tratar de assuntos de ciência em geral e evolução das espécies em particular – ele inclusive escreveu, com o youtuber e biólogo ateu Pirulla (força, menino), o livro “Darwin sem frescura”. Reinaldo também é um dos maiores especialistas brasileiros em J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, tendo traduzido diversas obras e dedicado seu mestrado e doutorado ao estudo do escritor inglês (ao contrário das outras especialidades do autor, sobre esta eu nunca tive nenhum interesse – nada é perfeito neste mundo). Apesar de acompanhar a carreira de Reinaldo José Lopes há muitos anos, finalmente li um de seus livros, chamado “1499” (uma homenagem bem-humorada aos grandes sucessos de Laurentino Gomes: “1808”, “1822” e “1889”). Como se pode imaginar, “1499” (Harper Collins) foca no ano imediatamente anterior ao Descobrimento do Brasil e se concentra nas pesquisas mais recentes sobre os povos nativos. Maior sucesso literário da carreira do jornalista, a obra venceu o Prêmio Jabuti em 2018 na categoria Humanidades. O fato de ser tão atualizado é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do livro. “1499” descortina um mundo que a grande maioria das pessoas não conhecia, com cidades enormes na Amazônia e uma infraestrutura espetacular. Embora as edificações fossem de madeira e palha (que se perderam no tempo), o desenho dessas cidades — feito com grandes movimentações de terra, valas e estradas — sobreviveu e hoje pode ser visto até do espaço. Entre outros aspectos pouco conhecidos está o fato de que a Amazônia não é uma “floresta intocada”: na verdade, a quantidade relativa de plantas úteis para o ser humano é muito maior do que seria caso a região não tivesse sido habitada por populações nativas. No livro, Reinaldo defende (baseado no consenso atual da arqueologia e da botânica) que houve um manejo consciente das plantas. Os povos indígenas praticavam a "arboricultura": eles não apenas coletavam, mas selecionavam, plantavam e limpavam o terreno para favorecer espécies como o açaí, a castanha-do-pará e o cacau. Ainda se discute a escala disso em algumas regiões específicas, mas a "floresta cultural" ou "antropogênica" é hoje considerada uma construção ativa. Embora a maior parte do estudo se concentre na Região Amazônica, “1499” ainda apresenta temas como os caminhos dos primeiros seres humanos que chegaram ao Brasil e sua origem — tanto em termos arqueológicos quanto genéticos —, o modo de adestrar as plantas, análises linguísticas e as primeiras impressões dos europeus sobre os povos originários. Como mencionei, a “fraqueza” do livro reside no fato de que muito do que se está estudando ainda se encontra em fase inicial; portanto, muitas conclusões sobre o Brasil pré-1500 são preliminares e objeto de debate entre os pesquisadores. Mas esta é a própria “fraqueza” da ciência: existem coisas que não sabemos e talvez nunca saberemos, o que pode ser frustrante. No entanto, essa limitação não impede que nos deleitemos com todo o fascinante mundo que se descortina na leitura de “1499”.
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