Ciência e Religião

O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
Ciência, História
O Brasil antes de Cabral: Uma resenha de “1499”, de Reinaldo José Lopes
26 de abril de 2026 at 11:31 0
Reinaldo José Lopes é um dos jornalistas mais interessantes da nossa imprensa. Católico praticante, ele é especialista em religião e ciência. Seu blog se chama “Darwin e Deus”, com a explicação de que é “um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas”. Ele é um ótimo exemplo de que você não precisa ser ateu ou agnóstico para tratar de assuntos de ciência em geral e evolução das espécies em particular – ele inclusive escreveu, com o youtuber e biólogo ateu Pirulla (força, menino), o livro “Darwin sem frescura”. Reinaldo também é um dos maiores especialistas brasileiros em J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, tendo traduzido diversas obras e dedicado seu mestrado e doutorado ao estudo do escritor inglês (ao contrário das outras especialidades do autor, sobre esta eu nunca tive nenhum interesse – nada é perfeito neste mundo). Apesar de acompanhar a carreira de Reinaldo José Lopes há muitos anos, finalmente li um de seus livros, chamado “1499” (uma homenagem bem-humorada aos grandes sucessos de Laurentino Gomes: “1808”, “1822” e “1889”). Como se pode imaginar, “1499” (Harper Collins) foca no ano imediatamente anterior ao Descobrimento do Brasil e se concentra nas pesquisas mais recentes sobre os povos nativos. Maior sucesso literário da carreira do jornalista, a obra venceu o Prêmio Jabuti em 2018 na categoria Humanidades. O fato de ser tão atualizado é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza do livro. “1499” descortina um mundo que a grande maioria das pessoas não conhecia, com cidades enormes na Amazônia e uma infraestrutura espetacular. Embora as edificações fossem de madeira e palha (que se perderam no tempo), o desenho dessas cidades — feito com grandes movimentações de terra, valas e estradas — sobreviveu e hoje pode ser visto até do espaço. Entre outros aspectos pouco conhecidos está o fato de que a Amazônia não é uma “floresta intocada”: na verdade, a quantidade relativa de plantas úteis para o ser humano é muito maior do que seria caso a região não tivesse sido habitada por populações nativas. No livro, Reinaldo defende (baseado no consenso atual da arqueologia e da botânica) que houve um manejo consciente das plantas. Os povos indígenas praticavam a "arboricultura": eles não apenas coletavam, mas selecionavam, plantavam e limpavam o terreno para favorecer espécies como o açaí, a castanha-do-pará e o cacau. Ainda se discute a escala disso em algumas regiões específicas, mas a "floresta cultural" ou "antropogênica" é hoje considerada uma construção ativa. Embora a maior parte do estudo se concentre na Região Amazônica, “1499” ainda apresenta temas como os caminhos dos primeiros seres humanos que chegaram ao Brasil e sua origem — tanto em termos arqueológicos quanto genéticos —, o modo de adestrar as plantas, análises linguísticas e as primeiras impressões dos europeus sobre os povos originários. Como mencionei, a “fraqueza” do livro reside no fato de que muito do que se está estudando ainda se encontra em fase inicial; portanto, muitas conclusões sobre o Brasil pré-1500 são preliminares e objeto de debate entre os pesquisadores. Mas esta é a própria “fraqueza” da ciência: existem coisas que não sabemos e talvez nunca saberemos, o que pode ser frustrante. No entanto, essa limitação não impede que nos deleitemos com todo o fascinante mundo que se descortina na leitura de “1499”.
Imagem obtida no Gemini Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +
Por que ainda precisamos do mistério
Ciência, História, Literatura
Por que ainda precisamos do mistério
29 de março de 2026 at 10:04 0

Leitura sugerida por amigos, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 464 páginas, tradução de Janaína Marcoantonio), é uma obra de narrativa ágil e fascinante. Nela, o autor busca sintetizar a trajetória da espécie humana, desde as origens na África até a contemporaneidade, arriscando, inclusive, previsões audaciosas para o futuro.

Algumas teses defendidas por Harari são notáveis e explicam o sucesso estrondoso do livro. Para o autor, por exemplo, a Companhia Peugeot não “existe” no mundo físico; seria uma abstração, um mito jurídico em que as pessoas concordaram em acreditar. Para ilustrar o ponto, ele argumenta que, se as fábricas mudassem de nome e o registro legal fosse alterado, as estruturas físicas permaneceriam, mas a “Peugeot” desapareceria. Nessa linha, Harari estende o conceito de “ordens imaginadas” aos países, ao dinheiro e ao próprio capitalismo: seriam construções intersubjetivas aceitas coletivamente.

Outros pontos são igualmente instigantes, como a análise de como o crédito moderno viabilizou a Revolução Industrial e o progresso técnico, ou como as religiões permitiram a cooperação de grupos humanos em escalas muito superiores às comunidades primitivas.

Contudo, compartilho do incômodo de muitos críticos em relação à obra, especialmente em um ponto central. A cientista alemã Sabine Hossenfelder defende que, quando um cientista afirma categoricamente que Deus não existe ou que não há vida após a morte, ele deixa de fazer ciência para praticar teologia. De forma irônica, ela comenta que aqueles que usam o método científico para “provar” a inexistência do divino deveriam ser livres para “praticar sua religião”, mas ressalta: “Quero que os cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica possível é ‘nós não sabemos’”. Para Hossenfelder — que é agnóstica —, a ciência carece de elementos para refutar o que está além do plano empírico. É precisamente essa postura que me incomoda em Sapiens. Apesar de apreciar a leitura, percebe-se que Harari raramente admite a dúvida; ele faz afirmações peremptórias em temas que exigem o contraditório. Enquanto cientistas como Marcelo Gleiser e Carlo Rovelli falam com reverência sobre o “mistério” da existência e do Universo, Harari frequentemente reduz o inexplicável — como a improvável ascensão de religiões como o Cristianismo e o Islã — ao mero acaso. Nada parece misterioso em sua visão, uma postura que, embora sedutora para as vendas, soa reducionista. Em contrapartida à ausência de mistérios em Harari, a escritora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura de 2018), nos ensaios e palestras de Escrever é muito perigoso (Todavia, 2019), descreve a própria criação literária como um processo misterioso. Para ela, as palavras e histórias parecem surgir “do nada”, como se os livros já estivessem prontos em algum lugar, aguardando para serem acessados. Sinto-me inclinado a concordar com a Nobel: frequentemente, não sei a origem exata das histórias que escrevo. A sensação de que a obra preexiste ao ato de escrever é um mistério que a frieza dos acasos de Harari não consegue alcançar.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
Leia mais +