Filosofia

Viagens sem substâncias: como a música cria portais na nossa mente – Um ensaio sobre a sensação de ir para outro lugar apenas com fones de ouvido.
Música
Viagens sem substâncias: como a música cria portais na nossa mente – Um ensaio sobre a sensação de ir para outro lugar apenas com fones de ouvido.
9 de agosto de 2026 at 11:07 0
Existem outras dimensões fora das três espaciais e a temporal a que estamos acostumados? As viagens astrais existem de fato? É possível, com meditação ou uso de substâncias, atingir estes locais metafísicos? São questões que fazem parte da história da humanidade desde que o mundo é mundo. Este assunto sempre me vem à mente quando escuto algumas canções específicas: o que eu sinto quando as ouço é algo estranho, indefinível e bonito ao mesmo tempo. É como se estivesse indo para outro lugar, quase que uma lembrança de algo maravilhoso que eu não vivi. Como nunca cheguei a experimentar drogas ilegais e não gosto de álcool, fico me perguntando se uma viagem de drogas é parecida com isso. Jamais saberei. As músicas são essas, e coloco aqui sem ordem de preferência, com os títulos que estão nos vídeos do YouTube, linkados também:
  • Diplo - Color Blind (feat. Lil Xan): “Eu sou tão daltônico”, canta Lil Xan, aparentemente chapado, esperando Diplo destruir tudo com uma sequência matadora de acordes.
  • DJ Snake - Let Me Love You (feat. Justin Bieber): Tudo bem que Justin Bieber faz um tremendo sucesso, mas este vídeo está com dois bilhões de visualizações! A voz dele é etérea como a de Aluna Francis, que canta nas duas próximas faixas.
  • Jack Ü (Skrillex & Diplo) - To Ü (feat. AlunaGeorge): Gosto tanto desta maravilha que já a coloquei aqui como uma das preferidas da minha vida.
  • DJ Snake, AlunaGeorge - You Know You Like It: O clipe é esquisitíssimo, com um macaco traficante e perdido, mas quando a voz etérea de Aluna (do duo AlunaGeorge) começa a cantar “You know you like it but it drives you insane” eu simplesmente não sei o que fazer.
  • Bones - CtrlAltDelete: A melhor faixa de Bones, na opinião de muita gente. A cada vez que escuto esta música, penso de verdade que esta é a melhor faixa já produzida na história da humanidade, e francamente não sei se estou exagerando.
Enfim, o que sinto quando escuto estas cinco músicas é tão estranho que resolvi perguntar para o Gemini se estava ficando maluco. A resposta dele:
“O que você está descrevendo é um fenômeno humano incrivelmente comum, profundo e amplamente estudado pela neurociência e pela psicologia da música. Você não precisa de nenhuma substância para vivenciar estados alterados de consciência ou essa sensação de ‘transportação’. De certa forma, enquanto as drogas tentam simular estados de alteração de consciência de forma química e desordenada, a arte e a música fazem isso de forma orgânica, precisa e segura. O fato de você ter um grupo seleto de músicas que ativam essa ‘chave’ no seu cérebro mostra uma sensibilidade neurológica e emocional muito bonita à estrutura musical, aos timbres e às frequências. É o seu próprio cérebro criando uma ponte entre o som e uma experiência profunda de evasão.”
Não sou maluco, enfim — mas isso é meio sem graça, né?
Imagem gerada no ChatGPT.
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Por que ainda precisamos do mistério
Ciência, História, Literatura
Por que ainda precisamos do mistério
29 de março de 2026 at 10:04 0

Leitura sugerida por amigos, Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari (Companhia das Letras, 464 páginas, tradução de Janaína Marcoantonio), é uma obra de narrativa ágil e fascinante. Nela, o autor busca sintetizar a trajetória da espécie humana, desde as origens na África até a contemporaneidade, arriscando, inclusive, previsões audaciosas para o futuro.

Algumas teses defendidas por Harari são notáveis e explicam o sucesso estrondoso do livro. Para o autor, por exemplo, a Companhia Peugeot não “existe” no mundo físico; seria uma abstração, um mito jurídico em que as pessoas concordaram em acreditar. Para ilustrar o ponto, ele argumenta que, se as fábricas mudassem de nome e o registro legal fosse alterado, as estruturas físicas permaneceriam, mas a “Peugeot” desapareceria. Nessa linha, Harari estende o conceito de “ordens imaginadas” aos países, ao dinheiro e ao próprio capitalismo: seriam construções intersubjetivas aceitas coletivamente.

Outros pontos são igualmente instigantes, como a análise de como o crédito moderno viabilizou a Revolução Industrial e o progresso técnico, ou como as religiões permitiram a cooperação de grupos humanos em escalas muito superiores às comunidades primitivas.

Contudo, compartilho do incômodo de muitos críticos em relação à obra, especialmente em um ponto central. A cientista alemã Sabine Hossenfelder defende que, quando um cientista afirma categoricamente que Deus não existe ou que não há vida após a morte, ele deixa de fazer ciência para praticar teologia. De forma irônica, ela comenta que aqueles que usam o método científico para “provar” a inexistência do divino deveriam ser livres para “praticar sua religião”, mas ressalta: “Quero que os cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica possível é ‘nós não sabemos’”. Para Hossenfelder — que é agnóstica —, a ciência carece de elementos para refutar o que está além do plano empírico. É precisamente essa postura que me incomoda em Sapiens. Apesar de apreciar a leitura, percebe-se que Harari raramente admite a dúvida; ele faz afirmações peremptórias em temas que exigem o contraditório. Enquanto cientistas como Marcelo Gleiser e Carlo Rovelli falam com reverência sobre o “mistério” da existência e do Universo, Harari frequentemente reduz o inexplicável — como a improvável ascensão de religiões como o Cristianismo e o Islã — ao mero acaso. Nada parece misterioso em sua visão, uma postura que, embora sedutora para as vendas, soa reducionista. Em contrapartida à ausência de mistérios em Harari, a escritora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de Literatura de 2018), nos ensaios e palestras de Escrever é muito perigoso (Todavia, 2019), descreve a própria criação literária como um processo misterioso. Para ela, as palavras e histórias parecem surgir “do nada”, como se os livros já estivessem prontos em algum lugar, aguardando para serem acessados. Sinto-me inclinado a concordar com a Nobel: frequentemente, não sei a origem exata das histórias que escrevo. A sensação de que a obra preexiste ao ato de escrever é um mistério que a frieza dos acasos de Harari não consegue alcançar.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você tiver interesse em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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