Faço listas basicamente desde que tive acesso à internet: melhores filmes, melhores músicas, melhores discos etc. Acho que é um bom e divertido exercício de lembrar de experiências agradáveis em vários aspectos.
A lista do texto de hoje é uma que penso em fazer há tempos: quais os livros de não-ficção e não-religiosos que mais me marcaram?
A lista segue abaixo, sem ordem de preferência. Alguns deles eu li há muitos anos já e nem tenho mais comigo, então eu coloco as informações de alguma edição recente.
- A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (Folha de S. Paulo, 704 páginas, traduzido por Renato Zwick, ano de publicação original: 1900)
A cada nova revelação deste longo, didático e extremamente bem-escrito livro eu ficava pensando comigo: “Nossa, isso faz tanto sentido”. Minha terapeuta não é freudiana, mas frequentemente rimos que alguma história pessoal minha bate com o que Freud dizia no começo do século XX.
- Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah Goldhagen (Companhia das Letras, 680 páginas, traduzido por Luiz Paulo Rouanet, ano de publicação original: 1996)
Muitos estudiosos reclamam da conclusão principal de Goldhagen, de que os
alemães realmente queriam matar judeus, dizendo que havia, sim, alemães contra o homicídio de judeus. Mas é muito difícil ler os capítulos sobre os
Einsatzgruppen (esquadrões móveis que realizaram fuzilamentos em massa no início da invasão da União Soviética) e as Marchas da Morte (evacuações forçadas e brutais de prisioneiros dos campos de concentração no final da guerra para evitar que fossem libertados pelos Aliados) e não achar que Goldhagen estava certo, pelo menos em parte. O livro é tão perturbador que me atrapalhou o sono por semanas – e, em última análise, me impede até hoje de ter muito medo de filmes de terror, por mais que eu ame o estilo: a realidade retratada em
Os Carrascos Voluntários de Hitler é pior do que qualquer terror cinematográfico.
- O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 480 páginas, ano de publicação original: 1995)
Quem, como eu, acompanhava muita política nos anos 1980 pela televisão certamente se lembra bem de como o
político Darcy Ribeiro era exuberante e espalhafatoso: falava muito e rápido, e tinha uma obsessão enorme em fazer com que todas as crianças passassem o dia na escola. Quando, no início dos anos 2000, resolvi ter contato com esta obra-prima, fiquei ao mesmo tempo surpreso com a qualidade do livro (já que o
político Darcy Ribeiro não me impressionava muito) e como
O Povo Brasileiro realmente tem a cara do seu autor: exuberante, intenso, apaixonado. O livro conta a história da miscigenação dos povos que formaram o Brasil – brancos, negros e índios – de uma maneira como você nunca imaginou naquelas aulas chatas de história na escola.
- Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (Companhia das Letras, 232 páginas, ano de publicação original: 1936)
Eu odeio a expressão “obrigatório” para se referir a livros, filmes, músicas: ninguém é obrigado a nada, afinal, quanto mais a consumir o produto cultural que seja. Mas se tivesse que apontar apenas um livro para entender o Brasil, este certamente seria
Raízes do Brasil, do pai do Chico Buarque. A teoria principal do livro é que, ao contrário dos europeus do norte, que prezam a “fria” competência no trabalho, os brasileiros - assim como eram os portugueses colonizadores - se importam muito mais com relações pessoais. A famosa frase de que o “brasileiro é um povo cordial” tem a ver com relações “cordiais” (do coração) e não com uma suposta afetividade. Bem, é só ver o noticiário para saber de onde vem esse nosso “jeitinho” tão prejudicial para o país como um todo.
- A Ciência Tem Todas as Respostas?, de Sabine Hossenfelder (Editora Cultrix, 272 páginas, traduzido por Mayara Ismael, ano de publicação original: 2022)
Aqui eu tinha escrito um texto sobre este que é a obra de divulgação científica que mais gostei de ter lido, e seguem alguns trechos deste livro maravilhoso:
“Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra pessoas que perseguem essas ideias em si. Se alguém achar que isso tem valor por alguma razão, tudo bem para mim – todos devem ser livres para praticar sua religião. Mas eu quero que cientistas estejam atentos aos limites de suas disciplinas. Às vezes, a única resposta científica que pode ser dada é ‘nós não sabemos’. (...) Não é que eu queira ser simpática com pessoas religiosas pela única razão de ser agradável. Para começo de conversa, eu não sou exatamente conhecida como uma pessoa agradável. Mais importante do que isso, cientistas que afirmam, como fez Stephen Hawking, que ‘não existe a possibilidade de um criador’, ou como Victor Stenger, que Deus é uma ‘hipótese falseada’, demonstram que não entendem o limite de seu próprio conhecimento. Eu sinto arrepios quando cientistas fazem essas declarações presunçosas.”
Chamar o ateísmo de “teologia” – isso vindo de uma agnóstica ferrenha – meio que lava a minha alma.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini.
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