Círculo do Livro

Heranças Caóticas e Páginas Dobradas
Literatura
Heranças Caóticas e Páginas Dobradas
19 de julho de 2026 at 01:53 0
Lá em casa tínhamos algumas estantes de livros. A mais bonita, envidraçada, era minha. Eu passava horas arrumando minhas obras por preferência, autor, temática. Ali havia algumas enciclopédias e coleções bonitas, e os meus livros: Thomas Mann, William Faulkner, Virginia Woolf, muitos livros que eu lia e entendia e tantos outros que eu lia e não entendia. As estantes da minha mãe eram bem mais caóticas (como é, aliás, a minha atualmente): livros desordenados, quase todos lidos e deixados de lado. Minha mãe não fazia muito diferente do que eu faço hoje em dia: eu leio e guardo o livro, sem me preocupar onde armazenar na estante, e se é fácil encontrá-lo ou não. A diferença é que minha mãe nunca se desfazia dos livros dela – dizia que ficariam para mim –, ao contrário de mim, que passo para frente quando não pretendo reler. Outro aspecto importante de mãe e filho fanáticos por leitura, como éramos nós, era o Círculo do Livro: mensalmente recebíamos o catálogo da editora, em forma de revista, e bastava fazer o pedido do livro e esperar por ele. Uma espécie de Amazon dos anos 1980. A qualidade das edições – sempre em capa dura – era espetacular, e até hoje tenho muitos livros do Círculo do Livro na minha estante (muitos, é preciso que se diga, foram comprados bem mais recentemente, na Estante Virtual https://www.estantevirtual.com.br). Quando olhava os livros da minha estante, dois livros estavam sempre juntos e chamavam minha atenção, porque eu não conhecia os autores, nunca tinha ouvido falar das obras fora dali, e mesmo assim estavam entre os meus livros: minha mãe os tinha escolhidos no catálogo do Círculo do Livro, e foram parar na minha estante, quem sabe porque eu achei as edições bonitas, mas não lembro direito. Um deles, com uma sofisticada capa apresentando uma lebre, era "A longa jornada", de Richard Adams, um estranho clássico sobre uma sociedade de coelhos que eu li até a metade uns dez anos atrás; o outro é o tema deste texto: "Quando os Adams saíram de férias", de Mendal W. Johnson (Círculo do Livro, 277 páginas, traduzido por Carmen Ballot, ano de publicação original: 1974). A capa já entregava tudo: cinco crianças no umbral de uma porta, e uma garota amarrada se contorcendo no chão. Lembro de minha mãe dizendo, com desgosto, que no livro “as crianças ficavam torturando a babá sem parar”. Provavelmente minha mãe não terminou de ler o romance: a última dobra do papel está na página 126, e dá perfeitamente para entender por que ela parou ali. Já eu fui até o fim. No livro, Barbara, 20 anos, é a babá contratada para cuidar de Bobby (14 anos) e Cindy (10 anos), filhos dos Adams, que se unem aos irmãos vizinhos Dianne (17 anos) e Paul McVeigh, e ao amigo John (17 anos), para aprisioná-la. No prólogo, a babá está em paz levando as crianças para a igreja e para um banho no rio, mas logo em seguida ela se vê dopada e amarrada – e o sofrimento dela só está começando. O livro é bastante criticado pelo sofrimento gratuito, mas, em épocas de zoossadismo na internet perpetrado por crianças, nem sei se o livro é tão exagerado assim. A história do autor, Mendal W. Johnson, é trágica. Tendo lançado o livro em 1974, faleceu dois anos depois, vítima de alcoolismo, sem conseguir terminar os três romances que estava escrevendo. O livro também tem uma história esquisita: lançado com grande sucesso (a Abril Cultural também lançou “Quando os Adams saíram de férias” em bancas de jornais na época), ficou posteriormente décadas fora de catálogo, tendo sido relançado no exterior pela Valancourt Books em 2020, e no Brasil pela DarkSide Books/Macabra Filmes em 2022. Hoje é uma obra cultuada por amantes de literatura de terror. E merece o status que tem: “Quando os Adams saíram de férias” é extremamente bem escrito, e Mendal W. Johnson consegue descrever com profundidade os pensamentos e motivações – mesmo os de cunho mais psicopata – de seus personagens. *** Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.  
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Livros que minha mãe amava: 2. “Atos de Amor”, de Elia Kazan
Literatura
Livros que minha mãe amava: 2. “Atos de Amor”, de Elia Kazan
24 de dezembro de 2023 at 18:43 0
Minha mãe adorava James Dean. Desde criança ela me falava deste ator que morreu muito jovem, num acidente, e que tinha trabalhado em apenas três filmes: “Juventude Transviada”, “Vidas Amargas” e “Assim Caminha a Humanidade”. Uma história que ela adorava contar era sobre uma amiga que dizia que ‘Giant” (o nome original do filme) significava, em inglês, “assim caminha a humanidade”, e que minha mãe discordava dela. Uma das hipóteses que eu tenho sobre o motivo de ela ter comprado não uma, mas duas, edições de “Atos de Amor”, de Elia Kazan (lançado originalmente em 1978), é que o autor era também diretor do já citado “Vigas Amargas” - cujo título original é “East of Eden” (“a leste do Éden”), e é baseado num romance de John Steinbeck do mesmo nome. Um dos grandes diretores de Hollywood, o greco-americano Elia Kazan revelou não só James Dean como também Marlon Brando, que ele dirigiu em clássicos como “Sindicato de Ladrões” e “Uma Rua Chamada Pecado”. A literatura apareceu na vida de Elia Kazan (1909-2003) no final da sua vida, quem sabe por causa dos seus problemas por ter sido delator na época do macarthismo, mas só estou especulando. Falemos agora sobre as edições do livro que minha mãe comprou: uma delas é da Editora Abril, lançada em 1984 e que eu li ainda na década de 1980, e a outra do Círculo do Livro, sem data de lançamento. O texto das edições é o mesmo, e o tradutor é Ruy Jungmann, para edição original de “Atos de Amor”, da Editora Record. As gerações mais novas talvez não a conheçam bem, mas a Editora Abril era a maior difusora de alta cultura em bancas que este país já teve, e minha relação com ela talvez valha um texto à parte neste blog. Já o Círculo do Livro era uma espécie de Amazon dos anos 80: o assinante recebia uma revista com seus lançamentos, e o leitor escolhia o que queria. As edições da editora – que normalmente lançava sucessos e clássicos com alguma defasagem temporal em relação aos lançamentos originais – eram sempre em capa dura, com um capricho muito acima da média: até hoje amo ler livros lançados pelo Círculo do Livro. O romance, de cerca de 450 páginas, cuja história se passa toda nos Estados Unidos, conta a história de Ethel Laffrey, uma linda filha adotiva de um casal milionário e disfuncional, e do seu casamento com Teddy, um filho de gregos, Costa e Noola Avaliotis. Ethel é promíscua sexualmente, mas quer de alguma maneira agir de acordo com as rígidas regras de comportamento do sogro – e isso é só o começo da confusão. É fácil resenhar “Atos de Amor”, e este texto do New York Times descreve bem a obra: excelentes diálogos, mas dois personagens principais – Ethel e Costa – que não despertam nenhuma empatia, são irritantes e têm comportamentos difíceis de justificar. Eu mesmo gostei muito do livro na adolescência, mas lembro de pouca coisa da leitura daquela época; a releitura (na edição do Círculo do Livro) foi decepcionante, por mais que seja um livro, na maior parte do tempo, que prende bastante a atenção. “Atos de Amor”, de Elia Kazan, deve ter feito muito sucesso: a edição da Abril é da coleção “Grandes Sucessos – Série Ouro”, e raramente o Círculo do Livro lançava um livro da época que não vendesse bastante em sua edição original. Hoje, porém, ele parece completamente esquecido: levando-se em conta o site da Amazon, não há nenhuma edição recente, nem em português, nem em inglês. Não faço ideia do que minha mãe achava do romance. Provavelmente ela já tinha a edição do Círculo do Livro e comprou a edição da Abril na praia para passar o tempo, como ela fazia com muitos outros livros – eu mesmo li aquela edição em Caiobá. Mas, a conhecendo bem, duvido que ela gostasse do desejo de Ethel Laffrey de agradar um sujeito machista e insuportável como o sogro Costa Avaliotis. Não é à toa que o livro está esquecido hoje: este aspecto do comportamento da personagem de “Atos de Amor” está completamente datado.
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