Os Testamentos

Os Testamentos renova o universo de Margaret Atwood com frescor narrativo
Séries
Os Testamentos renova o universo de Margaret Atwood com frescor narrativo
11 de outubro de 2026 at 02:48 0
Como se sabe, no universo de O Conto da Aia, o mundo vive uma séria crise de natalidade decorrente da poluição, doenças e desastres ambientais. Na distopia criada pela escritora canadense Margaret Atwood, a enorme dificuldade da população em ter filhos gera um pânico global. Em última análise, esse cenário abre espaço para um golpe de Estado nos Estados Unidos, cujos novos governantes rebatizam o país como Gilead. Trata-se de uma ditadura teocrática militar, de viés fundamentalista cristão, que impõe um controle rígido sobre as mulheres — proibidas inclusive de ler e estudar. Mas, se a realidade de regimes fundamentalistas costuma ser associada a terras devastadas, a fictícia Gilead é um lugar lindo e organizado, onde todos têm um papel rigorosamente definido: os já citados comandantes, suas esposas ricaças, as aias — mulheres férteis estupradas ritualisticamente para procriar —, as tias, as econopessoas, e por aí vai. A série Os Testamentos: Das Filhas de Gilead (2026), criada por Bruce Miller e baseada no livro Os Testamentos, de Margaret Atwood (sobre o qual comentei aqui), apresenta um grupo pouco explorado na obra original: as Violetas. São adolescentes ricas, filhas de comandantes, que esperam a primeira menstruação para serem arranjadas em casamento com outros oficiais (quando passam a se vestir de verde, a cor das Esposas). Como se pode imaginar, todo o contraste característico de Gilead está presente: um universo visualmente impecável — em cenários, figurinos e design de interiores —, mas brutalmente cruel, no qual pessoas são condenadas à morte e expostas enforcadas em muros públicos por transgressões morais, como sexo fora do casamento. Sério, gente: depois de penar da segunda à sexta temporada de O Conto da Aia — sendo que a primeira é uma das minhas séries preferidas, ao lado de Arquivo X — assistindo a minutos intermináveis de close-ups no rosto de Elisabeth Moss fora de Gilead, como comentei aqui, eu merecia uma produção maravilhosa como Os Testamentos. Tudo funciona: as atrizes Chase Infiniti e Lucy Halliday estão perfeitas como Agnes e Daisy (a garota vinda do Canadá tentando se infiltrar em Gilead), os figurinos e locações impressionam, e o roteiro é envolvente do início ao fim. Não vou me aprofundar nos detalhes para não estragar a surpresa. Só posso concluir dizendo que Os Testamentos é tão boa que nem as aparições pontuais de June atrapalham o ritmo. *** Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
Séries
O Universo de Gilead não cabe no rosto de June
5 de maio de 2026 at 16:29 0

Escrevi há não muito tempo que, para mim, apenas duas séries merecem nota 10: Arquivo X e a primeira temporada de The Handmaid’s Tale. Sou tão entusiasta das investigações dos agentes Mulder e Scully que praticamente não falo deles no meu blog — guardei tudo para o meu livro “Rua Paraíba”.

Quanto a The Handmaid’s Tale, escrevi em um texto de 2018 que a história narra um futuro próximo em que uma seita religiosa radical assassina o presidente dos Estados Unidos e metralha o Congresso para tomar o poder. O país é rebatizado como Gilead e a vida sofre transformações violentas: boa parte das mulheres tem de viver segregada e, para cada função — esposa, aia, “tia” —, elas devem usar roupas com cores específicas. A religiosidade de teor cristão imposta pelos governantes é opressiva e domina cada aspecto da existência.

A primeira temporada da série é baseada no romance de Margaret Atwood e impressiona pelo contraste entre a violência extrema dos governantes e a aparente paz de ruas e casas limpíssimas, habitadas por pessoas uniformizadas. Gilead é uma ditadura militar-religiosa que ocupa quase todo o antigo território americano, com exceção do Alasca e do Havaí, enquanto o Canadá permanece como uma democracia independente e refúgio para exilados.

Margaret Atwood criou um universo fascinante e assustador que impacta até hoje fãs de filmes de terror e de distopias – como eu. O impacto da obra foi tão grande que os trajes das aias chegaram a ser usados em protestos reais ao redor do mundo. As duas primeiras temporadas retrataram bem esse mundo complexo. Dali em diante foi ladeira abaixo - não sei se por cansaço da produção, preguiça no roteiro ou uma paixão cega pelo rosto da protagonista, June (vivida pela ótima Elisabeth Moss). Na trama, ela tem a filha roubada pelo Estado e acaba se envolvendo com um motorista que ascende a Comandante, dividida entre esse novo laço e o marido que a espera no exílio. Em um looping que durou quatro temporadas, June foge para o Canadá, volta para Gilead atrás da filha, tenta organizar uma guerrilha, retorna ao território livre e volta novamente para se encontrar romanticamente com seu amante em meio ao caos. Entre perigos e alianças políticas improváveis, o espectador é condenado a encarar o rosto da atriz em closes intermináveis em todos os episódios. Não sei realmente como consegui assistir a este negócio. Para quem queria explorar as nuances de Gilead, a frustração foi constante: passamos 95% do tempo focados exclusivamente na jornada repetitiva de June. Felizmente, para provar que o problema não era a temática, a Disney+ lançou “Os Testamentos”, série baseada na continuação escrita por Atwood. A nova série finalmente se passa em Gilead, explorando o sistema e outros personagens. Vi apenas o início e já estou amando. É o sinal definitivo de que ninguém mais aguentava o foco excessivo em June, por melhor atriz que Elisabeth Moss seja. O universo de Gilead é grande demais para ficar escondido atrás de um único rosto.
Imagem obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui cadastre seu e-mail.
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