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Tenho assistido a muitos filmes de terror. Assim como minha outra paixão cinematográfica, os filmes noir americanos e franceses, em que eu simplesmente vou assistindo a todos os filmes de DVDs da Versátil sem me preocupar em saber o enredo ou a opinião da crítica, com os filmes de terror muitas vezes começo a assistir a algum título na Netflix ou no Amazon Prime sem me preocupar muito em saber do que se trata. Outra mania minha: só assisto a filmes de terror mais ou menos recentes. Manias não se explicam.
O filme americano Corra! (dirigido por Jordan Peele, 2017, EUA) foi escolhido como o quinto melhor do século XXI, em qualquer gênero, pelo jornal New York Times. Não achei o filme ruim, mas penso que grande parte da sua importância se deve à profunda crítica social que ele traz, e não ao terror em si.De todo modo, o tipo de terror que Corra! representa é relativamente frequente em muitos filmes recentes: a história de alguém que chega a um lugar onde um grupo mais ou menos esquisito acaba se revelando muito mais estranho do que parecia à primeira vista. Filmes desse tipo que assisti recentemente são O Monastério (dirigido por Bartosz M. Kowalski, 2022, Polônia), A Freira (dirigido por Corin Hardy, 2018, EUA), Imaculada (dirigido por Michael Mohan, 2024, EUA e Itália), Piscina Infinita (dirigido por Brandon Cronenberg, 2023, Canadá, Croácia e Hungria), Suspiria (dirigido por Luca Guadagnino, 2018, EUA e Itália) e A Cura (dirigido por Gore Verbinski, 2017, EUA, Alemanha e Luxemburgo). O que mais gostei foi Midsommar (dirigido por Ari Aster, 2019, EUA e Suécia), em que o terror surge num lugar lindo, ensolarado (!) e bucólico no interior da Suécia.
Casos interessantes, para o público ocidental, são A Morte Sussurra (dirigido por Taweewat Wantha, 2023, Tailândia), um filme tailandês em que um exorcismo acontece sob o ponto de vista budista, e o excelente Umma (dirigido por Iris K. Shim, 2022, EUA), um filme americano em que uma mãe coreana atormenta a vida da filha, que nasceu na Coreia, mas vive nos Estados Unidos. Duas sequências de filmes que ainda não assisti inteiras estão entre as coisas mais assustadoras que já vi: V/H/S (dirigido por vários, 2012, EUA), que só assisti ao primeiro e que mostra uma série de pequenas histórias filmadas em VHS, e [REC] (dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, 2007, Espanha), que já assisti aos dois primeiros, uma série espanhola sobre uma possessão monstruosa num prédio em Barcelona. Esta última também tem uma versão americana, e é bom saber que ainda tenho bastante coisa — boa, espero — para assistir nessas séries. Muito assustador também é Canibais (dirigido por J.K. Bown, 2017, Estados Unidos), um filme em que seres humanos são criados como gado para o abate, sobre o qual já comentei aqui. Embora alguns filmes citados acima realmente me perturbem, é mais comum que os filmes de terror não me assustem muito, mas me divirtam bastante. Provavelmente o terror assusta mais o espectador quando o atinge em algum canto do seu inconsciente. É por isso que o filme A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2021, Coreia do Sul) foi um dos mais assustadores que já assisti: uma história de possessão com estudantes em uma universidade, com corredores escuros e estranhos, que me deixou realmente inquieto. Sim, grande parte dos meus sonhos e pesadelos se passa em corredores escuros e estranhos. Por sorte, a continuação de A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2023, Taiwan) é tão confusa que não chegou a me dar medo. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você tiver interesse em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)“(...) não havia nada de tão extraordinário naquela mulher pobre, aproveitadora, porém não de todo má. Neste ponto, em torno do meio do filme, é que entendi o segredo de Fernanda Montenegro: era como se ela fosse a própria Dora. Não havia a menor teatralidade em seus gestos, em seu falar, em seus modos. Até a sua maneira de sentar era a de uma mulher do povo. As características que muitas vezes são relacionadas a uma grande interpretação, como grandiloquência e dramaticidade, estavam completamente ausentes de sua interpretação minimalista e enormemente autêntica.”A única cena que realmente me emocionou no recente (2024) e badalado “Ainda estou aqui”, também de Walter Salles, foi a cena final, em que Fernanda Montenegro interpreta a principal personagem do filme, Eunice Paiva, já senil. Só quem já conviveu com alguém naquela condição tem ideia do que a nossa maior atriz fez naqueles poucos minutos. Em “Vitória”, de Andrucha Waddington (110 minutos), baseado num fato real, Fernanda Montenegro faz o papel de Joana Zeferino da Paz, uma senhora solitária e idosa que filmava os crimes do tráfico que ocorriam diante de sua janela em Copacabana, na Ladeira dos Tabajaras. Suas filmagens renderam prisão de aproximadamente 30 pessoas, incluindo traficantes e policiais militares envolvidos em corrupção. No filme Fernanda Montenegro demorou para me impressionar, assim como em “Central do Brasil”. No começo de “Vitória”, ela me pareceu a atriz de sempre, conhecida da televisão, meio grandiloquente e teatral. À medida que o filme transcorria, fui percebendo que ninguém mais poderia ter a grandeza de contar esta história impressionante: a nossa maior atriz consegue nos transportar para a vida da sra. Joana como se ela fosse a própria Joana. Espetacular. *** “Anora”, o grande vencedor do Oscar de 2025, dirigido por Sean Baker (139 minutos), conta a história de uma stripper de origem russa, Ani, que vive em Nova Iorque e se apaixona pelo filho de um milionário também russo, Ivan "Vanya" Zakharov (vivido por Mark Eydelshteyn). Depois de alguns dias de muito sexo, diversão com os amigos, bebida e drogas, ele pede a stripper em casamento. Os pais dele são contra a união, o que causa uma confusão que se pode imaginar: perseguições, guarda-costas, choro e violência. De todo modo, como bem lembrou André Barcinski em seu vídeo sobre o filme, todos os personagens de “Anora” são interessantes, e nenhum é puramente bom nem puramente mau. Além disso, o filme tem comédia, drama e ação numa proporção bem equilibrada, o que torna o filme merecedor de todos os prêmios que conquistou. O título de “Anora” é incrivelmente semelhante ao de “Vitória”, mas não dá para contar aqui para não estragar as duas surpresas. Além disso, os dois filmes têm como grande destaque a atuação das suas atrizes principais – Fernanda Montenegro, citada acima, e Mikey Madison, que faz a stripper Ani de maneira intensa e verdadeira. Apesar de eu mesmo ter torcido para Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro, para vencer o Oscar de 2025 por sua atuação de “Ainda estou aqui”, sou obrigado a reconhecer que Mikey Madison mereceu plenamente seu prêmio de melhor atriz na cerimônia. (Foto que acompanha o texto obtida no site Planeta Nerd. Quem estiver interessado em receber meus textos semanalmente clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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