Cinema

A Outra Terra – Uma pequena obra-prima de ficção científica
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A Outra Terra – Uma pequena obra-prima de ficção científica
13 de julho de 2025 at 18:46 0
Tudo começou quando a colunista da Folha, Lygia Maria, publicou em sua conta no X (@lygia_maria) que "A Outra Terra", filme de Mike Cahill de 2011, era sua resposta para a pergunta da conta @TheCinesthetic: "cite um filme que te surpreendeu, mas sobre o qual ninguém fala". Junto com a resposta, vinha a bela fotomontagem que acompanha este texto. Ao ver a imagem, que mostra uma "outra Terra" vista do nosso planeta, tive a intuição de que gostaria do filme – e comentei isso com a colunista –, mas não imaginava o quanto. "A Outra Terra" inicia com Rhoda Williams (Brit Marling), a protagonista, celebrando com amigos sua entrada no famoso MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts). Pouco depois, em uma cena no carro, ela ouve no rádio a notícia da descoberta de um novo planeta, semelhante à Terra, e visível no céu. Enquanto dirige, ela se inclina para fora da janela para observar este novo astro, chamado no filme de Terra 2, e acaba causando um acidente gravíssimo. Declarada culpada, Rhoda passa quatro anos na prisão. Ao sair, abandona os estudos, começa a trabalhar como servente de limpeza e tenta lidar com a culpa, buscando conversar com o motorista do carro que atingiu. Conforme o filme avança, a "Terra 2" vai se tornando cada vez maior no céu, e notícias sobre seu estranho comportamento são constantemente veiculadas em diversas cenas. "A Outra Terra" é filmado de maneira aparentemente amadora, frequentemente com cores dessaturadas e câmera na mão. Sua ausência de polimento faz com que não pareça um filme "cinematográfico" convencional. O clima, ao mesmo tempo lento e meio esquisito, me fez lembrar um dos meus filmes preferidos, "Império dos Sonhos" (Inland Empire), de David Lynch, de 2006 – embora este, é preciso dizer, seja bem mais estranho que "A Outra Terra". Além disso, a atuação de Brit Marling me remeteu bastante à grande atriz Liv Ullmann em filmes do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), como "Gritos e Sussurros", "Persona" e "Cenas de um Casamento". Não só as duas são fisicamente parecidas, como possuem um estilo de atuação contido e minimalista, com uma notável capacidade de comunicar muito através dos olhos, transmitindo profundidade, sofrimento ou uma complexidade silenciosa. É importante ressaltar que, apesar de ser um filme de ficção científica, "A Outra Terra" mergulha em uma angústia existencial – a culpa – como se fosse uma obra do mestre sueco. No entanto, a solução para os conflitos suscitados ao longo do filme não me agradou tanto, provavelmente porque me lembrou que esta pequena obra-prima, por mais esquisita e existencial que seja, é, no fim das contas, uma história de ficção científica. *** Quem se interessar em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Anora e Vitória
Cinema
Anora e Vitória
6 de abril de 2025 at 16:57 0
Assim como a famosa personagem Berma, de Marcel Proust, Fernanda Montenegro, em “Central do Brasil” (Walter Salles, 1998) me impressionou por simplesmente não parecer uma atriz famosa no filme. Conforme eu tinha comentado aqui,
“(...) não havia nada de tão extraordinário naquela mulher pobre, aproveitadora, porém não de todo má. Neste ponto, em torno do meio do filme, é que entendi o segredo de Fernanda Montenegro: era como se ela fosse a própria Dora. Não havia a menor teatralidade em seus gestos, em seu falar, em seus modos. Até a sua maneira de sentar era a de uma mulher do povo. As características que muitas vezes são relacionadas a uma grande interpretação, como grandiloquência e dramaticidade, estavam completamente ausentes de sua interpretação minimalista e enormemente autêntica.”
A única cena que realmente me emocionou no recente (2024) e badalado “Ainda estou aqui”, também de Walter Salles, foi a cena final, em que Fernanda Montenegro interpreta a principal personagem do filme, Eunice Paiva, já senil. Só quem já conviveu com alguém naquela condição tem ideia do que a nossa maior atriz fez naqueles poucos minutos. Em “Vitória”, de Andrucha Waddington (110 minutos), baseado num fato real, Fernanda Montenegro faz o papel de Joana Zeferino da Paz, uma senhora solitária e idosa que filmava os crimes do tráfico que ocorriam diante de sua janela em Copacabana, na Ladeira dos Tabajaras. Suas filmagens renderam prisão de aproximadamente 30 pessoas, incluindo traficantes e policiais militares envolvidos em corrupção. No filme Fernanda Montenegro demorou para me impressionar, assim como em “Central do Brasil”. No começo de “Vitória”, ela me pareceu a atriz de sempre, conhecida da televisão, meio grandiloquente e teatral. À medida que o filme transcorria, fui percebendo que ninguém mais poderia ter a grandeza de contar esta história impressionante: a nossa maior atriz consegue nos transportar para a vida da sra. Joana como se ela fosse a própria Joana. Espetacular. *** “Anora”, o grande vencedor do Oscar de 2025, dirigido por Sean Baker (139 minutos), conta a história de uma stripper de origem russa, Ani, que vive em Nova Iorque e se apaixona pelo filho de um milionário também russo, Ivan "Vanya" Zakharov (vivido por Mark Eydelshteyn). Depois de alguns dias de muito sexo, diversão com os amigos, bebida e drogas, ele pede a stripper em casamento. Os pais dele são contra a união, o que causa uma confusão que se pode imaginar: perseguições, guarda-costas, choro e violência. De todo modo, como bem lembrou André Barcinski em seu vídeo sobre o filme, todos os personagens de “Anora” são interessantes, e nenhum é puramente bom nem puramente mau. Além disso, o filme tem comédia, drama e ação numa proporção bem equilibrada, o que torna o filme merecedor de todos os prêmios que conquistou. O título de “Anora” é incrivelmente semelhante ao de “Vitória”, mas não dá para contar aqui para não estragar as duas surpresas. Além disso, os dois filmes têm como grande destaque a atuação das suas atrizes principais – Fernanda Montenegro, citada acima, e Mikey Madison, que faz a stripper Ani de maneira intensa e verdadeira. Apesar de eu mesmo ter torcido para Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro, para vencer o Oscar de 2025 por sua atuação de “Ainda estou aqui”, sou obrigado a reconhecer que Mikey Madison mereceu plenamente seu prêmio de melhor atriz na cerimônia. (Foto que acompanha o texto obtida no site Planeta Nerd. Quem estiver interessado em receber meus textos semanalmente clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Sobre Trilogias e Trios
Cinema, Literatura, Música
Sobre Trilogias e Trios
23 de março de 2025 at 17:31 0
É impressionante como, pelo menos para mim, em termos de qualidade literária as trilogias “MaddAddão” de Margaret Atwood, e “Os caminhos da liberdade”, de Jean-Paul Sartre, são similares. Citando primeiro as obras da escritora canadense, e depois as do existencialista francês, ambas começam com uma obra-prima - “Oryx e Crake” e “A idade da razão” -, continuam com livros ruins - “O ano do dilúvio”, sobre o qual comentei aqui, e “Sursis”, simplesmente ilegível - e terminam com algo um pouco melhor, mas mesmo assim nada demais: “MaddAddão”, lido recentemente (Rocco, 448 páginas, traduzido por Márcia Frazão) e “Com a morte na alma”. Também as trilogias têm em comum o fato de eu terminado de lê-las me irritando por continuar a leitura – com um pouco de “morte na alma”, eu diria. *** Estava navegando na internet dia desses quando vi uma foto do cartaz de “MaXXXine” (que é a foto que acompanha este texto), filme de 2024 do diretor Ty West lançado em 2024 (104 min), e fiquei curioso por assistir. Acabei descobrindo que o filme era a terceira parte de uma trilogia do mesmo diretor, chamada “X”, também formada por “X – a marca da morte”, de 2022 (105 min), e “Pearl”, também lançado em 2022 (102 min), e assisti aos três recentemente, todos pela Prime Video. Mia Goth - que é uma atriz britânica filha de uma brasileira e que viveu por aqui parte de sua juventude, e é neta da importante atriz Maria Gladys - não só é atriz principal dos filmes, como atuou como corroteirista e coprodutora de em alguns deles. “X – a marca da morte” fala sobre um grupo que vai rodar um filme pornográfico numa casa numa fazenda no interior dos Estados Unidos – e é lá que coisas estranhas começam a acontecer. Mia Goth faz ao mesmo tempo a “mocinha” – por falta de uma palavra melhor - e a vilã do filme, e é como a personagem malvada que ela retorna em “Pearl”, uma prequel que conta a juventude dela. Finalmente, “MaXXXine” é a continuação de “X – a marca da morte”, retomando a história da “mocinha” do primeiro filme da trilogia. Confesso que meu conhecimento sobre terror gore é basicamente inexistente, mas gostei muito da trilogia “X”. Mia Goth é estranha, sensual e misteriosa, e é o grande destaque dos filmes – não à toa, Martin Scorcese e Stephen King confessaram admiração por seu trabalho. *** Para que terminar este texto com o disco com o álbum “Piano Trios Nos. 1 Op.8 & 2 Op. 87”, de Johannes Brahms, com o violinista Augustin Dumay, o violoncelista Juan Wang e a pianista Maria João Pires? Não sei, na verdade. Afinal de contas, são dois trios para piano, e não trilogias! Sei lá. Acho que é porque eu queria comentar que, nestas obras, Johannes Brahms não cansa o ouvinte com tanta beleza: quando você acha que um trecho não pode ser mais lindo, ele vem com outra coisa mais maravilhosa ainda. Não canso de ouvir, há anos já. E a pianista portuguesa Maria João Pires não parece deste mundo, de tão perfeito que é o seu toque. *** Se você quiser receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Emilia Pérez
Cinema
Emilia Pérez
19 de janeiro de 2025 at 14:13 0
Rita (Zoë Saldaña) é uma advogada brilhante, mas insatisfeita porque é pouco reconhecida por seus superiores. Ela, que mora no México, é sequestrada na rua e os perpetradores estão a serviço de um dos maiores chefes de cartel de droga do país. O que o traficante, Juan "Small Hands" Del Monte, quer de Rita é pouco usual, para dizer o mínimo: não se sentindo à vontade como homem, ele – que é violentíssimo, casado com uma linda mulher chamada Jessi del Monte (Selena Gomez), com quem tem um casal de filhos - quer fazer transição de gênero. Juan quer passar a ser “Emilia Pérez” (Karla Sofía Gascón é a atriz trans que faz os dois papéis). Melhor não contar mais para não dar spoiler. Dirigido pelo francês Jacques Audiard, o musical “Emilia Pérez” (130 minutos, 2024) é um filme franco-mexicano que é um dos grandes favoritos para o Oscar de 2025. Entre vários prêmios já amealhados, ele venceu o do júri de Cannes do ano passado e suas quatro atrizes principais (Zoë Saldaña, Karla Sofía Gascón, Selena Gomez e Adriana Paz – que vive Epifania, personagem que aparece na segunda metade do filme) venceram conjuntamente o prêmio de melhor atriz daquele festival. “Emilia Pérez” estreará no Brasil no dia 6 de fevereiro próximo, e já foi lançado pela Netflix nos Estados Unidos. Quando se imagina um musical, normalmente se pensa em alguma coisa com glamour do tipo Broadway, como os filmes “Cantando na Chuva” ou “Chicago”. A primeira coisa que chama a atenção em “Emília Pérez” é que as cenas musicais são “esquisitas” – na falta de uma palavra melhor. Boa parte do filme se passa em lugares pobres e periféricos e, quando os personagens começam a cantar, a tendência é se perguntar: “mas que coisa estranha é essa?” - já que, ao contrário de glamour, as cenas musicais parecem só aprofundar a pobreza e a violência (estamos falando de uma poderosa gangue de traficantes mexicanos, afinal) apresentadas na história. Tudo parece meio fora de lugar em “Emilia Pérez”. A história esquisita de um homem poderoso e violento que quer virar mulher. As cenas musicais diferentes do que se espera. Apesar de a história ser mexicana, o filme é francês e as principais personagens são a espanhola Karla Sofía Gascón e as americanas Zoë Saldaña e Selena Gomez – fatos que causaram polêmica no México. O sotaque desta última, aliás, foi bastante criticado, mas isso aparentemente não incomodou o diretor Jacques Audiard, que não fala espanhol e que declarou que as diferenças entre “as nuances do acento mexicano versus castelhano passaram em branco” por ele e que foram “arrumadas na edição”. Eu diria que esse problema do sotaque de Selena Gomez é só mais uma esquisitice do filme, e por isso este fato não incomodou o diretor, que queria fazer um negócio diferente mesmo. “Emilia Pérez” parece se passar em uma realidade paralela, que se parece e que não se parece com a vida real. Mas é intenso e original o suficiente para merecer todas as críticas favoráveis e os prêmios que têm recebido. (imagem que acompanha o texto, com Karla Sofía Gascón no papel de Emilia Pérez,  obtida no site G1)
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David Lynch (1946-2025)
Cinema
David Lynch (1946-2025)
16 de janeiro de 2025 at 20:52 0
Quando, na adolescência, eu e alguns poucos amigos saímos assustados do cinema depois de uma sessão de “Veludo Azul”. Quando, recém-casados, eu e a Valéria saímos assustados do cinema depois de uma sessão de “Coração Selvagem”, Palma de Ouro em Cannes. Quando, mais de dez anos atrás, dei uma piscadela e acordei assustado com uma cena esquisita de “Império dos Sonhos”, um dos meus filmes preferidos e que não sei bem por que amo tanto – deve ser porque ele se parece com alguns dos meus próprios sonhos. Quando entendi pouquíssimo a história de “Cidade dos sonhos”, filme “explicado” em uma postagem perdida na internet, que eu li e da qual não lembro nada, nem onde foi. Quando, durante a pandemia, assisti à terceira temporada de “Twin Peaks” na Netflix, não gostei, mas que tinha umas imagens impressionantes – algumas parecidas com um clipe do Radiohead, será que só eu reparei? Quando fiquei absolutamente hipnotizado pela delicadeza de “História Real”. Quando resolvi colocar a sua foto no meu álbum “cinema”, do Facebook, apenas para descobrir que ela já estava lá. Quando, também na pandemia, assisti às duas primeiras temporadas de “Twin Peaks”, e descobri que a estética vaporwave tinha sido inventada por ele ainda nos anos 1990. Quando escrevi aqui sobre “Os últimos dias de Laura Palmer” e não cumpri a promessa feita ali de escrever sobre a série “Twin Peaks”. Quando, alguns dias atrás, fiquei chocado comigo mesmo ao perceber que não tinha assistido, numa caixa de DVDs que comprei há muitos anos, “Erasehead” e “O homem elefante”, e me perguntei: será que ele vai fazer mais filmes? Não vai. David Lynch faleceu hoje (16 de janeiro de 2025) e fico me lembrando das muitas vezes – algumas citadas acima - em que suas obras marcaram o meu amor pelo cinema. Descanse em paz, gênio. (foto que acompanha o texto obtida no site do jornal “The Guardian”)
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Fernanda Torres escritora
Cinema, Literatura
Fernanda Torres escritora
6 de janeiro de 2025 at 23:19 0
A vencedora do Globo de Ouro de 2025 de melhor atriz de filme (drama) é também uma excelente escritora. Seguem abaixo os dois textos que escrevi sobre os romances de Fernanda Torres. Aproveitando a vitória dela, acabei de comprar seu livro de crônicas, "Sete anos", sobre o qual logo comento por aqui. ***

“O Fim”

27 de julho de 2015
O início de cada um dos capítulo de O Fim, de Fernanda Torres, é um monólogo interior com os últimos momentos da vida de cada um dos cinco personagens principais da história – na continuação, os capítulos são escritos em terceira pessoa, contando as histórias inter-relacionadas de Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro. Os cinco amigos viveram a grande liberdade de sexo e drogas no Rio de Janeiro entre os anos 50 a 70 e terminam a vida – a partir do início dos anos 90 – deprimidos, solitários e, quase sempre, abandonados pelos familiares mais próximos – a quem haviam negligenciado durante toda a vida.
Fernanda Torres parece querer mostrar, de forma cínica e amarga, que a grande liberdade de costumes daqueles anos loucos pôde transformar quem os viveu em monstros egoístas, autoindulgentes, capazes de trocar qualquer valor moral por um naco de prazer. Quem conhece aquela atriz meio amalucada de Os Normais e das suas, muitas vezes, destrambelhadas entrevistas, não consegue imaginar que seu primeiro romance seria tão sério e, porque não dizer, profundo – mesmo que muitas vezes bem humorado. Pelo menos, não me surpreendi com a qualidade indiscutível de sua prosa: as colunas mensais que ela escreve na Folha já me mostravam que ali estava alguém com um grande talento literário. Fico na expectativa de seus próximos livros. ***

“A glória e seu cortejo de horrores”

22 de abril de 2018
Eu tinha escrito o seguinte sobre o romance anterior de Fernanda Torres, “O Fim”, lançado em 2013: “Quem conhece aquela atriz meio amalucada de Os Normais e das suas, muitas vezes, destrambelhadas entrevistas, não consegue imaginar que seu primeiro romance seria tão sério e, porque não dizer, profundo – mesmo que muitas vezes bem-humorado. Pelo menos, não me surpreendi com a qualidade indiscutível de sua prosa: as colunas mensais que ela escreve na Folha já me mostravam que ali estava alguém com um grande talento literário. Fico na expectativa de seus próximos livros. ” Baseado nisso, quando descobri que Fernanda Torres tinha lançado um segundo romance, “A glória e seu cortejo de horrores” (Companhia das Letras, 215 páginas), comprei-o assim que pude, e o livro é o objeto do presente texto (ela também lançou em 2014 um livro de crônicas, “Sete Anos”, que ainda não li). “A glória e seu cortejo de horrores” conta a história do ator Mario Cardoso, personagem fictício que é uma espécie de exemplar de toda uma geração: ainda jovem, nos anos 60, foi fazer uma espécie de teatro de guerrilha no sertão nordestino; depois, já no Rio de Janeiro, ingressa na produção de “Hair”, exemplar mais famoso do desbunde hipppie; acaba sendo descoberto mais tarde em duas produções de vanguarda, “Tio Vânia”, de Tchekhóv, e “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos. O enorme sucesso destas duas montagens acaba por levá-lo à TV, onde faz novelas e fica rico e famoso no país inteiro. Anos depois, abandona a TV e cria uma montagem totalmente fracassada de “Rei Lear”, de Shakespeare – e é com este fracasso que “A glória e seu cortejo de horrores” se inicia: a vida pregressa de Mario Cardoso é contada por meio de suas reminiscências. Confesso que eu achava irritantes boa parte das entrevistas do extinto programa de entrevistas do Jô Soares com atores, frequentemente se auto elogiando, falando maravilhas de seus próprios trabalhos: a acreditar em boa parte de que eles falavam de si mesmos no programa do Jô, o teatro é uma arte espetacular, os atores são pessoas especiais, participar de peças é sempre recompensador e especial. Em “A glória e seu cortejo de horrores” há muito pouco deste discurso cansativo: é ressaltada, claro, a importância do teatro e da arte, mas o próprio Mario Cardoso não cansa de repetir que a maior característica dele é a vaidade, o amor por si mesmo. É claro que no romance as coisas não são assim tão esquemáticas: afinal de contas, mais do que uma ótima atriz, tenho a impressão de que Fernanda Torres é, mesmo, uma grande escritora, que escreveu mais um grande livro. E grandes livros têm mais de uma leitura possível. *** (Foto que acompanha o texto obtida no Gshow)
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Auschwitz por dentro e por fora
Cinema, História
Auschwitz por dentro e por fora
5 de janeiro de 2025 at 19:09 0
O filme começa em um cenário idílico, numa beira de rio: alguns jovens, crianças e casais se divertem e relaxam numa bela paisagem com um linda vegetação. As pessoas têm uma tonalidade de pele muito clara, uns são loiros, alguns rapazes estão sem camisa. Eles voltam por um bonito caminho no meio do mato. A casa de um casal do grupo citado acima é grande, bonita, com belos jardins perfeitamente cuidados - lembra um pouco a perfeição dos jardins de "Playtime - tempo de diversão", clássico de Jacques Tati de 1967. As cenas de lugares bonitos com uma linda vegetação também lembram a cidade onde vivem os personagens principais da primeira temporada da série "O conto da aia", baseada no romance homônimo de Margaret Atwood. O filme em que questão é "Zona de interesse" (direção de Jonathan Glazer, Estados Unidos, Reino Unido e Polônia, 2023, 105 minutos, disponível no Prime Video), e não é nenhuma comédia que debocha da modernidade do final dos anos 1960, como "Playtime", e nem uma história fictícia que ocorre num futuro distópico, como "O conto da aia". O casal que mora na linda e bela casa é formado por Rudolf Höss (vivido por Christian Friedel), que foi o comandante do campo de extermínio de Auschwitz e é considerado por muitos o maior assassino em massa da história, e sua esposa Hedwig Höss (vivida por Sandra Hüller). "Zona de interesse" é baseado numa história tragicamente real. O principal acontecimento do filme é a tentativa dos superiores de Höss de tirá-lo do cargo de comandante do campo de extermínio, e o desespero dele e da sua mulher, que lutam para a sua permanência no posto. O horror do lugar é lembrado só de vez em quando, como quando se ouve o grito de alguns prisioneiros, ou quando se percebe que o comportamento das empregadas de  Hedwig Höss é estranhíssimo: elas são judias e basicamente não falam e nem olham para cima. Na maior parte do filme tudo é limpo, organizado, bonito e funcional. É assustador. Não à toa Steven Spielberg acha que "Zona de interesse" é o melhor filme sobre o Holocausto já feito. Se tudo é assustadoramente limpo e organizado em "Zona de interesse", em "O filho de Saul" (dirigido por László Nemes, Hungria, 2015, 107 minutos) tudo é exatamente o seu contrário: o filme conta a história de Saul Ausländer (Géza Röhrig), um prisioneiro de Auschwitz que trabalha jogando os cadáveres assassinados nas câmaras de gás num crematório, num ritmo de trabalho inumano. Lá pelas tantas Saul acha que um menino que sobreviveu ao gás e foi posteriormente assassinado por um guarda nazista é seu filho, e ele tenta dar um enterro digno e religioso para o garoto. Não vou contar mais para não dar spoiler. A câmera, em close-up, fica grande parte do tempo filmando a frente e as costas de Saul Ausländer, deixando quase todo o resto fora de foco. Isso acaba deixando uma sensação de permanente desconforto no espectador, como se toda a violência que os prisioneiros vivem não fosse o suficiente. Em "O filho de Saul" basicamente não há nenhum momento de trégua, e provavelmente este filme consegue dar uma ideia bastante verossímil do inferno que era ser prisioneiro em Auschwitz - bastante diferente, aliás, da visão paradisíaca que Rudolf Höss e Hedwig Höss tinham da vida a um muro de distância. (Agradeço especialmente ao crítico André Barcinski, por me chamar a atenção num vídeo no YouTube sobre "Zona de interesse", e a meu grande amigo Antonio Carlos Sandoval Pedro, o Nash, que é especialista em cinema e comentou "O filho de Saul" em uma apresentação com debate na UFPR alguns anos atrás. A imagem que acompanha o texto, de "O filho de Saul", foi obtida no site "O plano crítico".)
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Revendo filmes
Cinema
Revendo filmes
17 de novembro de 2024 at 15:23 0
Acho que foi no Cine Groff, na extinta Galeria Schaffer, no centro de Curitiba, que assisti a "Stalker" (1979, 2h43min, Alemanha/União Soviética), de Andrei Tarkovski. Um filme longo e lento, com algumas cenas coloridas e outras numa espécie de preto-e-branco em sépia, em cenários de construções decadentes ou abandonadas, onde a floresta e a extrema umidade começam a tomar conta de tudo e com uma história misteriosa - e meio incompreensível para o adolescente metido a intelectual que eu era nos anos 1980. Sempre quis rever este filme, o que só fui fazer dia desses. A história não era tão difícil de entender assim. Basicamente um guia (o "Stalker") tenta levar duas pessoas a uma "Zona" no meio de uma região abandonada, onde os desejos de cada um são satisfeitos. A sua mulher tenta de todas as maneiras que o guia não faça mais uma expedição, mas o "Stalker" não a obedece. O filme - que merece o status de cult que tem até hoje - conta uma história profunda de fé e crença, e me lembrou demais a de "Ordet" (1955), obra-prima de Carl Dreyer. *** Eu já era casado quando resolvi assistir a "Encontros e desencontros" (2003, Lost in translation, Sofia Coppola, 2003, 1h41min, Estados Unidos/Japão), mas não lembro quando foi. Certamente assisti ao filme em casa e não no cinema, e devo ter lido alguma crítica favorável que dizia que o filme era "leve e bom", ou coisa assim. Lembro que gostei bastante do filme mas, para mim, era isso mesmo: "leve e bom". Revi dia desses. Bill Murray faz Bob Harris, um ator de seus cinquenta anos que está em Tóquio para algumas sessões de publicidade, não entende nada de japonês, e muitas cenas melancolicamente engraçadas são criadas a partir deste fato - aliás, a incompreensão da linguagem é um dos motivos para o título original, em tradução livre, se chamar "perdido na tradução". Bob Harris se encontra no hotel com Charlotte (Scarlett Johansson), a esposa de um fotógrafo que trabalha virtualmente o dia inteiro e a deixa sozinha no hotel. Ambos se sentem meio perdidos e solitários em Tóquio, e eu não lembro de ter visto um filme onde tantos diálogos sem palavras são trocados entre dois personagens: Bob Harris, bem mais velho que a jovem Charlotte, parece saber tudo o que se passa na cabeça da moça apenas olhando para ela, e o inverso também vale. A interpretação sublime de Bill Murray e Scarlett Johansson faz com que "Encontros e desencontros" seja muito mais do que apenas um filme "leve e bom". *** Eu estava trocando de canal na TV a cabo muitos anos atrás quando assisti a uma cena chocante de guerra (não vou entrar em detalhes para não dar spoiler) em que participavam, no meio de vários soldados, os atores Liv Ullmann e Max von Sydow. Pela crueza da cena e pelos atores, logo pensei que era um filme de Ingmar Bergman, e eu estava certo. Poucos diretores são tão diretos - e mesmo chocantes - para tratar de algum tema importante quanto ele, e posso citar vários exemplos: a psicopatia ("Persona"), a sexualidade ("O Silêncio"), a idade média ("O Sétimo Selo"), a perda da fé ("Através de um espelho"), a dor ("Gritos e sussurros"). Apenas por um trecho eu vi que ele tratava a guerra da mesma maneira crua com que tratava outros assuntos. O nome do filme em que aparecia a cena supracitada se chama "Vergonha" (1968, Skammen, 103 min). No filme, Jan e Evan Rosenberg (Max von Sydow e Liv Ullmann, citados acima) são dois músicos que vão viver em uma ilha para fugir da guerra civil que assola seu país. Assisti ao filme poucos meses depois de ter assistido àquela cena na TV a cabo, e o revi dia desses. Na revisão o filme me pareceu ainda melhor e mais chocante do que da outra vez. (foto que acompanha o texto, de "Stalker", obtida na Far Out Magazine)
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