“Rastejando até Belém”, de Joan Didion
Literatura
“Rastejando até Belém”, de Joan Didion
19 de março de 2022 0
Logo no início de “Rastejando até Belém”, de Joan Didion (Todavia, 240 páginas, tradução de Maria Cecilia Brandi, lançado originalmente em 1968) se lê que “o Vale de San Bernardino fica a apenas uma hora de Los Angeles, na direção leste, pela rodovia San Bernardino, mas em certos sentidos é um lugar atípico: não a Califórnia costeira dos crepúsculos subtropicais e dos suaves ventos do oeste vindos do Pacífico, mas uma Califórnia mais severa, assombrada pelo Mojave do outro lado das montanhas, devastada pelo calor e pela secura do vento de Santa Ana, que desce pelas encostas a 160 quilômetros por hora, ruge pelos quebra-ventos de eucalipto e dá nos nervos. Outubro é o pior mês de ventania, o mês em que é difícil respirar e as colinas ardem espontaneamente. Não chove desde abril. Toda voz parece um grito. É a estação do suicídio, do divórcio e do pavor arrepiante, onde quer que o vento sopre.” É um trecho impressionante e que faz parte do primeiro ensaio do livro, “Sonhadores de um sonho dourado”, sobre algumas famílias que foram criar uma comunidade no Vale de San Bernardino. E assim os ensaios vão transcorrendo, sempre descrevendo aspectos da vida americana. Uma escola fundada pela cantora Joan Baez. Um jantar com John Wayne no final da vida, quando estava com câncer e estava trabalhando em seu último filme. Um comunista, o camarada Laski. E algumas histórias pessoais, em que a autora fala de seu marido, sua filha, suas manias. O melhor ensaio do livro é o longo “Rastejando Até Belém”, que dá o título ao livro. É uma história de hippies: a autora vai até São Francisco na Califórnia no ápice da power flower, e o que ela mostra não tem nada a ver com paz e amor, mas sim com pessoas perdidas, sem rumo e drogadas o dia inteiro – sua descrição é fria e, às vezes, cruel. Na verdade, essa visão um tanto fria e amarga transpassa o livro inteiro que, por isso, acaba sendo meio cansativo – ao menos para mim. Mas que é escrito com maestria, não há dúvidas a respeito. (fonte da foto: Jornal Rascunho)
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“As rãs”, de Mo Yan
Literatura
“As rãs”, de Mo Yan
20 de fevereiro de 2022 0
Uma região do globo em que as pessoas tinham nomes como Chen Orelha, Chen Nariz e Wang Vesícula, numa época em que as mulheres não podiam ter mais de um filho e se desesperavam por isso. Um tempo em que a fome era tão grande que as crianças chegavam a comer carvão. Uma aldeia do interior em que as fofocas grassavam. Estes são os pontos que, para um leitor do Ocidente nos tempos atuais, mais chamam a atenção em inicialmente em “As rãs”, de Mo Yan (Companhia das Letras, 496 páginas, tradução de Amilton Reis, publicado originalmente em 2009), escritor chinês vencedor do Prêmio Nobel de 2012 por, segundo a Academia Sueca, escreve de maneira “que com realismo alucinatório funde contos populares, história e contemporaneidade”. A história se passa numa região remota da China e se desenrola por algumas décadas, desde a fome no período de Mao Tsé-Tung até os tempos modernos – passando, claro, pelo período de controle rígido da natalidade iniciado na década dos anos 1970, que fazia algumas mulheres se desesperarem. A história principal é a da tia do narrador, Wan Perna, apelidado de Corre Corre por ser muito veloz em provas de atletismo. Ela é a melhor parteira da região, e é empregada pelo governo para controlar – com métodos às vezes violentos – a natalidade local. A tia é uma personalidade tão impressionante que um japonês acaba entrando em contato com Corre Corre para que este faça uma peça de teatro sobre ela. “As rãs” é um documento notável sobre uma época, bem-humorado e escrito com brilho e intensidade – parece que temos facilidade de “enxergar” tudo o que Mo Yan descreve. Um ótimo livro, que me lembrou as grandes histórias de Charles Dickens, famoso por criar personagens “maiores que a vida”: a tia do narrador de “As rãs”, neste caso.
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“Pós-F” (Guairinha, Curitiba, 6/2/2022)
Shows e Espetáculos
“Pós-F” (Guairinha, Curitiba, 6/2/2022)
6 de fevereiro de 2022 0
Fernanda Young (1970-2019) foi uma escritora e roteirista conhecida, entre outros trabalhos, pelos roteiros dos excelentes seriados “Os Aspones” (2004) e “Os Normais” (2001-2003), escritos em conjunto com seu marido Alexandre Machado. Escreveu diversos romances, e minha crítica sobre “Aritmética”, de 2004, está aqui. “Pós-F”, publicado em 2018, foi a primeira obra de não-ficção de Fernanda Young – e o “F” do título se refere ao feminismo. A atriz Maria Ribeiro gostou tanto do livro que resolveu encená-lo: pediu ajuda para a escritora, que lhe disse que seria bom, porque ela (Maria Ribeiro) “também é maluca”. É isso que a própria atriz comenta na apresentação de “Pós-F” agora há pouco, numa excelente apresentação realizada no Guairinha, aqui em Curitiba. O texto de Fernanda Young fala de sua vida, sexualidade, morte, amor e, claro, feminismo, de maneira direta e clara. A peça é de curta duração, e não perde o interesse em nenhum instante – o silêncio absoluto da plateia durante a apresentação mostrou como todos pareciam extremamente atentos. O maior destaque é interpretação de Maria Ribeiro: a sua atuação no monólogo é impressionante, e o tom utilizado é tranquilo e discreto – num texto que poderia, com outra atriz, descambar para um discurso agressivo e gritado. Nada disso. Maria Ribeiro achou o tom certo e nós, da plateia, só tivemos a agradecer por isso. [a foto que acompanha o texto foi obtida no Instagram da peça]
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“A realidade não é o que parece”, de Carlo Rovelli
Ciência
“A realidade não é o que parece”, de Carlo Rovelli
23 de janeiro de 2022 0
Eu lembro de ter visto o Luiz Felipe Pondé dizendo em algum lugar que, se você critica Platão, você está errado. O físico italiano Carlo Rovelli, no final do seu “A realidade não é o que parece” (Objetiva, 296 páginas, tradução de Silvana Cobucci), com a maior desfaçatez, chama de “tolices” as discussões sobre a imortalidade da alma em “Fédon”, clássico do filósofo grego. Carlo Rovelli odeia discussões espirituais. Lá pelas tantas, ele declara que as pessoas que têm fé preferem uma certeza qualquer, mesmo que evidentemente infundada, à incerteza que vem de se dar conta dos próprios limites. Alguns preferem acreditar em uma história nem que seja apenas porque os anciãos da tribo acreditavam nela — não importa se é verdadeira ou falsa —, em vez de aceitar a coragem da sinceridade: aceitar que vivemos sem saber tudo o que gostaríamos. Em outro momento ele declara que “ciência e religião estão geralmente em rota de colisão” – não na minha cabeça, Carlo Rovelli, e nem na de muita gente. É isso que me irritou em “A realidade não é o que parece” – livro bem escrito que conta a história dos cientistas que ajudaram a criar a teoria, criada pelo próprio Rovelli, da “gravidade quântica”, rival da teoria das cordas (bem mais interessante, aliás, para um não especialista como eu): a postura arrogante e desrespeitosa de alguém que debocha das crenças de no mínimo 80% da humanidade. Francamente, prefiro os ateus militantes como Richard Dawkins e Christopher Hitchens, que entregam o que prometem e não criam livros com nomes como “A realidade não é o que parece”, que mais lembram alguma discussão metafísica do que qualquer outra coisa.
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Livros que eu mais gostei de ter lido em 2021
Ciência, História, Literatura
Livros que eu mais gostei de ter lido em 2021
16 de janeiro de 2022 0
“Vulgo Grace”, de Margaret Atwood: a história de um assassinato real ocorrido no século XIX foi o ponto de partida para um livro fascinante, transformado numa série tão fascinante quanto. “O fim”, de Karl Ove Knausgård: o final da monumental série “Minha luta” mistura ensaios, principalmente sobre o nazismo, e problemas pessoais ligados ao sucesso de seus livros anteriores e ao casamento do autor. “Mundos paralelos – uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do Cosmo”, de Michio Kaku: a estranha física moderna e valores humanos num livro afetivo e delicioso. “Os andarilhos do bem”, de Carlo Ginzburg: tudo é estranho neste livro de não-ficção que conta batalhas espirituais contra bruxas na Itália do século XVI. “O segundo tempo”, de Michel Laub: o narrador desta novela excelente não sabe se vai dar ou não uma notícia ruim a seu irmão mais novo durante um Grenal no estádio Beira Rio, em Porto Alegre. “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez: só Gabriel García Márquez para conseguir fazer o leitor sentir empatia por um caudilho sanguinário. “Rei, valete, dama”, de Vladimir Nabokov: já Nabokov não consegue fazer com que o leitor sinta empatia pelos personagens deste romance, mas ele escreve tão bem que isso pouco importa. “A leitora do Alcorão”, de G. Willow Wilson: autora de HQs, criadora da super-heroína Kamala Khan da Marvel, G. Willow Wilson emociona na descrição de sua conversão ao Islã. “Amiga de juventude”, de Alice Munro: as histórias da canadense, Nobel de 2012, são pérolas da literatura. “A gafieira de dois tostões”, de Georges Simenon: conforme o comentário do leitor Heitor Vieira de Resende no site da Amazon, “o pior livro de Simenon é ainda muito bom”. E este certamente não é o pior livro de Simenon. (foto: Karl Ove Knausgard, obtida no Rascunho)
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Os filmes noir e polar a que mais gostei de ter assistido em 2021
Cinema
Os filmes noir e polar a que mais gostei de ter assistido em 2021
7 de janeiro de 2022 0
Comentei aqui no final de 2020 que “filmes noir são filmes policiais americanos lançados nas décadas de 1940 e 1950, com fotografia expressionista. O gênero polar, às vezes chamado de noir francês, é um estilo que começou baseado no similar americano e que continuou com grande sucesso até os anos 1980 – aliás, é interessante acrescentar que existem filmes polar coloridos, ao contrário dos noir americanos, sempre em preto e branco.” Bem essa última informação está errada: alguns filmes noir, como “Um sábado violento”, de Richard Fleischer, de 1955, são coloridos. Para um fã do estilo, é estranho saber como eram as cores na época. Feita a correção, segue a lista dos filmes noir e polar a que mais gostei de ter assistido em 2021, juntamente com o volume da coleção da Versátil em que cada um aparece: “Curva do destino” (Detour, 1945, 69 min, de Edgar G. Ulmer): um pianista dá carona para uma moça e tudo começa a dar errado. Uma história impressionante, um roteiro excepcionalmente bem amarrado. Coleção Filme Noir vol. 13. “O caso da Rua Montmartre” (125 rue Montmartre, 1959, 87 min, de Gilles Grangier): mais um filme com coisas que dão errado: neste caso quem se dá mal é o vendedor de jornais Pascal, vivido pelo extraordinário Lino Ventura. Coleção Filme Noir Francês vol. 5. “O paxá” (Le pacha, 1968, 90 min, de Georges Lautner): um policial quer se vingar do assassinato de um amigo. Eu costumo até preferir os filmes noir, pelo ambiente, do que os polar, mas os atores franceses de filmes policiais, como o grande Jean Gabin neste caso – que faz o homem à procura de vingança – em geral são melhores que os correspondentes do outro lado do Atlântico. E este filme ainda tem a participação especial do grande Serge Gainsbourg, cantando. Coleção Filme Noir Francês vol. 5. “O sádico selvagem” (The Lineup, 1958, 86 min, de Don Siegel): um psicopata está atrás de uma família que trouxe heroína numa viagem de navio sem saber. Assustador. Coleção Filme Noir vol. 13. “Um sábado violento” (Violent Saturday, 1955, 90 min, de Richard Fleischer): citado acima, este filme noir colorido, que conta um assalto e suas consequências, é assustador e claustrofóbico como o citado logo acima. Coleção Filme Noir vol. 17. “O ódio é cego” (No Way Out, 1950, 106 min, de Joseph L. Mankiewicz): um médico negro é perseguido pelo irmão de um paciente branco que ele tentou salvar. Bem-feito para mim, que falei dos atores franceses: neste filme o médico negro é ninguém menos que Sidney Poitier, em sua estreia no cinema, e o homem que o persegue é o grande Richard Widmark. Descanse em paz, Sidney Poitier. Coleção Filme Noir vol. 12. “Por uma mulher má” (The Man Who Cheated Himself, 1950, 82 min, de Felix E. Feist): dois irmãos policiais: o mais velho tem uma amante envolvida num assassinato, e o mais novo investiga o caso sem saber do envolvimento do irmão. Um grande filme que apresenta grandes questões. Coleção Filme Noir vol. 13. “Adeus, bruto” (Adieu, Poulet, 1975, 91 min, de Pierre Granier-Deferre): Lino Ventura e Patrick Dewaere estão excepcionais como investigadores de crimes políticos. É, os atores franceses de filmes polar valem, e muito, o ingresso. Coleção Filme Noir Francês vol. 3. “Os sicilianos” (Le clan des Siciliens, 1969, 125 min, de Henri Verneuil): com Jean Gabin e Alain Delon como gângsters e Lino Ventura como investigador, não precisa falar mais nada. Coleção Filme Noir Francês vol. 3. “Borsalino” (Idem, 1970, 125 min, de Jacques Deray): aqui temos Alain Delon e Jean-Paul Belmondo em seu crescimento no mundo do crime. É, acho que mantenho o que comentei ali no item 3. Coleção Filme Noir Francês vol. 5.
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Os filmes não policiais a que eu mais gostei de ter assistido em 2021
Cinema
Os filmes não policiais a que eu mais gostei de ter assistido em 2021
19 de dezembro de 2021 0
Os filmes não policiais que eu mais gostei de ter assistido esse ano seguem abaixo. Logo lanço a lista dos noir e polar, como tenho feito há uns poucos anos. Quando for o caso, clicando no título você pode ir para meu comentário original sobre o filme. “Anjos caídos”, de Wong Kar-Wai (1995): esse filme tem um matador de aluguel com uma parceira misteriosa, um surdo-mudo muito doido, e algum amor envolvido. Os filmes de Wong Kar-Wai são lindos e esquisitos, e eu amo. “The wedding march”, de Erich von Stroheim (1928): meu filme preferido de um dos meus diretores preferidos. “À meia-noite levarei sua alma”, de Zé do Caixão (1964): o filme de estreia do Zé do Caixão tem uma qualidade artística que independente do baixo orçamento. “Crepúsculo dos deuses”, de Billy Wilder (1950): a decadência dos grandes artistas do cinema mudo em Hollywood depois do advento do cinema falado nunca foi mostrada de maneira tão cruel quanto neste clássico absoluto. “A grande ilusão”, de Jean Renoir (1949): este filme, cuja história se passa na Primeira Guerra Mundial mas que foi lançado poucos anos antes do início da Segunda, mostra o cavalheirismo – que as grandes guerras sepultaram para sempre – entre nobres de países inimigos. “Império dos sonhos”, de David Lynch (2006): por que eu gosto tanto desse filme maluco de duas horas e cinquenta e dois minutos de duração? Não sei, mas revi essa coisa doida esse ano e quero rever muitas vezes ainda. “Amores expressos”, de Wong Kar-Wai (1994): uma história de sessão da tarde filmada por um maníaco. “Ordet”, de Carl Theodor Dreyer (1955): uma história e um filme milagrosos. Literalmente. “Twin Peaks: os últimos dias de Laura Palmer”, de David Lynch (1992): muito mais assustador que a famosa série na qual o filme foi baseado. Muito mais mesmo. “Deus e o diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha (1964): uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.
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Os dois primeiros romances de Vladimir Nabokov
Literatura
Os dois primeiros romances de Vladimir Nabokov
5 de dezembro de 2021 0
Li recentemente os dois primeiros romances de Vladimir Nabokov (1899-1977), “Mary” (Record, 175 páginas, tradução de Pinheiro de Lemos, publicado originalmente em 1926) e “Rei, Valete, Dama” (Artenova, 196 páginas, tradução de Affonso Blacheyre, publicado originalmente em 1928). Os dois livros são da fase russa de Nabokov, um dos raros grandes autores que escreveram partes importantes de sua obra em dois idiomas diferentes  (russo na primeira parte da carreira, inglês na segunda); o próprio escritor ajudou na tradução dos dois livros para a língua inglesa: a de “Mary” foi feita por Michael Glenny e publicada em 1970, enquanto a tradução de “Rei, Valete, Dama” foi feita pelo próprio filho do autor, Dmitri Nabokov, e publicada em 1969.  “Mary” (lançada também em outras edições com o título “Machenka”, conforme o original russo) conta a história, em primeira pessoa, de Lev Glebovich Ganin, um emigrante russo que mora em Berlim. O maior tema do romance é a paixão do narrador por Mary, uma moça por quem ele era apaixonado na infância/adolescência, quando ainda vivia na sua terra natal. Ganin descobre que ela vai chegar em Berlim e sua obsessão pela garota vai tomando conta de todos os aspectos de sua vida. Mas o romance também descreve, com grande quantidade de detalhes, a vida de outros moradores da pensão, como um velho poeta russo, Anton Sergeyevich Podtyagin, uma jovem menina alemã, Klara, a senhoria, Lydia Nikolaevna Dorn, e seu vizinho, Aleksey Ivanovich Alfyorov. “Rei, valete, dama” conta história de um triângulo amoroso: Martha Dreyer é casada com um rico empresário, Kurt Dreyer, e acaba tendo um tórrido caso com o sobrinho do marido, Franz Bubendorf, um jovem pobre que trabalha numa loja do tio. O caso entre Franz e Martha vai tomando ares cada vez mais sinistros, e logo os dois pensam em arranjar um jeito de assassinar Kurt Dreyer.  É difícil ter alguma empatia pelos três personagens principais de “Rei, valete, dama”: Martha e seu amante são frios e calculistas, enquanto Kurt Dreyer é totalmente autocentrado, embora não tenha nenhum traço de maldade. Mas, como escreve Nabokov! Suas descrições são precisas, claras, parece que conseguimos ver tudo o que o grande escritor descreve. Um grande romance do autor russo – como sempre, aliás.
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