Caito Mainier

Uma declaração de afeto ao Choque de Cultura, ao Falha de Cobertura e ao impagável Guia da Copa
Esporte
Uma declaração de afeto ao Choque de Cultura, ao Falha de Cobertura e ao impagável Guia da Copa
31 de outubro de 2026 at 15:37 0
Não lembro direito quando comecei a assistir ao Choque de Cultura – “programa cultural, com os maiores nomes do transporte alternativo, sempre falando sobre cultura, e hoje, cinema” –, em que quatro motoristas de van falam sobre cinema. O programa é minimalista: o coordenador dos trabalhos é Rogerinho do Ingá (Caito Mainier), que fica atrás de um balcão, diante dos outros três comentaristas sentados em bancos em formato de pequenas caixas: Renan de Almeida (Daniel Furlan), Maurílio dos Anjos (Raul Chequer) e Julinho da Van (Leandro Ramos). O humor deste quadro do YouTube, de responsabilidade da produtora TV Quase, é bem do tipo "ame ou odeie": não conheço ninguém que ache o programa mais ou menos engraçado. Ou a pessoa se mata de rir com a quantidade industrial de bobagens que os quatro comentaristas de cinema e motoristas de transporte alternativo falam, ou simplesmente não acha a menor graça naquele absurdo todo. Eu, claro, faço parte do primeiro grupo. Não sei se o Choque de Cultura vai continuar algum dia: em 2023 eles lançaram uma série na TV Brasil, na qual os personagens saem do estúdio para mostrar como é sua “vida” fora dali - e aparentemente não fizeram mais nada depois disso. Já o Falha de Cobertura continua firme e forte. É um programa sobre futebol no YouTube, também da TV Quase, mas agora em parceria com o canal gigante Podpah, em que dois atores e roteiristas do Choque de Cultura vivem outros personagens: o ex-jogador de futebol, empresário e pilantra Craque Daniel (Daniel Furlan) e Cerginho (assim, com C mesmo) da Pereira Nunes, um “jornalista” ingênuo, semianalfabeto e que obedece ao companheiro mesmo quando as ordens são completamente absurdas – como quando Craque Daniel o impede de se hidratar. Eu sabia da existência do Falha de Cobertura praticamente desde que conheci o Choque de Cultura, mas não me interessava muito, porque entendia pouco de futebol contemporâneo. No entanto, de tanto assistir aos vídeos do jornalista Mauro Cezar Pereira — que fala sobre futebol na Jovem Pan Esportes, no UOL e em seu próprio canal do YouTube, cujos comentários acho quase sempre interessantes —, acabei conhecendo um pouco mais do futebol brasileiro atual e passei a entender com mais profundidade, digamos, os comentários de Craque Daniel e Cerginho da Pereira Nunes. O mais legal disso tudo é que o próprio Mauro Cezar Pereira é fã de carteirinha do Falha de Cobertura! Gosto tanto do programa que acabei até participando de uma noite de autógrafos com Daniel Furlan, Caito Mainier e Gustavo Vilela (tenho até foto para provar!), três dos autores do livro Guia da Copa Falha de Cobertura (Record, 200 páginas, ano de publicação original: 2026); o outro autor é Pedro Leite, e os quatro são roteiristas do programa no YouTube. O Guia da Copa apresenta comentários sobre todos os países que iriam participar da Copa do Mundo de 2026, vencida pela Espanha. Quando de sua publicação, nem todos os grupos estavam totalmente definidos e, por isso, alguns deles apresentam todos os possíveis participantes na época. O livro também traz uma tabela dos jogos para o leitor preencher. A Copa de 2026 terminou, claro, mas, como dito recentemente num episódio do Falha de Cobertura, os países continuam lá, então você ainda pode ler a obra sem medo. O Guia da Copa Falha de Cobertura é engraçado demais. São tantos comentários absurdos e divertidos que é até difícil comentar o conjunto todo. Alguns trechos tomados ao acaso:
“Um atleta como Paquetá, que treinou a vida inteira para ser um jogador não convocável, hoje pode ser um dos líderes do elenco. A situação é tão desesperadora que Ancelotti chegou a observar atletas do Vasco, e o lateral Paulo Henrique se viu obrigado a piorar seu rendimento para não sofrer mais convocações para essa seleção.” (sobre a nova geração brasileira) “Quem teve a oportunidade de assistir àquela partida em 1994, extremamente tensa, se lembra até hoje da explosão de alegria que se espalhou pelo Brasil quando o lateral bonito Leonardo desfragmentou uma das órbitas oculares do jogador Tab Ramos com uma linda cotovelada.” (sobre a Copa do Mundo de 1994) “Pagode, futebol, Pikachu vendendo algodão-doce na praia, Serginho Groisman. A contribuição brasileira para a cultura japonesa é imensa. Sim, falta a eles a nossa malandragem, a nossa capacidade de improvisar, de sair de situações adversas, seja inventando um drible na hora ou se evadindo do local de um acidente de trânsito, mas essa lacuna é compensada pela extrema disciplina e pelo equilíbrio emocional desse nobre povo, pois não há nada que grite “equilíbrio emocional” mais alto do que colidir insistentemente com o crânio contra a parede, em prantos, diante até mesmo da mais simples decepção cotidiana.” (sobre a cultura japonesa)
Uns tantos vão achar engraçado, outros tantos não. Como o Choque de Cultura, Falha de Cobertura é ame ou odeie.
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