“Psychocandy”, de Jesus and Mary Chain
Música
“Psychocandy”, de Jesus and Mary Chain
21 de novembro de 2021 0
Ao contrário de muita gente, não sou saudosista quando o assunto é música. Você nunca vai me ouvir falar a famosa frase “boa mesmo era a música do meu tempo”, por exemplo. Esta falta de apego ao que eu ouvia pouco tempo antes acaba, de maneira engraçada, me fazendo ser um sujeito meio irritante para os meus amigos que continuam ouvindo estilos que eu fui praticamente parando de ouvir com o tempo. É do jogo. O legal de ser esse sujeito verdadeiramente infiel a estilos musicais é que, muito tempo depois de ter parado de ouvir alguma coisa, um belo dia me dá saudade e resolvo conferir o que já não escutava há anos – ou mesmo décadas. Um bom exemplo aconteceu ano passado, quando parecia que eu estava de novo nas minhas aulas no cursinho, na década de 80, quando coloquei para ouvir a coletânea “Standing on a beach”, do Cure. Em outros casos a coisa vem bem mais forte, e é sobre um disco específico que comprei nos anos 80 que vou comentar aqui. A primeira revista Bizz que comprei foi a de número 12, aquela famosa com a Patsy Kensit (que iria deixar a Madonna para trás, veja só) na capa. Enfim, nesta edição tinha uma crítica do grande José Augusto Lemos (sempre ele) falando maravilhas de “Psychocandy”, o primeiro disco de uma banda que eu nunca tinha ouvido falar, o Jesus and Mary Chain. O texto (que coloquei aqui para quem quiser ler; coloquei também aqui uma entrevista da banda, com Pepe Escobar, publicada na mesma edição) começava com a sensacional frase “não é propriamente uma revolução e sim um exercício de radicalismo, que segue uma lógica safada de venenosa”, e continuava comentando que o melhor do pop feito até então tinha duas vertentes, a “melodiosa e assobiável” de um lado, e o “barulho afiado do rock pós-Velvet Underground” do outro. José Augusto Lemos então conclui que o “Jesus & Mary Chain, num caso de inédita esquizofrenia, opta simultaneamente pelas duas linhas e o resultado dá num bombom recheado de cereja e ácido sulfúrico” – e por aí vai o genial texto. A crítica era tão maravilhosa que “Psychocandy” acabou sendo o primeiro dos muitos discos que comprei por causa da Bizz. O choque foi imediato e duradouro, e o álbum foi um dos que mais ouvi naqueles anos: a junção de melodias assobiáveis com uma microfonia maluca me pegou de jeito, na hora. Depois a banda lançou “Darklands”, sem barulho e só com a parte mais “sensível” da banda, e acabei perdendo o interesse no Jesus and Mary Chain. Até que um tempinho atrás descobri, por um amigo, que se podia ler todas as revistas Bizz online (aqui) e resolvi revisitar a crítica do “Psychocandy” – e acabei o escutando novamente o disco, com muita atenção. O álbum é tão bom – ou ainda melhor – do que me lembrava. De todo modo, tenho medo agora do que vou achar de “Darkland” e dos discos posteriores da banda; quem sabe os escute ainda, um dia.
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Marília Mendonça (1995-2021)
Música
Marília Mendonça (1995-2021)
6 de novembro de 2021 0
Assisti há alguns poucos anos um documentário sobre uma tournée de Marilia Mendonça, e gostei muito dela: uma moça de inteligência incomum, gentil, extremamente compenetrada. Nunca fui fã de ouvir suas músicas, mas sempre que escutava alguma delas gostava, apesar de não apreciar, normalmente, o sertanejo moderno. Mas eu sentia que ela tinha algo a mais – só não sabia bem o que era. Recebi a notícia de sua trágica morte por um telefonema da minha mãe e, no meu telefonema diário para meu pai, descobri que ele ficou triste de verdade. Uma tia da minha mulher chegou a passar mal quando soube da morte da cantora. Minha filha, que também praticamente não escuta sertanejo, também ficou triste. Vendo reportagens sobre sua carreira e sua morte, acho que consegui descobrir a diferença de Marília Mendonça em relação a quase todos os cantores, sejam eles do estilo que forem: ela cantava de modo verdadeiro. Ela era como outros intérpretes que captam, de alguma maneira, algo que os outros não captam. E é por isso que o Brasil está tão triste hoje. Descanse em paz, Marília Mendonça.
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Meus clipes preferidos
Música
Meus clipes preferidos
31 de outubro de 2021 0
Gosto muito de assistir a clipes de música. Seja pela música em si, seja pela filmagem, seja por alguma outra coisa, alguns deles eu vejo muitas vezes. Fiz uma lista deles, que seriam os meus preferidos, ou coisa assim: Hiyah – Ashley All Day: já falei sobre esse clipe aqui. Imagens de Ashley All Day na cozinha, com amigas e com o então marido, e em lugares de Los Angeles. E nada mais. Dance Again – Selena Gomez: também já comentei aqui sobre esse clipe, que mostra a cantora dançando. O vídeo foi gravado antes da pandemia, mas foi lançado depois do seu início: ficou meio estranho uma música tão feliz naquele momento, mas quem se importa? Color Blind – Diplo feat. Lil Xan: descoberta minha recente, Lil Xan é um menino com tatuagens assustadoras e com problemas com drogas, mas parece boa gente. Color Blind é uma obra-prima, e o vídeo, vá lá, é meio estranho e assustador. Heart-Shaped Box – Nirvana: tendo a preferir as apresentações ao vivo do que os clipes do Nirvana, mas este, famoso, com cores estouradas e imagens de uma religiosidade meio absurda, é perfeito. Fake Plastic Trees – Radiohead: a banda e pessoas de várias idades e estilos por um corredor de supermercado cheio de produtos de forma semelhante e cores distintas. Difícil um dia que eu não assista a este vídeo. Reminder – The Weeknd: já falei sobre este clipe aqui, que parece se passar num paraíso diferente. Tranquility Base Hotel & Casino – Arctic Monkeys: Alex Turner é funcionário e hóspede de um hotel de luxo e canta uma música que, com o tempo, vai se transformando numa das melhores da banda. Nonstop – Drake: um clipe em preto e branco, filmado em Londres, em que algumas imagens me lembram filmes noir. Ou é coisa da minha cabeça. DontLookDown – Bones: chuva, um filtro verde e uma música maravilhosa. destruction – nothing,nowhere. x Travis Barker: esse aqui tem um filtro vermelho e uma moto numa estrada numa floresta no meio do mato.
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“Pieces of You”, de nothing,nowhere.
Música
“Pieces of You”, de nothing,nowhere.
18 de outubro de 2021 0
Lembro bem da minha emoção quando o disco “Reaper”, do nothing,nowhere., esteve numa relação do jornal New York Times como um dos melhores discos do ano de 2017. Alguns meses antes eu tinha ficado simplesmente embasbacado com “the nothing,nowhere.lp”, ainda na época em que a banda só lançava músicas no YouTube (e no SoundCloud também). O único membro do grupo, John Mulherin, era tão esquivo que sempre escondia o rosto em fotos e clipes. Criei um grupo de fãs no Facebook, e escrevi nele textos sobre a banda que até hoje reputo entre as melhores coisas que já escrevi – a ponto de eu tê-los colocado no meu terceiro livro publicado, “Rua Paraíba”. De lá para cá nosso amigo John Mulherin parece ter encontrado o caminho do sucesso: sempre participa de festivais, realiza shows em diversos países e chegou a gravar um EP com o baterista do Blink 182, Travis Barker. Sua música se tornou mais raivosa, mais pop, menos melancólica – e ele não se esconde mais o rosto. E ele gosta de brincar de vez em quando. No clipe de “nightmare” ele se veste como um cantor de hard rock brega dos anos 80, com mullets brancos, roupa chamativa e óculos escuros – e fica fazendo micagens o tempo todo para a diversão de diversos personagens pouco afeitos ao rock que aparecem no clipe, como idosos e gente com roupas quase tão bregas como a que ele está usando. No clipe mais recente, “Pieces of You”, ele toca numa banda que aparece de surpresa num casamento num asilo de idosos. O clima, feliz, parece retirado diretamente de um Sessão da Tarde. Se você quiser saber, é lindo demais. Não me arrependo de ter tatuado o nome da banda nas minhas costas.
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“Don Juan (narrado por ele mesmo)”, de Peter Handke
Literatura
“Don Juan (narrado por ele mesmo)”, de Peter Handke
3 de outubro de 2021 0
Considerado por Karl Ove Knausgård “talvez um dos três melhores autores vivos do mundo”, Peter Handke nasceu na Áustria em 1942 e recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2019. Foi, portanto, com a melhor das expectativas que comecei a leitura de seu “Don Juan (narrado por ele mesmo)” (Estação Liberdade, 144 páginas, tradução de Simone Homem de Mello, lançado originalmente em 2004). O narrador do livro é dono de um albergue, próximo de Port-Royal-des-Champs, “o mais famoso e também mais famigerado monastério da França do século XVII”. No inverno ele praticamente nunca tinha hóspedes, mas numa tarde nesta estação do ano chegou Don Juan, de moto – segundo o narrador, poderia ter sido qualquer outro personagem da literatura, como o Señor Buendía, o Comissário Maigret, Lucien Leuwen ou Raskolnikov, mas quem veio foi Don Juan, o que lhe deu “uma lufada libertadora”. Depois desse início promissor, o restante da novela mostra Don Juan contando sobre suas conquistas amorosas na semana anterior à sua chegada no albergue – sempre de maneira caótica, indo de um país a outro tão rapidamente que parecia se movimentar na velocidade da luz. O livro pode ser interessante para estudiosos de literatura, já que o estilo de Peter Handke é bastante original, feito quase sempre de lembranças imprecisas. Mas preciso ser franco: o livro é tão confuso que para mim pareceu apenas chato. (foto que acompanha o texto obtida no Wikipédia)
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“Mundos paralelos – uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do Cosmo”, de Michio Kaku
Ciência
“Mundos paralelos – uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do Cosmo”, de Michio Kaku
19 de setembro de 2021 0
Entrevistado frequente de programas científicos em emissoras como Discovery e History Channel, o físico norte-americano de origem japonesa Michio Kaku é, segundo a Wikipédia, autor de vários artigos científicos envolvendo a teoria das cordas, a supergravidade, supersimetria, hádrons, e, atualmente, se dedica à Teoria de Tudo – uma teoria científica hipotética que unificaria, procuraria explicar e conectar em uma só estrutura teórica, todos os fenômenos físicos (juntando a mecânica quântica e a relatividade geral) num único tratamento teórico e matemático. Ele também é divulgador científico, tendo escrito diversos livros para o público em geral – eu já tinha comentado aqui sobre “Hiperespaço”, e o presente texto se concentra em “Mundos paralelos – uma jornada através da criação, das dimensões superiores e do futuro do Cosmo” (Rocco, 428 páginas, traduzido por Talita M. Rodrigues). O livro versa sobre vários aspectos da física moderna, como o fim do universo, universos quânticos paralelos, uma espécie de teoria das cordas chamada “Teoria M”, viagens no tempo, dimensões maiores que as quatro que estamos acostumados (três espaciais e uma temporal). São tantas informações malucas que Michio Kaku traz sobre a física moderna que um leitor leigo, mas com alguma formação matemática, como eu, fica se perguntando como os físicos e matemáticos conseguem entender aquelas teorias todas – mas a leitura do livro vale muito a pena, mesmo assim. E, depois dessa loucurada toda, a conclusão de Michio Kaku tão bonita que resolvi transcrevê-la inteira: “Acredito que Sigmund Freud, com todas as suas especulações sobre o lado sombrio da mente inconsciente, tenha chegado mais perto da verdade ao dizer que o que dá estabilidade e sentido a nossa mente é trabalho e amor. O trabalho ajuda a nos dar uma sensação de responsabilidade e propósito, um foco concreto para nossos esforços e sonhos. O trabalho não só confere disciplina e estrutura a nossa vida, ele também nos dá uma sensação de orgulho, conquista e uma estrutura para a satisfação. E o amor é um ingrediente essencial que nos coloca dentro do tecido da sociedade. Além do trabalho e do amor, eu acrescentaria mais dois outros ingredientes que dão sentido à vida. Primeiro, satisfazer os talentos com os quais nascemos. Por mais abençoados que sejamos, com diferentes habilidades e pontos fortes, devemos tentar desenvolvê-las ao máximo, em vez de deixá-las atrofiar e apodrecer. Todos nós conhecemos indivíduos que não cumpriram a promessa que demonstraram na infância. Muitos se assustaram com a imagem do que poderiam se tornar. Em vez de culpar o destino, penso que devemos nos aceitar tal como somos e tentar satisfazer todos os sonhos que estejam dentro da nossa capacidade. Segundo, devemos tentar deixar o mundo um lugar melhor do que quando nele chegamos. Como indivíduos, podemos fazer a diferença, seja sondando os segredos da Natureza, limpando o ambiente e trabalhando pela paz e justiça social, ou nutrindo o espírito inquisidor e vibrante dos jovens, sendo um mentor ou guia.” (foto que acompanha o texto obtida da Wikipédia)
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“Stroheim”, de Arthur Lennig
Cinema
“Stroheim”, de Arthur Lennig
12 de setembro de 2021 0
Minha memória não costuma falhar para esse tipo de coisa, e realmente lembro de ter lido na Gazeta do Povo uma crônica do escritor e poeta curitibano Paulo Leminski (1944-1989), escrita enquanto ele era vivo, que falava sobre um tipo especial de chato, “o chato contador de filmes” – não precisa explicar muito. Mas sei lá, procurei na internet e não achei nada que se referisse a este texto. Não importa. O que importa aqui é que lembrei bastante daquela crônica enquanto lia o monumental “Stroheim”, de Arthur Lennig (University Press of Kentucky, 574 páginas, publicado originalmente em 2000). Já comentei bastante sobre Erich von Stroheim (1885-1957) aqui, e não sei se vale a pena escrever de novo sobre a vida deste grande diretor de cinema austríaco que fez grande sucesso como diretor em Hollywood nos anos 1920, mas que gastava tanto dinheiro em suas produções que acabou não conseguindo mais trabalho como diretor, apenas como ator, nos seus 25 últimos anos de vida. Voltando ao livro de Arthur Lennig: realmente, é emocionante a dedicação do autor pela obra de um dos meus diretores preferidos – ele chegou a trabalhar na restauração de alguns filmes do diretor. Mais do que isso, a pesquisa que ele fez é primorosa, e com a leitura ficamos sabendo de muitos detalhes da vida de Stroheim. Mas acho que metade de seu livro descreve os filmes do diretor. Sim, é meio chato, como já dizia Leminski. De todo modo, como fã de Stroheim, fiquei satisfeito com a leitura, claro. E ele ainda cita uma visita do diretor ao Brasil, no Festival Internacional de Cinema do Brasil em 1954, sobre o qual já descobri na internet dois artigos (ver aqui e aqui) – quem sabe eu comente alguma coisa sobre aquele festival por aqui ainda.
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Meu filme preferido de Erich von Stroheim
Cinema
Meu filme preferido de Erich von Stroheim
4 de julho de 2021 0
Qual o meu filme preferido dirigido por Erich von Stroheim? Desde que escrevi o primeiro texto sobre ele por aqui fico me perguntando isso. Os dois primeiros que chegaram até nós, “Blind Husbands” e “Foolish Wives”, respectivamente de 1919 e 1922, mostram um diretor – e ator principal – totalmente seguro de si, confiante, e são brilhantes em todos os aspectos. “Greed”, de 1924, considerado pela maioria dos críticos sua obra-prima, tem uma temática diferente dos demais e por isso creio que ele seja um pouco menos representativo de sua obra como um todo. Pela história totalmente provocativa, eu tenderia a escolher “Queen Kelly”, com Gloria Swanson e de 1932, mas ele está inacabado e a versão existente hoje, com apenas fotogramas e trechos escritos do roteiro na parte final, acaba sendo complicado como escolha. Fico então com “The Wedding March”, de 1928, sobre o qual contei aqui a minha frustração de não o ter assistido inteiro restaurado no Telecine Cult, e cujo impressionante final (a única parte que vi na ocasião) ficou na minha memória por anos. O filme conta a história do Príncipe Nicki, vivido pelo próprio Stroheim, que é um nobre com pouco dinheiro e que é convencido a se casar com Cecelia, filha de um rico fazendeiro (o tema do nobre decadente que se casa com uma burguesa rica é tema de obras-primas como o romance “O Leopardo”, de Lampedusa, no qual foi baseado aliás um filme espetacular de Luchino Visconti). Nicki está noivo e de casamento marcado com Cecelia quando, numa parada militar, se apaixona por uma moça pobre, Mitzi, que também está prometida em casamento, nesse caso com um açougueiro grosseiro chamado Schani. Enfim, Mitzi e o Príncipe Nicki começam um relacionamento contra tudo e contra todos, e não vou contar mais para não estragar a surpresa – quem quiser assistir a essa obra-prima, pode assisti-la de graça no YouTube, aliás. “The Wedding March” tem as obsessões presentes em quase todas as obras de Stroheim, como o naturalismo exacerbado, a qualidade e o detalhismo dos cenários, a pulsão sexual, a descrição chocante – e mesmo divertida – de defeitos humanos como a ganância e a falta de escrúpulos. Mas, como diz Arthur Lenning em sua monumental biografia do diretor, o filme apresenta personagens ainda mais complexos e profundos que aqueles dos seus demais filmes, no que eu concordo com ele. “The Wedding March” teve uma continuação, chamada “The Honeymoon”, cuja última cópia se perdeu num incêndio na Cinemateca Francesa em 1957, e só podemos lamentar não podermos mais assisti-la. (fonte da foto: Wikipedia)
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