O que a leitura de “Henry e June” revela sobre o desejo feminino e os limites da literatura confessional
Literatura

O que a leitura de “Henry e June” revela sobre o desejo feminino e os limites da literatura confessional

4 de outubro de 2026 0

A escritora franco-cubano-americana Anaïs Nin (1903-1977) era casada com o banqueiro Hugh Guiler e acabou tendo um caso com o também escritor americano Henry Miller (1891-1980) e se apaixonou pela namorada dele, June. A história desse “quadrângulo amoroso” que ocorreu em Paris no início dos anos 1930 foi contada nos diários da escritora na época, que só foram publicados oficialmente em 1986 – com o título em português de “Henry e June: Diários não expurgados de Anaïs Nin (1931-1932)” (L&PM, tradução de Rosane Pinho, 256 páginas). Os diários foram publicados com enorme sucesso, a ponto de terem tido uma versão cinematográfica famosa, lançada em 1990 e dirigida por Philip Kaufman.

No livro, Anaïs Nin aborda a própria sexualidade de maneira incomum para a época, tendo um tórrido caso com Henry Miller. O marido, chamado simplesmente de “Hugo” na edição brasileira, era um banqueiro que viajava muito e que basicamente não se incomodava com os casos da esposa: a escritora e o amante chegavam a dormir a noite inteira juntos nas ausências dele. A presença de June, a namorada de Henry Miller, é extremamente impactante nos diários: Anaïs a vê logo no início, mas, mesmo com a partida de June para uma viagem, não consegue tirá-la da cabeça, dividida entre uma atração sexual poderosa e o ciúme de Henry. O dinheiro de Hugo praticamente sustentava o escritor, que sofria de uma pobreza extrema – na vida real, o compreensivo banqueiro chegou a pagar a primeira edição do primeiro livro de Henry Miller, o clássico “Trópico de Câncer”.

O problema todo de “Henry e June” é que o livro não foi composto para ser publicado, e mais parece uma sessão de psicanálise do que uma obra literária: a escritora frequente e repetidamente dá opinião sobre a personalidade das outras pessoas – “ele é forte”, “ele é amoroso” – sem deixar com que o leitor chegue a conclusões por si. Mas o contraste mais chocante é quando ela transcreve cartas de Henry Miller – este sim, um grande escritor – que são literariamente espetaculares, deixando o estilo de Anaïs Nin ainda pior.

Mas a leitura valeu por ser o retrato íntimo de uma época famosa – os “anos loucos” da Paris dos anos 1930 – e, no meu caso, também para me incentivar a ler Henry Miller pela primeira vez – estou lendo “Trópico de Câncer” e já estou amando.


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Imagem obtida no Claude.

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