“Zonas húmidas”, de Charlotte Roche
Literatura
“Zonas húmidas”, de Charlotte Roche
13 de setembro de 2020 0
O título do presente texto é “Zonas húmidas”, e não isto é um erro de digitação. A edição que li deste romance da alemã Charlotte Roche é de Portugal (CADERNO, 222 páginas, tradução de João Bouza da Costa), e lá “úmido” se escreve com “h” mesmo. Como o livro é permeado de gírias, é ao mesmo tempo engraçado e angustiante para um brasileiro ler vários termos um tanto difíceis de compreender.  Publicado originalmente em 2008, o livro – muito bem escrito, aliás – conta a história de Helen, uma adolescente que está no hospital por causa de uma crise de hemorróidas. Enquanto está lá, sofrendo com dores, ela descreve e analisa seu dia-a-dia no hospital e comenta sua vida até então. Helen é obcecada por secreções corporais e por sexo, e critica a “mania de higiene” de outras mulheres – ela mesma não se preocupa, nem um pouco, com limpeza corporal.  Segundo o site da Amazon, “os jornais relataram desmaios de ouvintes em leituras públicas” de “Zonas húmidas” – e até dá para entender um pouco isso, já que frequentemente o livro é nojento mesmo. Mas o maior impacto do romance nem está na escatologia, mas na história da própria Helen – e é esse aspecto, que não posso contar para não estragar a surpresa, uma das coisas que fazem de “Zonas húmidas” um ótimo romance.
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Bob le flambêur (Bob, o jogador), de Jean-Pierre Melville
Cinema
Bob le flambêur (Bob, o jogador), de Jean-Pierre Melville
6 de setembro de 2020 0
O gênero polar, às vezes chamado de noir francês, é um estilo que começou baseado no filme noir americano[1], e que continuou com grande sucesso até os anos 1980[2]. A Versátil Home Vídeo tem lançado caixas de DVDs de noir francês – já está no volume 5. Já assisti a um número razoável de filmes deste estilo fascinante, e confesso que tive um motivo de estranhamento com o ator que faz o personagem principal de “Bob le flambêur” (Bob, o jogador), de Jean-Pierre Melville, lançado em 1956. Explico: muitos desses filmes têm atores que aparecem em mais de um deles – casos dos gigantes Jean Gabin e Alain Delon (que coestrelam o sensacional “Gângsteres de casaca”, de 1953, inclusive). Já Roger Duchesne é o ator principal deste “Bob le flambêur”, e é tão expressivo que está na capa do volume 2 da série da Versátil, conforme se pode verificar na foto que acompanha este texto. Depois de assistir ao filme, estranhei mais ainda ele não estrelar outros filmes do gênero, já que a atuação dele também é impressionante. “Bob le flambêur” conta a história de um gângster decadente com pouco mais de cinquenta anos que quer encerrar sua carreira no crime com um assalto espetacular – uma temática semelhante a de outros filmes da época, inclusive. A resposta está nos extras da coleção da Versátil, num documentário chamado apropriadamente “Diário de um vilão”, de Dominique Maillet. Nele, o roteirista e escritor Thierry Crifo resume a vida de Roger Duchesne – cujo nome verdadeiro era Roger André Charles Jordens -, que faz o Bob do título do filme Jean-Pierre Melville. O ator nasceu em 1906 em Luxeuil-les-Bains em 1906 e faleceu em Mureaux no dia de Natal de 1996 – com noventa anos, portanto -, ou seja, “tanto no início quanto no fim da vida estava próximo de uma roleta”, no dizer de Thierry Crifo. Depois da Segunda Guerra, Duchesne escreveu cinco romances policiais, mas não fez sucesso. Foi para o interior, então, trabalhar como mecânico – e é até lá que o diretor Jean-Pierre Melville vai para chamá-lo para estrelar “Bob le flambêur”. Por excesso de dívidas, os gângsteres da região do Pigalle, em Paris, não queriam deixar que Duchesne trabalhasse ali, e Melville teve que convencer os bandidos da região do contrário. O filme foi lançado em 1955, e em 1957 o ator trabalha novamente, em “Marchands de filles”, de Maurice Cloche – e é quando termina a carreira no cinema do ator, conhecido até hoje quase que exclusivamente por seu papel magnífico em “Bob le flambêur”. Mas por que razão um ator deste nível terminou sua carreira cinematográfica cerca de quarenta anos antes de sua morte? A explicação é dada também por Thierry Crifo no documentário “Diário de um vilão”: durante a ocupação francesa, possivelmente por causa de dívidas de jogo, Duchesne foi um colaborador ativo da Carlingue, a Gestapo francesa – pode até ter torturado um membro da resistência. Entre 1933 e 1943 ele tinha participado de mais de trinta filmes, “com papéis secundários em filmes importantes, e papéis principais em filmes de menor orçamento”, ainda segundo Thierry Crifo. Depois da guerra, Duchesne ficou preso alguns meses por suas atividades de colaborador. A maior ironia desta história trágica é que o diretor Jean-Pierre Melville, que deu o grande papel da vida de Roger Duchesne, era judeu. [1] http://www.frenchfilms.org/best-policiers.html [2] http://www.rueducine.com/cinema-policier-francais-de-1945-a-2015/
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“Sobre os ossos dos mortos” de Olga Tokarczuk
Literatura
“Sobre os ossos dos mortos” de Olga Tokarczuk
30 de agosto de 2020 0
Janina Dusheiko era uma engenheira especialista em projetos de pontes que, por motivo de graves dores não bem diagnosticadas, resolve largar tudo e morar num pequeno povoado na Silésia, Polônia – quase junto à fronteira com a República Tcheca. Lá ela cuida das casas das pessoas que têm casas de veraneio, das quais saem nos meses frios, e dá algumas aulas de inglês para crianças. Janina é a narradora e a personagem principal de “Sobre os ossos dos mortos” (Todavia, 256 páginas, lançado originalmente em 2009), romance da polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de 2018. No pequeno povoado Janina Dusheiko causa problemas para os caçadores e para a polícia – para quem manda enormes cartas se queixando das atividades ilegais daqueles. Vegetariana e astróloga amadora, ela odeia todos os que fazem mal para os animais e tenta achar uma razão para os acontecimentos e para as personalidades das pessoas nos astros. À medida que o romance transcorre, algumas pessoas que ela odeia – caçadores, policiais, pessoas envolvidas em atividades ilegais – morrem de forma misteriosa. A explicação dela é tão estranha quanto ela própria: a assassina é a própria Natureza se vingando dos homens maus por meio de animais se unindo e partindo para a ação. Outra característica de Janina Dusheiko é chamar todas as pessoas mentalmente por apelidos que ela mesma inventa. Olga Tokarczuk conta magistralmente esta história ao mesmo tempo farsesca e sombria, e é brilhante nas suas descrições: a cada vez que lembro do livro me vem a imagem de neve por todos os lugares, com casas sofrendo com as intempéries – e um pouco de sangue aqui e ali.
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“O dia em que o rock morreu”, de André Forastieri
Música
“O dia em que o rock morreu”, de André Forastieri
13 de agosto de 2020 0
Foi ouvindo o ótimo podcast “Álvaro & Barcinski & Forasta & Paulão”, que é uma retomada do falecido “Garagem”, que fiquei com vontade de ler este “O dia em que o rock morreu” (Arquipélago Editorial, 121 páginas, lançado originalmente em 2017), do jornalista e ex-crítico da Bizz André Forastieri (aliás, Álvaro Pereiro Jr. e André Barcinski, que participam do podcast, também eram críticos da finada revista). Acompanho a carreira de André Forastieri desde, praticamente, seu início, e fiquei interessado em ler este apanhado de textos jornalísticos do autor não só porque ele escreve muito bem, mas também porque, como soube pelo podcast, ele tinha colocado no livro todos os seus textos sobre Kurt Cobain – com direito à única entrevista do cantor do Nirvana quando esteve aqui no Brasil, em 1992. Enfim, eu sabia que o gosto do André Forastieri é bem diferente do meu – ele odeia Smiths e Morrissey e isso já diz tudo. Mas a leitura de  “O dia em que o rock morreu” foi bem agradável: ele parece arrogante, mas quem conhece o cara do podcast “Álvaro & Barcinski & Forasta & Paulão” pode ter a mesma opinão que eu: ele parece não se levar assim tão a sério, e essa é uma qualidade rara. Sem contar que, não custa repetir, ele escreve bem demais. O mais bacana ainda, particularmente, foi ele ter explicitado a diferença enorme que existe entre mim e os amantes de rock em geral. Segundo as palavras de André Forastieri, “o rock foi muito importante para mim, na vida, no amor, no trabalho, na maneira como entendo o mundo. Rock é tesão proibido, coragem suicida, dentes à mostra.” Falando sobre Jimi Hendrix, ele comenta que: “ouvir sua guitarra me dá vontade de fazer besteira, e besteiras que nunca fiz. Rock’n’roll é isso.” Já sobre a banda de punk feminino The Slits, que nunca ouvi, André Forastieri fala que “(a banda) dizia a que vinha desde o batismo. Era rock barulhento, abrasivo, feminista, multicultural. As meninas não tinham medo de nada.” Essa fé no poder transformador do rock, da revolta e tudo o que vem junto com ela, de certa forma me desvelou por que sempre senti um certo estranhamento com “roqueiros” (desculpem o termo, que muitos não gostam) em geral: para mim, o rock é só mais um estilo musical, como outros que amo tanto quanto, como blues, pop, rap, erudito e jazz. Um estilo, como todos os outros aliás, com coisas maravilhosas (Morrissey, por exemplo) e detestáveis.
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Novo livro – Rua Paraíba
Obra Literária
Novo livro – Rua Paraíba
29 de julho de 2020 0
Nos próximos meses vou publicar um livro chamado “Rua Paraíba”, pela editora do meu amigo Sandro Bier, a Café do Escritor. Ele é composto por três livros autobiográficos escritos entre 2016 e 2019. Segue o prefácio, para dar uma ideia da ‘coisa: “Rua Paraíba” e “Energia” eu escrevi aí pelo ano de 2016, e “Memórias” é mais recente, terminei em 2019. A ideia de “Rua Paraíba” era escrever sobre o meu período inicial no casamento: minha profissão, meu dia-a-dia, o nascimento da filha, meu trabalho como hidrólogo. “Energia” teria mais a ver com meus primeiros anos como especialista em estudos energéticos e sobre minha visão sobre política e economia – que não mudou muito de lá para cá, diga-se de passagem, por mais que meu interesse no assunto tenha diminuído de maneira significativa. Já “Memórias” seria um livro com recordações esparsas e textos que eu já tinha colocado no meu blog (fabriciomuller.com.br/wp/), cada um deles ocupando meia página, no máximo (objetivo que eu não consegui cumprir inteiramente). Relendo os três livros, reunidos aqui, percebi que consegui mais ou menos o que queria: falar da minha vida e da minha profissão de maneira aleatória – mas não sei se isso é algo de que eu deveria me orgulhar. De todo modo, a releitura dos três trabalhos me deixou meio assustado num ponto: em como a música pop permeia a obra como um todo. Sei lá se por uma espécie de autoengano, eu não achava que isso era tão evidente.  
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“Kim”, de Rudyard Kipling, e outras leituras
Literatura
“Kim”, de Rudyard Kipling, e outras leituras
13 de junho de 2020 0
“Kim”, de Rudyard Kipling (Companhia Editora Nacional, tradução de Monteiro Lobato, 299 páginas, publicado originalmente em 1901): considerada a obra-prima do inglês Kipling, Nobel de Literatura de 1907, “Kim” conta a história da personagem-título, um garoto órfão morando na Índia, filho de um soldado inglês e de uma irlandesa que morreram na miséria. De esperteza e inteligência incomuns, o garoto tem contato com um enorme número de pessoas, passando por inúmeras aventuras. O estilo de Kipling é um pouco truncado – a história passa de um acontecimento a outro de forma frequentemente brusca –, mas “Kim”, pela descrição vívida que faz da vida na Índia, merece toda a fama que tem. “Kurt Cobain and Nirvana – Updated Edition: The Complete Illustrated History”, diversos autores (Voyageur Press, 208 páginas, publicado originalmente em 2013): ricamente e ilustrado, o livro se concentra mais na história da banda de Kurt Cobain do que no seu vocalista e guitarrista, e tem detalhes muito interessantes – como textos em separado sobre cada álbum do Nirvana e pequenos comentários sobre cada um dos cinquenta discos preferidos do compositor de “In Bloom”. Um prato cheio para fãs e um livro tão bonito que pode perfeitamente servir de enfeite na sala.   “Essa gente”, de Chico Buarque (Companhia das Letras, 200 páginas, publicado originalmente em 2009): Manuel Duarte é um escritor que fez muito sucesso em seu livro de estreia, mas que está com a carreira estagnada e, pior que isso, numa crise criativa. Com idas e vindas, “Essa gente” tem trechos muito engraçados e outros de uma amargura sutil – principalmente quando fala da virada à direita que o país deu nos últimos anos. Por sorte, como grande escritor que é, em “Essa gente” Chico Buarque fugiu totalmente da literatura puramente política e escreveu (mais) uma pequena obra-prima. “A vida escolar de Jesus”, de J.M.Coetzee (Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 227 páginas, publicado originalmente em 2013): já escrevi aqui sobre “A Infância de Jesus”, primeira parte deste livro: “não dá para entender o que o grande J.M. Coetzee (Prêmio Nobel de 2003) quis dizer com esta história (…). David tem alguma coisa a ver com Jesus Cristo? O que exatamente ele tentou mostrar com a ilha distópica do romance, onde as pessoas se esquecem do seu passado? Por que David e Inés são tão irritantes?” Continuo sem entender o que J.M.Coetzee quer com esta história – nesta continuação, David vai para uma aula de dança ao invés de estudar como as outras crianças -, mas, pelo menos, quando comecei “A vida escolar de Jesus” eu já estava esperando ler um livro muito estranho. “Cat person e outras histórias”, de Kristen Roupenian (Companhia das Letras, tradução de Ana Guadalupe, 251 páginas, publicado originalmente em 2019): publicado na revista New Yorker em 2017, o conto que dá nome a esta coletânea – que conta a história de uma moça que faz sexo sem vontade com um homem mais velho com quem estava flertando – fez furor no mundo inteiro (procure por “Cat person” na internet para saber do que estou falando). Os doze contos do livro são extremamente bem escritos e prendem a atenção do leitor – mas a autora frequentemente exagera nas tintas sombrias.
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“Pornô”, de Irvine Welsh
Literatura
“Pornô”, de Irvine Welsh
17 de maio de 2020 0
Marc Renton (ou simplesmente Rents) é o sujeito de personalidade complexa: mesmo viciado em heroína e aplicador de golpes aqui e ali, é universitário, culto, e tem seu próprio e quase justificável senso de justiça. Begbie quer distância de heroína e é fiel às suas amizades, mas é um psicopata violento que arrebenta praticamente qualquer um por motivos insignificantes. Sick Boy é um viciado almofadinha, frio, calculista e manipulador – e fã de James Bond. Já Spud é um perdedor, um derrotado, que sustenta seu vício em heroína com pequenos golpes e com o dinheiro Assistência Social – mas é cara legal e, somando tudo, o melhor caráter dos quatro. Estes amigos de Edimburgo, capital da Escócia, são os principais personagens de Trainspotting, do autor escocês Irvine Welsh, romance publicado originalmente em 1993 e que teve uma versão cinematográfica lançada em 1996 que foi um cult de enorme sucesso – e que catapultou as carreiras do diretor Danny Boyle e do ator Ewan McGregor. Pornô, lançado originalmente em 2002 (Rocco, 568 páginas, tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari) é a continuação daquela obra e conta o que aconteceu com os personagens citados acima – e mais alguns novos – cerca de uma década depois (Trainspotting se passa no final da década de 80). Em Pornô, praticamente ninguém mais usa heroína, só mesmo Spud e muito de vez em quando. Isto não quer dizer, contudo, que os personagens tenham se transformado em exemplares e responsáveis pais-de-família. Renton abriu, com sucesso, algumas boates na capital holandesa e vive um casamento em crise. Spud agora tem um filho pequeno e a mulher Ally; tudo estaria muito bem se ele não continuasse totalmente perdido, sem emprego, sem ocupação e dando pequenos golpes para arranjar algum dinheiro para drogas e bebidas. Begbie passou uma temporada na cadeia depois de ter assassinado um sujeito e agora está à solta, mais insano, alucinado e violento do que nunca. Sick Boy morou em Londres um bom tempo, e agora voltou para Edimburgo, onde abriu um pub; ele não admite mais o antigo e humilhante apelido e agora quer ser chamado pelo seu nome verdadeiro, Simon David Williamson. Simon está mais mau-caráter e manipulador que nunca, e é o verdadeiro personagem principal de Pornô – ao contrário de Trainspotting, que tinha Marc Renton como protagonista. Em Pornô, Sick Boy resolve patrocinar um filme pornográfico e está de caso com a inglesa Nikki Fuller-Smith, a única nova personagem com importância similar aos quatro já citados. Jovem, bonita, inteligente e extremamente liberada em relação ao sexo, Nikki faz massagens numa sauna para ajudar a custear seus estudos na Universidade de Edimburgo. Ela não pensa duas vezes antes de aceitar um dos papéis principais no filme que o namorado  está produzindo: seu desejo é que o filme pornô lhe abra as portas para um mundo rico e glamouroso. Para ajudar na produção, Sick Boy (ou melhor, Simon) chama Marc Renton, seu antigo desafeto. Só que quem leu (ou assistiu a Trainspotting) deve se lembrar que este último fugiu de Edimburgo com o todo o dinheiro, fruto de uma grande venda de heroína e que deveria ser dividido entre os quatro amigos, mais outro personagem chamado Segundo Lugar. Rents, mais tarde, devolve apenas a parte de Spud, deixando Sick Boy, Begbie e Segundo Lugar a ver navios. Por causa deste golpe, Marc quer distância de Edimburgo. Sobretudo por medo da vingança do violento Begbie, que não achou muito legal (óbvio!) ter sido passado para trás na história da negociação da droga. (texto publicado no Mondo Bacana em 2017; o texto sobre a continuação de “Pornô”, chamado “Skagboys”, foi publicado aqui.)
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Séries assistidas recentemente
Séries
Séries assistidas recentemente
10 de maio de 2020 0
“Marianne” (2019) é uma série francesa de terror da Netflix com oito episódios de cerca de cinquenta minutos cada um. Ela conta a história de Emma, uma escritora de romances de terror que acaba percebendo, para seu desgosto, que os personagens de seus livros tinham correspondentes na vida real. A série é assustadora, tem belas paisagens e ótimas atuações, principalmente de Victoire Du Bois, a atriz principal. Não se impressione pelo fato de a Netflix ter cancelado a série depois da primeira temporada: Stephen King é fã, e isso diz tudo. Belíssimas paisagens também são um destaque de “Labirinto verde” (“Zone Blanche”), série franco-belga da TV France 2, distribuída por aqui pela Netflix, com duas temporadas com oito episódios de cerca de 50 minutos cada uma – está prevista uma continuação para este ano. A série conta a história de uma pequena cidade ficcional na França, Villefrance, que tem uma quantidade de crimes muito superior à da média nacional. Para tentar resolvê-los, a capitã Laurène Weiss (Suliane Brahim, ótima) conta com poucos ajudantes. “Labirinto verde”, cuja primeira temporada foi lançada em 2017, é uma série muito bem conduzida e com alguns toques fantásticos. “Downton Abbey” é uma série inglesa de grande sucesso lançada entre 2010 e 2015, com seis temporadas de mais ou menos oito episódios com cerca de uma hora cada um. Ela foi produzida pelo canal ITV e atualmente é transmitida aqui no Brasil pela Amazon Prime. A série conta a história dos Crawley, família nobre inglesa fictícia, entre 1912 e 1925. “Downton Abbey” aborda temas históricos – a decadência da nobreza inglesa, o naufrágio do Titanic, o início da mudança nos rígidos costumes da época, a Primeira Guerra – com brilhantismo, e  tem um grande número de personagens (tanto nobres e como seus criados) muito bem construídos e interpretados. A série mereceu todo o sucesso que fez – está previsto, aliás, um filme sobre ela. Comentei anteriormente sobre o romance “O homem do castelo alto”, de Philip K. Dick; a série baseada nele, da Amazon Prime,  foi lançada por aqui com o nome original, “The man in the high castle”. Ela tem quatro temporadas, lançadas entre 2015 e 2019, cada uma com dez episódios de cerca de uma hora. A história conta sobre um mundo paralelo em que alemães e japoneses ganharam a Segunda Guerra Mundial e dividiram os Estados Unidos em duas partes – o leste alemão e o oeste japonês. É interessante notar, entre outras coisas, a coerência da série tendo em vista a ideologia dos vencedores: os americanos, vistos como arianos pelos alemães, não sofrem preconceito e chegam a altos postos na administração nazista, mas são considerados inferiores pelos japoneses. “The man in the high castle”, que não terá mais continuação, é uma ótima série distópica, mas menos assustadora do que “The handmaid’s tale”, por exemplo: afinal de contas, sabemos que os nazistas e japoneses já perderam a guerra, mas não temos certeza de que loucuras como as de Gilead jamais acontecerão.
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