Literatura

“Pornô”, de Irvine Welsh

17 de maio de 2020 0

Marc Renton (ou simplesmente Rents) é o sujeito de personalidade complexa: mesmo viciado em heroína e aplicador de golpes aqui e ali, é universitário, culto, e tem seu próprio e quase justificável senso de justiça. Begbie quer distância de heroína e é fiel às suas amizades, mas é um psicopata violento que arrebenta praticamente qualquer um por motivos insignificantes. Sick Boy é um viciado almofadinha, frio, calculista e manipulador – e fã de James Bond. Já Spud é um perdedor, um derrotado, que sustenta seu vício em heroína com pequenos golpes e com o dinheiro Assistência Social – mas é cara legal e, somando tudo, o melhor caráter dos quatro.

Estes amigos de Edimburgo, capital da Escócia, são os principais personagens de Trainspotting, do autor escocês Irvine Welsh, romance publicado originalmente em 1993 e que teve uma versão cinematográfica lançada em 1996 que foi um cult de enorme sucesso – e que catapultou as carreiras do diretor Danny Boyle e do ator Ewan McGregor. Pornô, lançado originalmente em 2002 (Rocco, 568 páginas, tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari) é a continuação daquela obra e conta o que aconteceu com os personagens citados acima – e mais alguns novos – cerca de uma década depois (Trainspotting se passa no final da década de 80).

Em Pornô, praticamente ninguém mais usa heroína, só mesmo Spud e muito de vez em quando. Isto não quer dizer, contudo, que os personagens tenham se transformado em exemplares e responsáveis pais-de-família. Renton abriu, com sucesso, algumas boates na capital holandesa e vive um casamento em crise. Spud agora tem um filho pequeno e a mulher Ally; tudo estaria muito bem se ele não continuasse totalmente perdido, sem emprego, sem ocupação e dando pequenos golpes para arranjar algum dinheiro para drogas e bebidas. Begbie passou uma temporada na cadeia depois de ter assassinado um sujeito e agora está à solta, mais insano, alucinado e violento do que nunca. Sick Boy morou em Londres um bom tempo, e agora voltou para Edimburgo, onde abriu um pub; ele não admite mais o antigo e humilhante apelido e agora quer ser chamado pelo seu nome verdadeiro, Simon David Williamson. Simon está mais mau-caráter e manipulador que nunca, e é o verdadeiro personagem principal de Pornô – ao contrário de Trainspotting, que tinha Marc Renton como protagonista.

Em Pornô, Sick Boy resolve patrocinar um filme pornográfico e está de caso com a inglesa Nikki Fuller-Smith, a única nova personagem com importância similar aos quatro já citados. Jovem, bonita, inteligente e extremamente liberada em relação ao sexo, Nikki faz massagens numa sauna para ajudar a custear seus estudos na Universidade de Edimburgo. Ela não pensa duas vezes antes de aceitar um dos papéis principais no filme que o namorado  está produzindo: seu desejo é que o filme pornô lhe abra as portas para um mundo rico e glamouroso. Para ajudar na produção, Sick Boy (ou melhor, Simon) chama Marc Renton, seu antigo desafeto. Só que quem leu (ou assistiu a Trainspotting) deve se lembrar que este último fugiu de Edimburgo com o todo o dinheiro, fruto de uma grande venda de heroína e que deveria ser dividido entre os quatro amigos, mais outro personagem chamado Segundo Lugar. Rents, mais tarde, devolve apenas a parte de Spud, deixando Sick Boy, Begbie e Segundo Lugar a ver navios. Por causa deste golpe, Marc quer distância de Edimburgo. Sobretudo por medo da vingança do violento Begbie, que não achou muito legal (óbvio!) ter sido passado para trás na história da negociação da droga.

(texto publicado no Mondo Bacana em 2017; o texto sobre a continuação de “Pornô”, chamado “Skagboys”, foi publicado aqui.)

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