“Gengis Khan e a formação do mundo moderno”, de Jack Weatherford
História
“Gengis Khan e a formação do mundo moderno”, de Jack Weatherford
25 de dezembro de 2020 2
O imperador mongol Gengis Khan (1158 – 1227) é comumente visto como um assassino violento e estuprador em série. A visão dada por “Gengis Khan e a formação do mundo moderno” (Bertrand Brasil, 460 páginas, tradução de Jorge Ritter, publicado originalmente em 2006), do historiador americano Jack Weatherford, não chega a negar essas suas características, mas mostra uma pessoa bastante diferente da ideia comum que se tem dele. O grande imperador, nascido com o nome de Temujin, teve uma infância difícil nas estepes mongóis – tendo sido inclusive rejeitado pelo próprio clã – e o caminho para se tornar o maior líder de seu povo foi árduo e marcado por muita violência. Tendo obtido o poder ele passou a comandar guerras de conquista – os mongóis, ainda no tempo da vida de Gengis Khan, passaram a dominar um território maior que o do Império Romano, indo da China a territórios eslavos. Quando os mongóis chegavam num território para conquistá-lo, muitas vezes davam a opção para os moradores locais para que se submetessem sem violência, caso em que teriam que lhes pagar alguns impostos, mas teriam a liberdade para viver como quisessem. Outro interesse dos mongóis era o comércio, e eles abriram rotas comerciais por todo o Oriente. Mas o mais fascinante – e inesperado, para quem só conhecia a má fama do imperador mongol – em suas conquistas eram os conceitos, praticamente inéditos na época, que Gengis Khan implantou no seu império: liberdade religiosa total, primado das leis sobre as pessoas – mesmo o próprio imperador -, e busca da eficiência: para este último objetivo, aliás, Gengis Khan buscava os melhores técnicos e especialistas entre todos os povos, não importando a origem étnica, para trabalhar em seu império. Depois da morte de Gengis Khan, seus sucessores começaram disputas pelo trono, mas o impacto de suas conquistas e de suas ideias permaneceu por séculos: não à toa, Jack Weatherford chama o grande imperador mongol de “o formador do mundo moderno”.
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Os filmes a que mais gostei de ter assistido em 2020
Cinema
Os filmes a que mais gostei de ter assistido em 2020
23 de dezembro de 2020 0
Há alguns anos eu tinha decidido que iria praticamente parar de ver filmes para me dedicar mais à literatura – e isso mudou depois que comprei a primeira caixa de DVDs da Versátil, com seis filmes noir. Como se sabe, filmes noir são filmes policiais americanos lançados nas décadas de 1940 e 1950, com fotografia expressionista. O gênero polar, às vezes chamado de noir francês, é um estilo que começou baseado no similar americano e que continuou com grande sucesso até os anos 1980 – aliás, é interessante acrescentar que existem filmes polar coloridos, ao contrário dos noir americanos, sempre em preto e branco. A Versátil já lançou 17 caixas com seis filmes noir cada uma, e cinco outras com filmes polar. Segue abaixo a relação dos melhores filmes noir e polar a que assisti este ano. Alguns deles têm versões integrais no YouTube com legendas – quando é o caso, os links são acessados quando se clica no título do filme. A foto que acompanha este texto, com o cartaz de Moeda falsa, foi obtida na Wikipédia. Bob, o jogador (Bob, le flambeur, 1956, 103 min, França). De Jean-Pierre Melville, com Roger Duchesne, Isabelle Corey, Daniel Cauchy. Caixa da Versátil: Filme Noir Francês 2. Comentário: um dos meus filmes preferidos, sobre o qual já falei aqui. Moeda falsa (T-Men, 1947, 92 min, Estados Unidos). De Anthony Mann. Com Dennis O’Keefe, Wallace Ford, Alfred Ryder. Caixa da Versátil: Filme Noir 10. Comentário: agentes do governo norte-americano caçam uma quadrilha de falsificadores de dinheiro. Grande filme de um dos maiores diretores americanos de todos os tempos. Os Corruptos (The Big Heat, 1953, 90 min, Estados Unidos). De Fritz Lang, com Glenn Ford, Gloria Grahame e Lee Marvin. Caixa da Versátil: Filme Noir Francês 2. Comentário: nunca esqueço do verbete da Enciclopédia Abril que dizia que os filmes americanos de Fritz Lang eram muito piores que os alemães, que tinham sido feitos na época do expressionismo. Este filme, que fala sobre corrupção na polícia, prova que a coisa não era bem assim. Um Preço para Cada Crime (The Enforcer, 1951, 86 min, Estados Unidos). De Raoul Walsh e Bretaigne Windust, com Humphrey Bogart e Zero Mostel. Caixa da Versátil: Filme Noir 2. Comentário: o astro Humphrey Bogart está excelente no papel de um policial com dificuldade de que as suas testemunhas façam depoimentos contra um mafioso. Série negra (Série Noire, 1979, 115 min, França). De Alain Corneau, com Patrick Dewaere, Marie Trintignant. Caixa da Versátil: Filme Noir Francês. Comentário: filme estranho e violento sobre um vendedor casado que se apaixona por uma adolescente obrigada a se prostituir. O único filme colorido desta lista. Precipícios d’alma (Sudden Fear, 1952, 111 min, Estados Unidos). De David Miller, com Joan Crawford, Jack Palance, Gloria Grahame. Caixa da Versátil: Filme Noir 8. Comentário: Joan Crawford está estupenda como uma dramaturga que entra num relacionamento amoroso perigoso. Eu sempre me lembro das cenas finais, impressionantes. Almas perversas (Scarlet Street, 1945, 102 min, Estados Unidos). De Fritz Lang, com Edward G. Robinson, Joan Bennett, Dan Duryea. Caixa da Versátil: Filme Noir 7. Comentário: homem se apaixona por uma prostituta. De Fritz Lang com Edward G. Robinson, nem precisa falar mais nada. O invencível (Champion, 1949, 100 min, Estados Unidos). De Mark Robson, com Kirk Douglas, Arthur Kennedy, Marilyn Maxwell. Caixa da Versátil: Filme Noir 6. Comentário: o primeiro grande papel de Kirk Douglas, que faz um boxeador inescrupuloso. Meu filme de boxe preferido. Rincão de tormentas (Brighton Rock, 1947, 93 min, Inglaterra). De John Boulting. Com Richard Attenborough, Hermione Baddeley, William Hartnell. Caixa da Versátil: Filme Noir 9. Comentário: os fãs de Morrissey já ouviram falar sobre os gângsteres londrinos de segunda categoria Dallow, Spicer, Pinkie e Cubitt, que são os personagens principais deste grande filme, sobre o qual já comentei aqui. Gângsteres de casaca (Mélodie en sous-sol, 1963, 121 min, França). De Henri Verneuil, com Jean Gabin, Alain Delon, Claude Cerval. Caixa da Versátil: Filme Noir Francês 2. Comentário: um velho criminoso quer assaltar um cassino em Cannes com a ajuda de um amigo mais novo. O ator que faz o assaltante idoso é Jean Gabin, e o que faz o jovem é Alain Delon, já basta.
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As séries a que mais gostei de ter assistido em 2020
Séries
As séries a que mais gostei de ter assistido em 2020
19 de dezembro de 2020 0
Seguem abaixo, na ordem de preferência, as séries a que eu mais gostei de ter assistido em 2020. Estão relacionados, além dos países nos quais elas foram produzidas, os serviços de streaming nos quais elas são transmitidas no Brasil – e não necessariamente as companhias produtoras originais. 8 em Istambul (Netflix, uma temporada com oito episódios, Turquia): conta com grande sensibilidade a história de alguns personagens em Istambul, certamente uma das três melhores séries a que já assisti na vida. Minha filha, a futura psicóloga Teresa da Silveira Muller, deveria assistir também. O gambito da Rainha (Netflix, uma temporada com sete episódios, Estados Unidos): maior sucesso da história da Netflix, a história da jogadora de xadrez fictícia Beth Harmon é tão boa quanto você já ouviu falar por aí. Justiça (Globoplay, uma temporada com vinte episódios, Brasil): quatro histórias paralelas em Recife, uma prova de que o Brasil pode fazer séries com a mesma qualidade das americanas ou europeias. Nada ortodoxa (Netflix, uma temporada com quatro episódios, Estados Unidos/Alemanha): uma moça recém-casada numa família ultraortodoxa de Nova Iorque resolve fugir de tudo e tentar a sorte na Alemanha. A atriz principal, a israelense Shira Haas, já tinha brilhado em Shtisel, comentado aqui. Freud (Netflix, uma temporada com oito episódios, Áustria/Alemanha): alguns fatos reais e muita especulação – de caráter às vezes paranormal – sobre o início da vida profissional do criador da psicanálise. Quarta temporada de The Crown (Netflix, dez episódios, Reino Unido): o bacana desta série sobre a família real britânica é que cada episódio conta uma história diferente e pode praticamente ser assistido de maneira independente. Se metade do que a nova temporada fala sobre o Príncipe Charles for verdade, até consigo entender por que a Rainha Elisabeth, segundo as más-línguas, não quer passar o trono para ele. Em nome de Deus (Globoplay, uma temporada com seis episódios, Brasil): série documental brilhante sobre o paranormal João de Deus – acusado por dezenas de mulheres de assédio sexual -, produzida por Pedro Bial e Camila Appel. Downton Abbey (Amazon Prime, seis temporadas com 52 episódios no total, Reino Unido): história fictícia e deliciosa de uma família nobre britânica. The man in the high castle (Amazon Prime, quatro temporadas com 40 episódios no total, Estados Unidos): baseada no romance homônimo do romancista americano Philip K. Dick, ela imagina um mundo paralelo onde os nazistas teriam vencido a Segunda Guerra. Marianne (Netflix, uma temporada com oito episódio, França): série assustadora sobre uma escritora de romances de terror. Não se impressione pelo fato de a Netflix tê-la cancelado depois da primeira temporada: Stephen King é fã, e isso diz tudo.
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“A destruição dos judeus europeus”, de Raul Hilberg
História
“A destruição dos judeus europeus”, de Raul Hilberg
13 de dezembro de 2020 0
Provavelmente a obra mais importante sobre o Holocausto, “A destruição dos judeus europeus”, do austríaco-americano Raul Hilberg, é um calhamaço cuja edição brasileira, da Amarilys Editora, tem 1664 páginas e cinco tradutores (Carolina Barcellos, Laura Folgueira, Luís Protasio, Mauricio Tamboni, Sonia Augusto). A primeira edição da obra é de 1961, mas ela teve várias atualizações até o início dos anos 2000 (o autor faleceu em 2007); o livro, que serviu inclusive como base para o monumental filme “Shoah”, de Claude Lanzmann (ver, inclusive, o comentário do cineasta na capa da edição da Amarilys Editora, que é a imagem que acompanha este texto), foi o trabalho de uma vida. Como o próprio Hilberg comenta na obra, quando da sua primeira edição, em 1961, o Holocausto era um assunto quase esquecido: no meio da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética tinham outas preocupações mais imediatas e pouca vontade de melindrar a memória de suas aliadas, respectivamente as Alemanhas Ocidental e Oriental. O autor, inclusive, descreve como sua pesquisa sobre a destruição dos judeus europeus era vista com ceticismo quando da elaboração da obra. Enfim, os ventos mudaram e o Holocausto – também por causa deste monumental “A destruição dos judeus europeus” – é atualmente objeto de gigantesco interesse, tanto por parte dos pesquisadores quanto do público em geral. O livro, realmente, merece a fama que tem. Praticamente todo escrito com enfoque sobre os perpetradores alemães, “A destruição dos judeus europeus” mostra com um grande número de documentos como os nazistas foram destruindo suas vítimas aos poucos: a partir de leis racistas que lhe tiravam paulatinamente os seus direitos, os judeus iam se sentindo mais e mais oprimidos e humilhados e acabavam tendo pouca ou nenhuma força de reação. Este processo de destruição era sistemático e organizado. Nem todos os países ocupados ou aliados da Alemanha, por outro lado, tiveram o mesmo comportamento quanto à destruição de sua população judia, e o livro mostra com detalhes a atuação de cada uma dessas nações a este respeito. Mas, claro, o livro tem muito mais: descrição dos campos de extermínio, das Marchas da Morte, dos Einsatzgruppen (esquadrões móveis que assassinavam populações judias em países como a União Soviética e a Ucrânia), da burocracia envolvida no processo da destruição da população judia, da reação pífia e às vezes até revoltante dos países aliados contra o Holocausto durante a guerra. Enfim, o livro é de leitura dolorosa, mas fundamental para quem quer entender mais sobre a destruição dos judeus europeus durante a Segunda Guerra.
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Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha
Literatura
Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha
29 de novembro de 2020 2
Pode ser que você tenha visto nas redes sociais a historinha do John John, um cachorro obcecado por comida e com delírios de grandeza. A ideia do personagem, baseado no nosso schnauzer vira-lata de mesmo nome, é do André Curtarelli, namorado da minha filha Teresa. Acabei pedindo ajuda para minha mentora e amiga Juliana Frank (sem a qual eu teria abandonado a ideia de escrever novos livros) e começamos o projeto. O fato é que, nas reuniões de roteiro, praticamente só o André e a Juliana dão ideias, e eu e a Teresa acabamos só organizando as coisas – é “produtores” que fala? Desde o início, minha ideia era chamar o Rafael Campos Rocha para desenhar a história, e por sorte ele gostou da ideia! Mais do que isso, não só o projeto está ficando bom demais – posso elogiar, já que basicamente nenhuma ideia e nenhum desenho ali são meus – como o Rafa desenhou o John John exatamente do jeito que eu imaginava. Enfim, por que eu quis que o Rafael Campos Rocha fosse o desenhista da nossa história? Porque eu amo “Deus, essa gostosa”, uma HQ ilustrada e roteirizada por ele, publicada pela Quadrinhos na Cia. em 2012. Ele mesmo me avisou que havia sido publicada uma outra HQ da mesma personagem (“Deus aos domingos”), publicada pela Veneta em 2018 – e é claro que a comprei assim que pude! O personagem Deus de Rafael Campos Rocha – que também apareceu na Folha de São Paulo – é uma mulher linda, negra, sexualmente ativa e que passa boa parte do tempo sem roupa. Não é um velho sádico como o Deus de Allan Sieber, mas é Deus mesmo, sério, compenetrado, responsável, e frequentemente de saco cheio com os humanos – como Ele mesmo deve ser, afinal de contas. Além de as histórias serem ótimas e divertidas, a junção de um Deus de comportamento ao mesmo tempo inesperado (sexualmente ativo) e esperado (responsável e compenetrado) mostra a beleza da liberdade artística – liberdade esta que tento também utilizar nos meus escritos.
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Diego Armando Maradona (1960-2020)
Esporte
Diego Armando Maradona (1960-2020)
25 de novembro de 2020 0
Ninguém aqui em Curitiba sabia ainda quem era Maradona quando meu avô assistiu a um especial com uma série de jogadas do argentino, espetaculares. Ele ainda jogava no Argentinos Juniors, nem para o Boca Juniors tinha ido ainda. A partir daquele momento, para meu avô Pelé não existia mais. Maradona era muito melhor. Continuou repetindo isso para quem quisesse ouvir, enquanto viveu. *** Eu tinha a foto que acompanha este texto, obtida da revista Veja, colada na parede do meu quarto. Ela foi tirada praticamente no momento em que a Alemanha empatou o jogo no final da Copa de 1986, depois de estar perdendo de dois a zero: enquanto todos os argentinos estão desesperados, Maradona levanta a mão, em posição de desafio. A Argentina ganhou a Copa. *** Assisti ao jogo Brasil x Inglaterra do lado do meu amigo João Roberto Liparotti. Nenhum de nós dois viu que Maradona fez gol com a mão, mesmo depois de vários replays. *** Maradona torcia para o Boca Juniors, grande rival do meu time na Argentina, o River Plate. Isso não impediu que o Millonario postasse dois tweets lindos sobre o grande campeão, reproduzidos abaixo: Mais importante que isso ainda, acho, é o abraço que o técnico do River Plate, Marcelo Gallardo, dá no grande campeão numa partida em 2019, quando o Millonario jogou com o Gimnasia, time que Maradona treinava na ocasião – veja o video, numa reportagem ainda com mais algumas informações, aqui. *** Finalmente, quem foi melhor, Pelé ou Maradona? Eu acho que esse é um assunto inútil e divertido. Mas se fosse para eu responder, eu faria uma relação com o xadrez: normalmente os analistas deste esporte dizem que os jogadores de hoje em dia ganhariam dos melhores do passado, se estes pudessem ser teletransportados para o dia de hoje, simplesmente porque aprenderam com quem veio antes. Então, não tem como fazer uma comparação justa. Do mesmo modo, para mim, no futebol comparações entre jogadores de épocas diferentes são injustas por natureza. *** Descanse em paz, Maradona.  
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“A maçã envenenada”, de Michel Laub
Literatura
“A maçã envenenada”, de Michel Laub
20 de novembro de 2020 0
Roberto Bolaño, em seu monumental “2666”, escreveu algo (cito de memória) no sentido de que um conto pode ser perfeito, mas um grande romance deve ter, por definição, imperfeições e exageros – já que a vida não é perfeita mesmo. É interessante pensar nisso: algumas raras vezes eu termino de ler uma história de ficção e penso comigo: “isso aqui foi perfeito”. Um ou outro conto de Cortázar e Alice Munro, quase todo Kafka e mesmo um romance – “As irmãs Makioka”, de Junichiro Tanizaki – me passaram essa sensação de perfeição. E, como Bolaño mesmo dá a entender, achar que uma obra é perfeita não quer dizer necessariamente que ela seja melhor que outras, “imperfeitas” e impactantes. Pensando nisso tudo, comecei a brincar comigo procurando defeitos nos meus livros preferidos, e foi mais ou menos simples: vá lá, “Ada ou Ardor”, de Nabokov, o já citado “2666”, de Roberto Bolaño, “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, a série “Minha luta”, de Karl Ove Knausgard ou mesmo a poesia de Georg Trakl têm lá seus trechos chatos, normalmente ausentes das obras “perfeitas”. Enfim, tudo isso para falar que “A maçã envenenada”, do gaúcho Michel Laub (Companhia das Letras, 120 páginas, publicado originalmente em 2013), que conta basicamente a história do relacionamento atormentado entre o narrador da história e sua primeira namorada, sobre o qual o show do Nirvana em São Paulo em 1993 teve papel importante, é basicamente uma rara história “perfeita” – e que li de uma sentada. Lindo demais. (foto de Michel Laub obtida no site da Companhia das Letras)
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Roberto Campos em “Energia”, terceira parte de “Rua Paraíba”
História, Literatura
Roberto Campos em “Energia”, terceira parte de “Rua Paraíba”
15 de novembro de 2020 0
A primeira vez que lembro de ter ouvido falar de Roberto Campos foi numa entrevista na Veja em que ele, então senador pelo Mato Grosso, vituperava contra a lei de reserva de mercado da informática. Era uma coisa estranha: uma espécie de Dom Quixote, do próprio partido do governo (de quem era a responsabilidade pela a malfadada lei), numa luta solitária e infrutífera contra tudo e contra todos: nesse ponto específico, o governo e a oposição de esquerda estavam do mesmo lado, contra Roberto Campos. Era uma lei que hoje parece uma coisa do século XV: as grandes empresas estrangeiras de informática eram proibidas de investir no Brasil – nos dias de hoje, é como se ninguém pudesse mais comprar um iPhone ou um laptop da Lenovo. É claro que estavam todos errados, e só Roberto Campos estava certo. (…) Il va sans dire que Roberto Campos tinha uma forte rejeição por parte da esquerda. O Luís Fernando Veríssimo, inclusive, criou uma piada que dizia que Delfim Netto era o Roberto Campos brasileiro – o senador mato-grossense, afinal, era chamado de Bobby Fields. Para a esquerda ele era um entreguista. Queria vender o país para os Estados Unidos a preço vil (a esquerda adora essa expressão). Era um lobista que defendia apenas os interesses estadunidenses (aqui no Brasil, quando alguém fala “estadunidense”, pode saber que é de esquerda). Durante um bom tempo, o que Roberto Campos escrevia era lei para mim. Eu ficava esperando – não lembro exatamente quantas vezes por semana – para ler suas colunas no jornal, ficava acordado esperando suas entrevistas na TV, defendia o cara contra tudo e contra todos. O ápice da minha ligação com ele foi a leitura do monumental “Lanterna na Popa”, autobiografia de mais de mil páginas. Eu reconhecia que certos comentários dele eram grosseiros, mas que vida a do Roberto Campos! Ministro da Fazenda de Castello Branco, embaixador na Inglaterra no governo Médici, senador por Mato Grosso no governo Figueiredo. Fica evidente, no livro, a frustração que ele teve ao perder o poder que teve no início do regime militar e que nunca mais iria recuperar. Ele deixava claro sua opinião segundo a qual o milagre econômico do governo Médici dependeu de maneira fundamental das reformas que ele implantara, ainda no governo Castello Branco. Para Roberto Campos, o governo Médici era excessivamente repressor contra a oposição. Para quem, como eu, cresceu num lar em que a mãe, esquerdista, tinha um peso fundamental na ideologia da casa, ser um admirador tão incondicional de um burocrata importante do governo militar não deixava de ser meio incômodo. O fato de ele efetivamente não ter participado da repressão e tê-la até criticado um pouco não deixava de ser um alívio. Pequeno, mas um alívio. De todo modo, ele estava numa fase áurea em termos de influência intelectual – até a esquerda o estava respeitando – Roberto Campos subitamente parou de escrever no jornal, por estar doente. Eu senti o baque, fiquei meio perdido, mas achava, claro, que logo ele se recuperaria e eu teria de novo meu economista de bolso para poder copiar as opiniões. Mas isso não ocorreu. Roberto Campos faleceu depois de uns dois anos doente. Nesse meio tempo era possível ler algumas notícias sobre a sua vida de recluso. Uma delas é que ele se obrigava a rezar a Ave-Maria – mesmo sem acreditar direito em Deus – em algumas línguas, para não perder a memória. Não adiantou, acabou perdendo a vida. Desculpem essa piada sem-graça: é uma homenagem às piadas sem graça de Roberto Campos. Na época em que os telefones celulares eram melhores e mais caros quanto mais pequenos, ele escreveu que eles eram uma espécie de homenagem à impotência, já que viviam dobrados e paravam de funcionar quando entravam em túneis. Chamava o whisky de néctar. Ex-seminarista, no início de seu livro de memórias ele conta a história de um colega de seminário que virou padre, mas que acabou sendo afastado. Segundo o que um colega em comum acabou contando para Roberto Campos, o padre afastado “era comunista, e isso a gente podia aceitar; ele tinha um caso com uma mulher, e isso dava para aceitar; mas nunca acreditou em Deus, e isso não dava para aceitar”. (trecho de Energia, terceira parte do meu livro “Rua Paraíba”, publicado recentemente – mais detalhes aqui; fonte da foto: Estadão)
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