“Beatriz”, de Pedro Kowacs
Literatura
“Beatriz”, de Pedro Kowacs
8 de março de 2020 0
O narrador de “Beatriz”, de Pedro André Kowacs (Cajarana, 156 páginas, 2019), conheceu a sua musa, que dá nome a seu livro, no Brasil. Ela lhe dá o endereço de um prédio em Budapeste e ele vai até lá tentar encontrá-la. O endereço acaba dando num prédio, com um apartamento por andar, que tem um estranho bar no térreo, e o narrador – que logo faz amizade com o barman – acaba descobrindo que, para encontrar Beatriz, ele tem que subir um elevador. É quando ele chega no apartamento número 2 – no que seria o primeiro andar aqui no Brasil mas que, na Hungria do livro, é o andar número dois (já que o térreo é o próprio primeiro andar) -, onde duas mulheres, uma eslava e outra asiática, o prendem por muitos dias para que ele faça sexo com elas. Ele consegue fugir de lá e vai para o apartamento número 3, onde mora Ignatius, um homem que o faz comer o tempo todo. No apartamento número 4 ele conhece dois lutadores irmão, Ogekk e Vishal Molnár, um avaro, outro pródigo. O apartamento número 5 é o lugar de reuniões de condomínio deste prédio esquisito, e a reunião em que o narrador participou é confusa e agressiva, como normalmente acontece. O morador do apartamento número 6, Dadec Nögyasvi, deixa todas as decisões de sua vida a cargo do acaso – um dado, no caso. No apartamento número 7 o narrador conhece um estranho e violento casal e, de surpresa em surpresa, o narrador chega ao décimo terceiro e último andar deste prédio para lá de surpreendente.  “Beatriz” é cheio de personagens bizarros, de situações estranhas, de citações inesperadas. Um livro surpreendente.
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Revisitando Isaías Caminha
Literatura
Revisitando Isaías Caminha
25 de fevereiro de 2020 0
Já comentei aqui e aqui, respectivamente, a primeira e a segunda leituras de “Recordações do escrivão Isaías Caminha”. Na primeira leitura, escrevi: Confesso que tenho um problema com Lima Barreto. Já tinha sido um sofrimento ler “Triste fim de Policarpo Quaresma”, e com este “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” a coisa não foi diferente. Ele tem algo no estilo – lamentoso demais – que acaba dificultando a leitura. Já na segunda, parece que um véu me saiu dos olhos: Realmente, “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é um livro amargo, mas isto, que tinha me chamado atenção na primeira leitura, é apenas parte da história: o fato é que as descrições de pessoas e situações apresentadas por Lima Barreto são vívidas, tão bem executadas que conseguem descortinar para o leitor toda uma época, quase como se visitássemos o Rio de Janeiro dos primeiros anos da República. O livro cintila. Depois disso, postei no Instagram uma foto – que acompanha este texto – na qual comento que “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é o “melhor livro da literatura brasileira, e não admito opiniões contrárias”. Depois da postagem fiquei me perguntando se eu não estava sendo injusto com o restante da literatura brasileira, e resolvi ler de novo este livro. O que aconteceu é que nesta terceira leitura voltou a me chamar a atenção aquilo que eu tinha citado no meu primeiro texto sobre o romance: (…) o painel preciso que ele pinta das mazelas brasileiras – o racismo, a falta de palavra dos políticos, o sensacionalismo da imprensa, a falta de responsabilidade generalizada – é impressionante. Várias leituras, uma diferente da outra. Grandes romances não são aqueles que permitem isso?  Conclusão: “Recordações do escrivão Isaías Caminha” é o melhor livro da literatura brasileira, e não admito opiniões contrárias.
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Quatro filmes noir europeus
Cinema
Quatro filmes noir europeus
2 de fevereiro de 2020 0
Como se sabe, filmes noir são filmes policiais americanos lançados nas décadas de 40 e 50, com fotografia expressionista. A Versátil já lançou quatorze caixas, com seis filmes cada uma mais extras, deste gênero fascinante. Algumas produções lançadas nesta coleção são europeias – apesar de o estilo ser basicamente norte-americano -, e quatro filmes noir europeus, três britânicos e um francês, são objeto do presente texto. Lançado em 1947, “Sempre chove aos domingos” (“It always rain on Sundays”), de Robert Hammer, mostra uma Londres pobre, com pessoas permanentemente irritadas por falta de dinheiro e perspectivas – em muito me lembrou o clássico, amado por Morrissey, “A taste of honey”, de 1961. “Sempre chove aos domingos” é muito bem narrado, mas o excesso de personagens (a madrasta má que, apesar de casada com um marido mais velho e benevolente, ainda ama o velho namorado que é fugitivo da cadeia; suas duas enteadas, uma bem ajustada e com um namorado responsável e carinhoso, e a outra que é amante de um homem casado; o outro enteado, um garoto que só quer saber de tocar gaita de boca; três assaltantes pés-de-chinelo, que pouco têm a ver com os demais personagens; um homem que dá golpes bem sucedidos) faz com que o filme tenha algo de uma novela da Globo. “Rincão de tormentas” (“Brighton Rock”), lançado em 1947 e com direção de John Boulting, conta a história de quatro gângsteres londrinos de segunda categoria, chamados de Dallow, Spicer, Pinkie e Cubitt – sim, estes nomes são citados no clássico “Now my heart is full”, de Morrissey. O personagem principal é Pinkie, que ordena o assassinato de um rival e tenta fazer com que o crime passe por suicídio. O filme é espetacular, e o contraste entre o rosto suave e quase feminino de Pinkie (vivido magistralmente por Richard Attenborough) e suas atitudes violentas é realmente assustador. Não à toa, a imagem que acompanha este texto mostra Pinkie em “Rincão de tormentas”. “Rififi” (“Du rififi chez les hommes”), de 1955, dirigido por Jules Dassin, é o único filme francês citado aqui. Segundo o Wikipédia, o filme ficou famoso “pela cena do roubo na joalheria, de quase meia hora de duração sem diálogos ou música e que mostra em detalhes a ação dos bandidos, imitada posteriormente por criminosos de verdade ao redor do mundo”. Mas o filme é muito mais que isso, mostrando com maestria a preparação e as consequências do roubo. Um clássico indiscutível, que faz com que o espectador tenha vontade de assistir a mais policiais franceses – por sorte a coleção da Versátil “Filme Noir Francês” já está no quarto volume. Finalmente, “Trágico álibi” (“My name is Julia Ross”), de Joseph H. Lewis, lançado em 1945 e com apenas 64 minutos de duração, é uma pequena obra-prima: apesar do pouco destaque na coleção da Versátil (foi lançado como um extra no DVD Filme Noir Vol. 9), é uma assustadora história de uma família londrina que tenta fazer com que uma garota passe por outra mulher.
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“Heavier than heaven – Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain”, de Charles R. Cross
Música
“Heavier than heaven – Mais pesado que o céu: uma biografia de Kurt Cobain”, de Charles R. Cross
26 de janeiro de 2020 0
Se Bach e Nick Drake só foram reconhecidos como gênios depois de mortos, isso absolutamente não aconteceu com o vocalista e líder do Nirvana, Kurt Cobain. Quando do lançamento de “Nevermind”, em 1991, a crítica e o público logo reconheceram que o que estava acontecendo ali não era algo “normal”, por nenhum padrão: uma banda alternativa chegando no primeiro lugar das paradas, e ainda com canções reconhecidas como geniais por quase toda imprensa especializada, não era algo que acontecesse todo o dia.  Quanto a mim, eu era meio que o personagem de “In Bloom”, faixa de “Nervermind”: “ele é aquele que gosta de todas as canções bonitas / e gosta de cantar junto / (…) / mas não sabe o que significa”. Passei o verão de 92 ouvindo “Nevermind” ininterruptamente – entrei de cabeça na onda mundial. Só ano passado que resolvi ouvir a sério as músicas do Nirvana – tentando entender o que elas significam, inclusive – e fiquei impressionado como a banda era muito melhor do que eu pensava. Um som forte, com letras complexas e profundas – um clássico eterno. Neste contexto a leitura da biografia de Kurt Cobain, “Mais pesado que o céu”, de Charles R. Cross (Globo, 450 páginas, tradução de Cid Knipel), lançado originalmente em 2001, é um excelente complemento para a obra dele. Nascido em Aberdeen, estado de Washington, em 20 de fevereiro de 1967, Kurt Cobain era de uma família de classe média baixa, e aparentemente viveu feliz até a separação de seus pais, quando ele tinha nove anos. Depois disso, ele passou por vários momentos difíceis, tendo sido jogado daqui para lá por vários parentes, e morado por muitos períodos em seu carro. Sua vida teve uma rica sucessão de acontecimentos e esquisitices – morou com uma namorada em um apartamento onde criava gatos, coelhos e outros animais, por exemplo.  O sucesso acabou chegando mesmo, e de forma avassaladora, com “Nevermind”, seu segundo álbum, depois de “Bleach”, de 1989. Kurt Cobain parecia tanto gostar de vender milhões de cópias como não gostar, sinal de sua personalidade extremamente complexa, que fez com que, por exemplo, tenha se viciado em heroína aparentemente por uma decisão racional. Mesmo seu suicídio, em 1994, parece ter sido uma decisão totalmente pensada.
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Altruísmo
Exercícios Literários, Impressões
Altruísmo
24 de janeiro de 2020 0
Acho que foi no livro “Mero Cristianismo” que o escritor e ensaísta inglês CS Lewis (o mesmo de “Crônicas de Nárnia”) sugeriu o altruísmo como uma prova – ou, no mínimo, um indicativo – da existência de Deus. Se minha memória não está me pregando peças, CS Lewis defendia que não há nenhuma razão na Natureza para que alguém, numa enchente, pare seu carro e, no meio da chuva, arrisque a própria vida saltando num rio para tentar salvar algum desconhecido se afogando. E todos sabemos que seres humanos tomam atitudes semelhantes. Por outro lado, a manutenção da vida pressupõe egoísmo, e é por isso que os leões que derrotam antigos chefes de bando matam os filhotes dos derrotados: assim, somente o DNA do vencedor é mantido para a posteridade. Exemplos de egoísmo na Natureza são abundantes e são a base, por exemplo, do livro do famoso Richard Dawkins, chamado de  “O Gene Egoísta” (que preciso confessar que não li, ao contrário do “Mero Cristianismo” citado acima), no qual foi criado o termo “meme”, inclusive, mas esta é outra história. Voltando a CS Lewis, para o escritor inglês o altruísmo, por não fazer sentido de um ponto de vista evolutivo, deve ser causado por um chamado vindo de um lugar mais alto – do Divino. A explicação é mais complexa que isso, mas acho que dá para entender o sentido do que o autor das “Crônicas de Nárnia” quis dizer com seu argumento. Por outro lado, biólogos evolucionistas têm defendido que, por ser uma forma de seleção de grupo, o altruísmo também tem seu pé mais ou menos fincado nas teorias de Darwin (ver, por exemplo, a coluna “Animais sociais”, de Hélio Schwartsman, da Folha de São Paulo de 26/04/2012). Eu mesmo sou crente em Deus, acredito que Ele atua em todo universo, mas não acho que algum dia alguém venha a “provar” Sua existência de maneira inequívoca. Cada um escolhe o que quer. (Exercício literário proposto pelo Robertson Frizero: escreva uma crônica de até 500 palavras sobre o tema ALTRUÍSMO. O roteiro sugerido para escrita é este: uma pequena história a explicação do conceito o que, na sua opinião, leva as pessoas a serem altruístas o momento atual do mundo o que precisa mudar – resgatando a história inicial)
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“Devoção”, de Patti Smith
Literatura
“Devoção”, de Patti Smith
19 de janeiro de 2020 0
Lançado em 2019, “Devoção” (Companhia das Letras, 140 páginas, com tradução de Caetano W. Galindo) começa como seus excelentes “Linha M” e “O ano do macaco”, com a cantora e escritora Patti Smith em seu lindo estilo carinhoso e impressionista. No caso aqui, ela discorre sobre uma viagem para Paris e comenta sobre Patrick Modiano e Simone Weil.  Lá pelas tantas ela fala de um conto que está escrevendo, chamado “Devoção” – e, quando eu não estava esperando, o conto começa. Este conta a história de Eugenia, uma garota muito inteligente mas que não dá importância para os estudos, órfã, filha de pais estonianos e criada pela irmã, Irina, e o namorado dela, Martin. O que Eugenia realmente gostava de fazer era patinar – e foi num lago congelado onde ela passava horas praticando o esporte que ela conhece Alexander, homem rico que não só tem um caso e acaba morando com nossa heroína, como começa a pagar os treinos de Eugenia para que esta se profissionalize na patinação. Fiquei meio dividido em relação a “Devoção”, que em muitos trechos me pareceu meio ingênuo, ou didático demais. A solução que Patti Smith dá para o conto acaba dando um jeito no que parecia um caso perdido.  De todo modo, a última parte do livro, “Um sonho não é um sonho”, Patti Smith volta ao seu estilo de sempre, descrevendo uma visita à casa onde Albert Camus passou os últimos dias da vida, convidada pelos descendentes do escritor. E o livro termina de maneira sublime: “Qual a tarefa? Compor uma obra que comunique em vários níveis, como numa parábola, sem a marca da inteligência vulgar. Qual o sonho? Escrever algo bom, que fosse melhor do que eu sou, e que justificasse minhas tribulações e indiscrições. Oferecer prova, por meio de palavras reordenadas, de que Deus existe. Por que eu escrevo? Meu dedo, como uma caneta de ponta seca, retraça a pergunta no ar em branco. Um enigma conhecido, proposto desde a juventude, quando eu me afastava das brincadeiras, dos companheiros e do vale do amor, cingida de palavras, um passo fora do grupo. Por que escrevemos? Irrompe um coro. Porque não podemos somente viver.“
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Turmas
Filosofia, Literatura
Turmas
12 de janeiro de 2020 0
Em vídeos e crônicas, o famoso filósofo Luiz Felipe Pondé – que eu admiro muito, aliás – parece citar sempre os mesmos escritores: Fiódor Dostoiévski, William Shakespeare, Liev Tolstói, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Georges Bernanos e mais alguns poucos (não custa lembrar que ele está lançando um curso online sobre literatura, cujo link está aqui). Dostoiévski, então, é uma verdadeira mania para ele: em suas entrevistas da série “Democracia na Teia”, por exemplo, há uma edição gigantesca do grande autor russo atrás de entrevistador e entrevistado – mais do que isso, ele parece sempre pronto a citá-lo a qualquer momento, com ou sem necessidade. Eu raramente cito qualquer um desses escritores da turma do Pondé. Do Dostoiévski, li “Crime e Castigo” quando adolescente, e “Os irmãos Karamazov”, bem mais tarde. Gostei muito, mas não me marcaram. De Tolstói li mais e gostei mais, mas raramente lembro dele. Machado de Assis é um gênio, claro, mas aqui no Brasil prefiro Lima Barreto (acabei de ler “Recordações do escrivão Isaías Caminha” pela terceira vez dia desses) e Dalton Trevisan. De Shakespeare conheço muito pouco, embora tenha lido “Júlio César” ano passado e tenha amado. Sobre Nelson Rodrigues eu comentei no meu “Verão de 54”: “para ser grande literatura ainda falta um tanto para Nelson Rodrigues”. Bernanos eu conheci recomendado pelo próprio Pondé, gostei muito, mas achei meio confuso. Eu tenho uma turminha de escritores que cito sempre, também. Lembro, por exemplo, que parei de ler as colunas de dois críticos de literatura só porque falaram mal de “2666”, de Roberto Bolaño: um deles ainda teve o desplante de escrever que outra obra do chileno, “Os detetives selvagens” – que eu achei ruim – era “mais bem acabado” (ou alguma outra expressão sem sentido) que “2666”. De todo modo, minha turminha de escritores, fora os que já citei – Lima Barreto, Dalton Trevisan, Roberto Bolaño – tem ainda Patrick Modiano, Gabriel García Márquez, Marcel Proust, Karl Ove Knausgard, Honoré de Balzac, Junichiro Tanizaki, Philip Roth, Thomas Mann, J.M.G. Le Clézio e mais alguns. Tem um outro autor que está na minha turma e na do Pondé, mas ele não foi citado – ainda. Existe uma autora que acabou entrando na minha turma há uns poucos anos, a escritora e cantora Patti Smith. Em “O ano do macaco” ela conta de sua paixão avassaladora por “2666”, de Roberto Bolaño. Em “Devoção” ela fala de maneira extremamente carinhosa – como só ela consegue fazer – de Patrick Modiano e Simone Weil. Modiano e Bolaño admirados como devem ser! (A Simone Weil, cujas obras nunca li, deve ser muito boa também, haha.) Será que a turma de Patti Smith é parecida com a minha? Espero que sim. De todo modo, por que a turma de Pondé é diferente da minha e, quem sabe, da da Patti Smith também? Porque, acredito eu, como filósofo, ele quer retirar algum ensinamento, quer “enxergar” algo por trás de uma obra literária. Dostoiévski e o problema da existência. Machado de Assis e o ciúme. Shakespeare e os sentimentos humanos. Nelson Rodrigues e a hipocrisia da classe média. Georges Bernanos e a fé. Tolstói e… sei lá o que ele quer ver em Tolstói. Já eu e, provavelmente, a Patti Smith, queremos nos deslumbrar com uma obra literária. Não há o que enxergar por trás de “2666”, não há nenhum ensinamento por trás desta maravilha. O livro é apenas isso – uma maravilha. [1] Antes de terminar, comentei acima que existe um autor que faz parte da minha turma e da do Pondé: o nome dele é Franz Kafka. Ele deve admirar o grande autor tcheco pela crítica à burocracia, ou pelo retrato simbólico do absurdo da existência, ou coisa que o valha. Eu sei que amo Kafka pela imaginação e pela maravilhosa técnica de contar histórias malucas como se estivesse fazendo um relatório de empresa de seguros. [1] Algum engraçadinho pode vir me questionar dizendo que o que está por trás das obras de Balzac, Thomas Mann e Junichiro Tanizaki, da minha turma, sejam respectivamente o dinheiro, a arte e o sexo. O que eu teria em minha defesa? Sei lá, hehe.
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As melhores músicas de todos os tempos
Música
As melhores músicas de todos os tempos
8 de janeiro de 2020 0
É engraçado ouvir novamente uma música que você gostava muito depois de alguns meses, ou anos, sem ouvir: a experiência pode ser emocionante, ou frustrante. No caso de “New Rules”, grande sucesso de Dua Lipa que está chegando em dois bilhões de visualizações no YouTube, a surpresa foi fantástica: ela era ainda muito melhor do que eu lembrava, um verdadeiro clássico moderno. A experiência de ouvir de novo “New Rules” me fez imaginar este texto, chamado pomposa e falsamente de “As melhores músicas de todos os tempos”, e fiquei pensando numa nova lista de músicas preferidas – sim, eu amo listas. Durante muitos anos eu dizia para todo o mundo que a minha música preferida era o último movimento do ciclo de “A canção da terra”, de Gustav Mahler, chamado de “O Adeus” (Der Abschied). A edição que eu tinha, ainda em vinil, era com a Jessie Norman como solista deste incrível lied sinfônico – triste, lento e poderoso – com a London Symphony Orchestra regida por Sir Colin Davis. Lembro como se fosse hoje que fiquei uns quarenta minutos na loja me perguntando por que eu queria comprar este disco só pela capa – que é linda mesmo, como se pode ver pela imagem que acompanha este texto. Já tinha tentado gostar de Nick Drake, indicado por um conhecido, mas só quando ouvi “Day is done” compartilhado pelo meu amigo Arthur Vicente Cordeiro entendi por que este cantor que não fez sucesso em vida, mas que é adorado hoje, é tão bom. Eu ouvia sem parar a faixa achando que iria parar de gostar dela – eu já tinha tentado gostar de Nick Drake, né – mas nunca rolou de eu deixar de amar “Day is done”, até hoje. Postei recentemente que “You know you’re right”, do Nirvana, era minha música preferida, então ela tem que ser citada aqui. Antes dela, minha preferida era “Boxers”, de Morrissey, também lembrada. Sou meio obrigado a colocar Ashley All Day em qualquer lista que eu faça, e “Obsessed”, com Kiiara, é a lembrada da vez. “rockstar”, com Post Malone e 21 Savage, é outro sucesso monstruoso na linha de “New Rules” – com todo merecimento, aliás. O videoclipe da canção, cheio de sangue assumidamente falso, é outro clássico. Lembro como se fosse hoje do choque que tive ao ouvir o início de “CtrAltDelete”, de Bones, que, sem exagero, se repete a cada nova ouvida desta maravilha – um caso raro de clássico instantâneo do Elmo que não tem videoclipe. Ainda no assunto “exagero”, confesso que lacrimejei diversas vezes ouvindo a ária “Ach, mein Sinn”, da Paixão Segundo São João de Johann Sebastian Bach. Finalmente, “Oh yeah”, do Roxy Music, é a “nossa música”, minha e da Valéria Müller, a quem eu amo exageradamente. Haha, ficou brega esse final. Não pelo exagero do amor, mas “nossa música” é coisa de gente brega. Aqui está o link para a playlist no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/5Zz91ZHuYgezfzLOc8QuIQ?si=qPO0EdStTZC-xfTUiDXhDw
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