“Como fazíamos sem” e coleção “Baú de Histórias”
História
“Como fazíamos sem” e coleção “Baú de Histórias”
2 de maio de 2021 0
Existem alguns assuntos de conversa que são melhores que outros. Diferenças lingüísticas, por exemplo. Experimente, numa roda de amigos, dizer que o chinês é uma língua tonal, o que significa que uma palavra muda totalmente o sentido se você a pronunciar como um pergunta, como uma afirmação ou como uma ordem, que você vai ver a reação fascinada da maioria das pessoas. Outras dicas: diga, por exemplo, que o japonês tem três alfabetos, um deles copiado do chinês, o que faz com que uma pessoa japonesa consiga entender por alto um texto escrito em chinês, por mais as duas línguas sejam totalmente diferentes. Que o vietnamita é uma língua tonal como o chinês, mas que o governo comunista de lá resolveu mudar do alfabeto antigo para o alfabeto latino (o nosso). Resultado: para dar conta dos diversos tons utilizando as nossas letras, o vietnamita é escrito com mais de dez acentos, que se situam acima, no meio e abaixo das letras! Isto até pode ser “cultura inútil”, que não vai fazer aumentar nossos salários, mas que diverte e fascina. Outro assunto de conversa interessantíssimo é a chamada “história da vida privada”, a história, não das grandes personalidades e líderes, mas do dia-a-dia da intimidade das pessoas. Entre os assuntos que este tipo de “história íntima” analisa está o “como vivíamos sem” um ou outro novo produto ou aparelho. A tecnologia tem mudado radicalmente a vida dos seres humanos: muitas pessoas de mais de quarenta anos mal conseguem acreditar como viviam sem celulares na juventude (por mais que ninguém sentisse falta do aparelhinho na época!). Um dos grandes fascínios da recente série Roma¸ da HBO, por exemplo, é o cuidado dos produtores em mostrar a vida na República Romana (pouco antes do início do Império) exatamente como ela era: as pessoas comiam com as mãos, usavam tochas para iluminação (não havia luz elétrica) e até uma trepanação – cirurgia que consistia em fazer buracos no crânio usando uma pedra para libertar os espíritos ruins que tinham se alojado no corpo do doente – é mostrada no seriado. Comer com as mãos, tochas para iluminação e trepanação são alguns dos exemplos citados no delicioso “Como fazíamos sem”, da jornalista mineira Bárbara Soalheiro (Panda Books, 144 páginas). O livro é bem-humorado – na medida certa, ou seja, nada “engraçadinho” – e muito bem ilustrado. Em seus capítulos curtos, mostra o que as pessoas faziam quando não havia anestesia, geladeira, armário, dinheiro… Alguns exemplos apresentados no livro são particularmente interessantes. Antes da invenção do vaso sanitário, “o matinho era a privada de nossos antepassados. Lá pelo século XVIII, quando as cidades começaram a crescer e já não havia tanto mato por perto, a solução foi usar baldes. E é por isso que os maiores beneficiados com a invenção de privadas não foram os que estavam com vontade de usar o toalete (afinal, cá para nós, quando a vontade é grande mesmo o lugar pouco importa), mas os transeuntes das grandes capitais. Depois que acabavam de fazer suas necessidades, as pessoas despejavam o conteúdo dos baldes nas ruas. Em Paris, para alertar quem passava, gritavam ‘Água vá!’ antes de jogar fezes e urina pela janela. No Rio de Janeiro ou em Salvador, nem isso eles faziam.” Sem avião, sem automóveis e sem boas estradas, a viagem de “Ouro Preto ao Rio de Janeiro – as duas principais cidades brasileiras no século XVII – levava pelo menos 12 dias. Hoje, é assunto resolvido com apenas 50 minutos dentro de um avião. E se você é daqueles que reclamam depois de algumas horas dentro do carro e acha que o maior problema naquele tempo era ter paciência para agüentar quase duas semanas de viagem, é porque não tem idéia do quanto elas eram desconfortáveis. Quem fazia a viagem com mais freqüência eram os tropeiros, encarregados do comércio de animais – em geral, bois. Eles iam a cavalo, parando em fazendas para pernoitar. Um dos problemas que enfrentavam – além dos percalços da estrada como lama, mosquitos e bandidos – era levar alimentos que não perecessem em uma viagem tão longa. Foi dessas dificuldades que nasceram alguns pratos que comemos até hoje. Um dia, por exemplo, alguém que gostava muito de feijão teve a idéia de misturá-lo com farinha. Assim ficava mais fácil transportar – e o feijão se mantinha conservado por mais tempo. Resultado: nasceu o feijão tropeiro, um clássico da comida nacional.” “Como fazíamos sem” ainda tem muitas outras curiosidades sobre como era a vida de nossos antepassados, como o motivo pelo qual os ingleses são pontuais e os brasileiros não. Mas, para saber mais, o negócio é comprar os livro. Se você for fã de cultura inútil ou de um bom papo, não vai se arrepender. _____________________________________________________________ Segundo a sua coordenadora de publicação, Mary del Priore, a coleção Baú de histórias, da José Olympio Editora, apresenta raridades bibliográficas, inéditas até hoje e marcadas pela indiferença e o esquecimento, que têm interesse literário, histórico e etnográfico, “raros testemunhos de um universo e um tempo que perdemos”. Dois exemplares desta coleção tratam da escravidão durante o período do Império Brasileiro: Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro, do pastor anglicano Pascoe Grenfell Hill (123 páginas) e Entrevistas com escravos africanos na Bahia oitocentista, do estudioso francês Francis de Castelnau. O mais interessante entre eles é Cinqüenta dias… Em 1842 os brasileiros e portugueses ainda não tinham abolido o tráfico de escravos da África para o Brasil, e os navios negreiros eram considerados fora-da-lei pela legislação internacional. O livro do pastor Grenfell Hill conta uma história real: uma apreensão de um navio transportando escravos por uma barcaça inglesa. O que poderia ser uma história de final feliz com a libertação dos cativos, infelizmente, resultou em uma tragédia. Os ingleses não podiam, simplesmente, mandar os escravos para um local próximo na costa africana porque eles seriam escravizados de novo (eram próprios negros africanos que vendiam seus semelhantes). A solução era liberá-los em um lugar distante, mas os
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“Greed”, de Erich von Stroheim
Cinema
“Greed”, de Erich von Stroheim
25 de abril de 2021 0
Poucos filmes têm uma história tão mítica e trágica quanto “Greed” (“Ouro e Maldição” no Brasil), lançado em 1924. O seu diretor, Erich von Stroheim, o considerava a sua melhor obra e dizia que os cortes que o estúdio promoveu no filme o feriram tanto profissional quanto pessoalmente. “Greed”, baseado no romance naturalista publicado em 1899 “McTeague”, do escritor americano Frank Norris, conta a história de John McTeague (Gibson Gowland), um trabalhador de minas que, após aprender o ofício, acaba trabalhando como dentista. Ele se casa com Tina Sieppe (ZaSu Pitts), prima de seu melhor amigo, Marcus Schouler (Jean Hersholt), e é a vitória dela numa loteria que acaba colocando a vida de todos de cabeça para baixo: Tina fica obcecada com o dinheiro, não gasta um centavo dele, e também não deixa o marido – um bom homem, mas limitado intelectualmente – gastá-lo (não à toa, o título do filme, “Greed”, é “avareza” em português). Acho que não precisa contar mais nada do enredo, para não estragar a surpresa. Stroheim apresentou a sua versão inicial de “Greed”, de oito horas de duração, para um grupo pequeno de jornalistas e conhecidos. Boa parte dos presentes saiu da sala de projeção dizendo que este era o “melhor filme de todos os tempos”. Depois disso começou o drama do pré-lançamento. A Goldwyn Company (antecessora da Metro-Goldwyn-Mayer), produtora do filme, obviamente não gostou da ideia de lançar um filme tão longo e pediu para Stroheim deixá-lo num tamanho aceitável. Ele fez os cortes que quis e diminuiu o filme para quatro horas, mas mesmo assim a produtora não gostou e pediu para o editor Joseph W. Farnham diminuí-lo ainda mais – e o filme acabou com as quase duas horas e meia atuais. Stroheim ficou furioso com o resultado final e disse que “Greed” “foi cortado por editor que não tinha nada na cabeça fora o chapéu”. Entre os trechos cortados de “Greed”, por exemplo, as histórias paralelas de dois casais vizinhos – um casal bom, outro mau – dos McTeague foram eliminadas inteiramente! A versão de “Greed” original de oito horas de duração tornou-se uma espécie de Santo Graal do cinema, com diversos comentários ao longo do tempo dizendo que a versão completa do filme tinha sido vista aqui e ali – Stroheim chegou a dizer que o ditador italiano Benito Mussolini tinha uma cópia -, mas não se encontrou nenhuma prova de que essa versão realmente exista em algum lugar. A Turner fez uma versão de quatro horas, juntando o roteiro original de Stroheim com trechos e fotos não aproveitados na versão comercial. Em sua espetacular biografia “Stroheim”, Arthur Lenning comenta que promoveu a reconstrução de outro filme de Stroheim também dilapidado, “Foolish Wives”, aumentando significativamente o tamanho da versão da produtora; na estreia da sua versão da película, “um dos grandes amantes de filmes silenciosos” chegou para Lenning e lhe disse: “grande trabalho, mas fico feliz que você não tenha encontrado ainda mais” trechos não aproveitados do filme. Realmente, a sensibilidade moderna tende a rejeitar filmes silenciosos, por mais geniais que eles sejam. Quanto a mim, já assisti ao filme três vezes (duas das quais descrevi aqui) e pretendo revê-lo algumas vezes ainda. A história contada por Stroheim é sórdida e fascinante em proporções iguais, e merece toda a fama que tem; só lamento que a versão a que assisti no YouTube não tem a parte final, filmada no Vale da Morte na Califórnia, tingida de amarelo como aquela do próprio Stroheim – de todo modo, trechos dessa versão amarelada podem ser vistos aqui. Mas eu concordo com Arthur Lenning quando ele diz que é um erro considerar – como por muito tempo foi a opinião geral da crítica – que Stroheim foi o diretor de somente um filme importante, “Greed”. Na verdade, o restante dos seus filmes tem o mesmo nível artístico – e ainda não tenho ideia de qual é o meu preferido entre eles.
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“Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um Filho da Burguesia à Elite do Tráfico”, de Guilherme Fiuza
História
“Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um Filho da Burguesia à Elite do Tráfico”, de Guilherme Fiuza
25 de abril de 2021 0
Todo o mundo já deve ter ouvido aquela teoria de que os “verdadeiros” grandes traficantes do Rio de Janeiro moram confortavelmente em apartamentos na Zona Sul carioca, não nos morros. Quando se lê o subtítulo de Meu Nome Não é Johnny – A Viagem Real de um Filho da Burguesia à Elite do Tráfico, de Guilherme Fiuza (Editora Record, 336 páginas), pode-se pensar que estamos diante de um caso destes – ou seja, o de um traficante realmente grande com educação burguesa. Sinto decepcionar os partidários desta teoria da conspiração, mas a história contada neste excelente livro é um pouco diferente. Meu Nome Não é Johnny conta a história de João Guilherme Estrella, rapaz bem nascido que gosta de tocar músicas em seu violão e que cedo começou a se envolver no meio artístico. A partir da convivência com a “turma” vêm as primeiras experiências com drogas. Primeiro a maconha, depois o LSD e então a cocaína – que acaba viciando-o. Como necessita de cada vez maiores quantidades para consumo próprio, ele começa a vender pó (ainda em pequena escala) para arranjar dinheiro. Isto o faz entrar em contato com alguns traficantes e a coisa vai aumentando. Estrella arruma esquemas para traficar quantidades cada vez maiores diretamente da Bolívia: a cocaína que ele conseguia lá – apelidada de “Nelore Puro” – era a mais pura do mercado de drogas no Rio da época (final dos anos 80/início dos 90). Juntando o grande conhecimento da sociedade carioca que tem João Guilherme Estrella (ele sempre fora um sujeito extremamente sociável e simpático) com a qualidade insuperável de seu pó, é óbvio que o resultado só pode ser um. O rapaz da Zona Sul transforma-se em um grande atacadista de drogas, chegando a fazer viagens para Amsterdam para fazer grandes vendas do “Nelore Puro” na Europa). E, claro, neste tempo todo ele continua ingerindo quantidades fenomenais de cocaína. Mas se Estrella já passa a ser um grande traficante em termos de quantidade, em termos de violência ele não pode ser comparado aos chefões do morro. Impulsivo, pouco se importando com as conseqüências de seus atos, não só ele não tem segurança pessoal como sequer anda armado. Logo a Lei está atrás dele. Na primeira vez consegue se safar da polícia através de suborno. Na outra isto não é mais possível. É preso, recebendo uma condenação leve, em um grande momento da juíza que o condenou – pois ela, acertadamente, acreditava no caráter de João Guilherme Estrella. Mas nem por isto o sofrimento que o protagonista passa, tanto na cadeia quanto no manicômio judiciário, são pequenos. Todos estes maus momentos acabam ajudando o rapaz da Zona Sul a se redimir. Atualmente, ele trabalha como produtor musical, não trafica mais e está recuperado do vício da cocaína. Meu Nome Não é Johnny (o título é baseado na notícia do Jornal do Brasil; quando da prisão do traficante, o diário carioca escreveu que seu apelido era Johnny – o que nunca fora verdade) é uma obra extremamente bem escrita, em uma linguagem simples, direta e envolvente. É o tipo do livro difícil de parar de ler. Outra qualidade é que, em nenhum momento, o autor Guilherme Fiuza parece querer dar uma lição de moral aos leitores. Fiuza nem precisa disto, na verdade. A história fala por si. (Publicado no Mondo Bacana em 2008) (foto obtida no Posfácio)
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“O fim”, de Karl Ove Knausgård
História, Literatura
“O fim”, de Karl Ove Knausgård
18 de abril de 2021 0
Reconheço aqui que eu acessava o site da Companhia das Letras algumas vezes por mês para ver se finalmente tinha sido publicado em português o sexto e último volume da série de autoficção “Minha luta”, do norueguês Karl Ove Knausgård. Depois de uma longa espera, finalmente saiu “O fim” – título em português do livro tão aguardado, com tradução de Guilherme da Silva Braga –, e aí entendi por que o negócio demorou tanto (o anterior, chamado por aqui de “A descoberta da escrita”, tinha sido lançado por aqui em 2017): o sexto volume da série que catapultou Knausgård para o sucesso mundial tem 1054 páginas. Eu nem sei o tamanho da letra da edição impressa, já que eu li o livro no Kindle, mas tenho impressão, a partir de rápida folheada numa livraria, de que ela é pequena. Um romance realmente muito longo. Em “O fim” Knausgård dá muitos detalhes do medo que ele sentiu por ter apresentado fatos íntimos sobre diversas pessoas conhecidas nos romances anteriores da série, como a depressão da esposa e o processo que um tio ameaçou mover contra ele. Outro tema recorrente é a sua rotina como pai de três crianças, duas meninas e um menino, e a dificuldade da esposa em lidar com seu papel de mãe. Tudo isso com o estilo fascinante e ultradetalhado de Knausgård, que pode usar mais de cem páginas para descrever um jantar sem nunca parecer chato ou repetitivo. Mas “O fim” tem também um número enorme de páginas de teor ensaístico, de excelente qualidade aliás, nas quais se destacam dois temas: a análise de um pequeno poema do romeno, radicado na França, Emil Cioran, e a análise do livro “Minha luta” original, de Adolf Hitler, e do nazismo como um todo. Enfim, a leitura do ciclo “Minha luta” de Knausgård acabou. E eu tenho mais um livro dele aqui em casa, de nome “Winter”, mais recente e de outro ciclo chamado, na tradução em inglês, de “Seasons Quartet”. Será que eu o leio em inglês mesmo, arriscando a perder alguma coisa do sentido, ou fico entrando de novo no site da Companhia das Letras para ver se eles o publicam por aqui em português?
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Traduções de entrevistas de Morrissey
Música
Traduções de entrevistas de Morrissey
18 de abril de 2021 0
Quando do lançamento do extraordinário “You are the quarry” em 2004, Morrissey concedeu várias entrevistas, algumas das quais eu traduzi na época para o Mondo Bacana, e que estão relacionadas abaixo. *** GQ [EUA] [Sobre a formação dos Smiths] Eu não tinha absolutamente mais nada. E também era um chamado, porque instantaneamente teve sucesso e não requisitou um grande esforço. Preparação sim, esforço não. [Sobre o fim dos Smiths] Era um compromisso, porque para mim foi um enorme investimento, e então Johnny [Marr, guitarrista e parceiro de Morrissey nas composições] simplesmente disse: “Acabou-se”. E não acho que ele entendeu o tamanho do investimento que fiz. [Sobre a volta dos Smiths] Eu estou cansado de perguntas sobre a volta dos Smiths, porque só existe uma maneira de responder a uma dada questão e eu sinto que dei a resposta há 112 anos. Mas as pessoas ainda me perguntam – e não entendo o porquê. [Sobre envelhecer] Eu simplesmente adoro isto. Quanto mais velho fico, melhor me sinto. Eu sou fascinado por pessoas com 80, 90 anos. Especialmente por aqueles que ainda estão criando e vivendo de uma maneira interessante. [Sobre David Bowie] Ele não é mais a pessoa que era. Ele não é mais David Bowie de jeito nenhum. Hoje ele dá às pessoas o que ele acha que as vai fazer felizes, o que faz com que elas bocejem. E, fazendo isto, ela não é relevante. Ele só foi relevante por acidente. *** Sonic [Suécia] [comentários do jornalista] (…) Não há nenhum artista que é amado de uma maneira tão sem reservas por seus fãs, nenhum outro artista que seja tão intimamente definido pelo ouvinte. Eu não sou um deles. Mas é fácil entendê-los. A relação de Morrissey com a música pop sempre foi seríssima. Com 13 anos, sempre que os New York Dolls, T.Rex ou David Bowie passavam por Manchester, ele costumava chegar muito mais cedo do que qualquer outra pessoa até mesmo imaginasse em chegar, para estar o mais próximo possível do palco. Tendo chegado ali, ele agarrava o cercado tão firmemente que “mesmo um guindaste industrial não poderia me mover”. Ele se sentava para assistir a Top Of The Pops toda semana, escrevia quilos de cartas a todas as publicações que simplesmente não iriam entender nada, construiu seu próprio reino onde as principais figuras seriam Oscar Wilde, James Dean e Johnny Thunders. Todo seu enorme amor pela música pop foi canalizada para sua própria música. Deste modo, o primeiro single dos Smiths, “Hand In Glove”, soa como um ultrajante ataque a um mundo que simplesmente não vai entender, utilizando a música como sua arma (“Eu vou lutar até a morte/ Se eles ousarem tocar em um fio de cabelo seu”). Morrissey nunca deixa de acentuar o fato de que ele é o último outsider. Ele parece se sentir terrivelmente bem – mas ele não vai, jamais, fazer parte do mesmo mundo que nós: “Minha posição nunca parece se modificar. Eu pareço existir em algum planeta solitário, no meu mundo privado. Eu não sou parte de nada. Eu não pareço ter os mesmos interesses de outros letristas, eu não invado o território alheio e ninguém invade o meu.” Você está testando seus fãs trabalhando com Jerry Finn? Não, provavelmente eles não vão ver isto como uma boa idéia. Mas no fim das contas isto é problema meu. Se eu for tomar constantemente as idéias alheias em consideração, eu nunca faria mais nada. As pessoas sempre dizem: “Não, você não pode fazer isto”, mas você não pode ouvir o que as outras pessoas dizem. E você não pode, definitivamente, ouvir seu próprio público, porque quando você faz isto você simplesmente se torna um deles. Eu não rezo a Deus para que eles apreciem o que eu faço… Na maior parte do tempo eles não gostam mesmo. Bem, pelo menos eles fingem que não gostam. Eles sempre querem parecer tão superiores e intelectuais. Nada diz melhor “que se estrepe a NME” que um longo solo de flauta. Você acha que isso soa ridículo? Todos deveriam seguir as regras do jogo? E uma flauta sempre é progressiva? Alguns diriam que não. [comentários do jornalista] Quando a imprensa britânica estava acusando Morrissey mais do que nunca, ele se encheu e se mudou para os Estados Unidos. E Los Angeles foi aonde ele teve a maior audiência da sua vida. Em 1992, ele bateu o recorde dos Beatles, esgotando os ingressos do Hollywood Bowl no menor tempo já registrado. Ele foi, estranhamente, acolhido pela audiência dos chicanos dos EUA – audiência que adora el Moz com a mesma intensidade que os pálidos britânicos tinham tido dez anos antes. Quem sabe eles sejam apenas apaixonados pelos topetes rockabilly ou quem sabe eles apenas encontraram um cantor pop que canta sobre chorar sobre o travesseiro da mesma maneira que os cantores de baladas mexicanas fazem. Mas é provável que o principal é que as letras de Morrissey sobre ser um outsider são universais. Quão bem você se adaptou aos Estados Unidos, realmente? Existem tantas coisas que são muito importunas e as pessoas geralmente são muito importunas. Mas a paisagem é fabulosa; eu costumava dar uma volta com meu Jaguar e aproveitar a linda paisagem. Além disso, eu não tenho que ver uma única pessoa por milhares de milhas – o que, é claro, é muito prazeroso. As letras são muito diretas, pelo menos em “America Is Not The World” Sim, sem nuances, sem ambigüidade nenhuma. Eu não me importei muito em ser sutil agora. Simplesmente não há tempo para isto. E os Estados Unidos da América não é o mundo. Se você se opuser a isto você vai aparecer apenas idiota. Qual o objetivo em cantar sobre coisas óbvias? Bem, ao menos você não corre o risco de que eles não entendam o que você está cantando. Como nós podemos interpretar todas as suas referências a “andar ao léu” no álbum? É algo em que você está engajado? Ah sim. É realmente uma grande
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“Cassino Hotel”, de André Takeda
Literatura
“Cassino Hotel”, de André Takeda
15 de abril de 2021 0
João Pedro é um guitarrista que fez muito sucesso, nos anos 80, com a banda gaúcha Gol. Depois da dissolução do grupo, passou a sobreviver como músico acompanhante de vários cantores de quem antes “falara mal em festas promovidas por socialites que faziam de tudo para passar de modernas”. Quando Cassino Hotel, o segundo romance de André Takeda (Editora Rocco, 196 páginas), começa, ele é o guitarrista do conjunto de Mel X – nome artístico da cantora pop Melissa, uma menina recém-saída da adolescência, filha de um cantor sertanejo de sucesso (alguém aí pensou em Sandy ou Wanessa Camargo?). O complicador de tudo vem agora: João Pedro mantem um tórrido caso de amor com Mel X e o pai dela não gosta nada da história (alguém aí pensou nos pais de Sandy ou Wanessa Camargo?), principalmente devido ao passado de excessos do guitarrista. Pressionado pelo pai da cantora para que abandone o romance com Melissa, João Pedro toma uma decisão radical. Foge de São Paulo, onde participaria de um show dali a alguns dias, para a praia do Cassino, no litoral gaúcho – “o mais feio de toda a costa brasileira”. E é lá, no Cassino Hotel, que João Pedro, com enormes dificuldades pessoais, começa a enfrentar os problemas do passado. Isto por que no hotel estão hospedados Letícia, a namorada que abandonara quando ela não quis se mudar para São Paulo com ele; seu ex-melhor amigo Mateus, agora casado com a mesma Letícia; e, principalmente, o seu pai, com quem o guitarrista havia perdido totalmente o contato – a família nunca se recuperara totalmente da perda de Cibele, irmã de João Pedro, quando ambos ainda eram crianças. Escrito em primeira pessoa, o livro é uma espécie de catarse para João Pedro – que, sintomaticamente, faz aniversário de trinta anos na ocasião. Voltando a ter contato com pessoas fundamentais do seu passado, o guitarrista é obrigado a enfrentar o fato de que sempre preferira escapar dos problemas a enfrentá-los: por isso a fuga nas drogas e no álcool, os quais [antes da parada definitiva, aos 27 anos] quase tinham acabado com sua vida. Passando por avanços e retrocessos, coragens e covardias, os diferentes estados de espírito de João Pedro são apresentados para o leitor. Mas, apesar de tanta tensão e insegurança, o livro termina esperançoso. Cassino Hotel é uma obra intensa, profundamente emocional e bem escrita- você a lê praticamente de um fôlego. Alguns trechos nos quais Takeda fala com o leitor [por exemplo, quando ele diz lá pelas tantas: “Você é capaz de ler? Você é capaz de decifrar? Você é capaz de me aceitar? Sem preconceitos, por favor”] parecem perfeitamente dispensáveis. E parte do Apêndice 2, onde ele escreve que o romance “não seria possível” sem a ajuda de vários grupos de música pop, está muito mais para texto de de blog do que para texto impresso – parto do óbvio pressuposto que o livro seria, sim, possível sem a ajuda das bandas citadas. Entretanto, isso em nada atrapalha o verdadeiro prazer que temos ao ler Cassino Hotel. (Texto publicado anteriormente no Mondo Bacana; fonte da foto: Buenos Porteños: André Takeda)  
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“A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman
Cinema
“A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman
28 de março de 2021 0
Dias atrás eu pensei em fazer um texto aqui chamado “os cinco melhores filmes de Ingmar Bergman”, e achei que seria uma lista fácil, sem muitas dúvidas. A lista teria “Persona”, “Gritos e Sussurros”, “O Sétimo Selo”, “Sonata de Outono” e “Morangos Silvestres”. Dos cinco, o único que fazia muito tempo que eu não revia era o último, então eu precisaria assisti-lo de novo antes de escrever o texto. Para tirar alguma dúvida que eu tivesse ainda, resolvi assistir a mais alguns filmes do grande diretor sueco, nascido em 1918 e falecido em 2007, para garantir que minha escolha dos cinco filmes fosse a mais fiel possível com o meu gosto pessoal. Tudo bobagem, claro, mas justificável por meu amor por listas e por Bergman. Enfim, o primeiro que eu revi recentemente pensando nessa lista de “cinco melhores de Bergman” foi “Noites de Circo”, de 1953, que me pareceu um pouco pior do que eu me lembrava – foi o primeiro filme dele a que eu assisti, ainda na Cinemateca do Museu Guido Viaro, o ponto inicial de uma admiração que nunca esmoreceu. Pouco antes disso, revi a “Trilogia do Silêncio”, conforme comentei aqui, que não tem nenhum filme entre os cinco melhores dele – na minha opinião, claro. Depois veio a “A Fonte da Donzela” (Jungfrukällan), de 1960, a que só tinha assistido uma vez, e que não tinha me agradado: o filme, que conta uma história trágica que se passa na Idade Média sueca, me pareceu tão violento que acabou desprovido de sentido. Na revisita ao filme, a surpresa: um filme brutal, sim, mas forte, poderoso, e com um significado religioso profundo – isso sem contar na interpretação extraordinária de Max von Sydow. Nem vou comentar nada porque não quero dar spoiler. Mas garanto: para mim, “A Fonte da Donzela”, que ganhou merecidamente o Oscar de Filme Estrangeiro, já desbancou o grande “Morangos Silvestres”, de 1957, que também acabei revendo recentemente. (fonte da foto: Pinterest)
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“Judas”, de Amós Oz, e “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
Literatura
“Judas”, de Amós Oz, e “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez
14 de março de 2021 0
Shmuel Ash parece um urso de história em quadrinhos: é gordo, tem as barbas grandes e desgrenhadas, é gentil e meio atrapalhado – e não consegue prestar atenção no que os outros dizem. Ele vive na parte judia de Jerusalém no ano de 1959 – o estado de Israel tinha sido fundado pouco mais de uma década antes – e está passando por graves problemas: seus pais entram em falência e não vão mais conseguir pagar seus estudos e, como se não bastasse, sua noiva deixa dele e o troca por um hidrólogo “especialista em captação de águas pluviais”. Sem saber o que fazer da vida, consegue um trabalho em que tudo o que tem que fazer é companhia, por seis horas por dia, a Gershom Wald, um senhor muito culto que adora conversar. Além dele, na casa também mora Atalia, uma mulher de meia idade por quem Shmuel acaba se apaixonando. Ash é o personagem principal de “Judas”, do escritor israelense Amós Oz (eu li em espanhol, publicado pela Siruela, com 303 páginas e traduzido por Raquel García Lozano – a versão em português é da Companhia das Letras), publicado originalmente em 2014, quatro anos antes da morte do autor, em 2018. A tese na universidade que Ash queria defender versaria sobre Jesus na visão dos judeus. Segundo ele, Judas não foi um traidor, mas “o primeiro cristão”, um apaixonado por Cristo – opinião, aliás, do apócrifo “O Evangelho de Judas”, atribuído a gnósticos do século 2 – uma heresia para a Igreja, como se pode imaginar. Se o romance como um todo aborda vários assuntos interessantes – os problemas dos judeus contra os árabes em Israel, a visão dos judeus sobre Jesus, a temática da traição – a falta de empatia acaba prejudicando em muito a leitura de “Judas”: não consegui simpatizar nem um pouco com os dois personagens principais do romance. Shmuel Ash é terrivelmente autocentrado, parecendo quase incapaz de ter um sentimento de simpatia. Atalia, a mulher por quem ele se apaixona, é dos personagens mais frios com quem já tive contato. E assim é com tudo. “Judas” é um livro desesperançado e triste. Até a tese de um Judas apaixonado por Jesus é – desculpem – meio boba. Muito diferente é “O Outono do Patriarca”, de Gabriel García Márquez (Record, tradução de Remy Gorga, Filho, 260 páginas), publicado originalmente em 1975. Contando a história de um ditador latino-americano cruel e sanguinário, o Prêmio Nobel de 1982 mostra um personagem tão complexo e interessante que é impossível não simpatizar com ele. Livro delirante, de leitura difícil, com frases longuíssimas e sem parágrafos, apenas com algumas divisões sem títulos, “O Outono do Patriarca” é tão espetacular que não sei direito como terminar este texto. Vou então citar o meu necrológio sobre Gabriel García Márquez, no qual escrevi que o colombiano “é um daqueles gigantes da literatura que nascem de vez em quando em nosso planeta”.
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