Neurosis revisitado
Música
Neurosis revisitado
8 de novembro de 2025 0
Fazia tempo que não ouvia Neurosis. Gosto de parar de ouvir as coisas que eu curto para voltar a ter, ops, o “frescor” das primeiras vezes. Só o que eu posso dizer é que não devem existir muitas bandas por aí que fizeram uma sequência com a qualidade de Souls at Zero (1992), Enemy of the Sun (1993), Through Silver in Blood (1996), Times of Grace (1999), A Sun that Never Sets (2001) e The Eye of Every Storm (2004). As notícias sobre o estado atual da banda não são nada animadoras (para “a maior e mais complexa manifestação artística sob a face da terra”), mas, e aqui eu vou chover no molhado, sua música é eterna.
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A Cidade dos Anjos que Caem – O olhar de John Berendt revela a Veneza decadente, charmosa e feita de atuações.
História, Literatura
A Cidade dos Anjos que Caem – O olhar de John Berendt revela a Veneza decadente, charmosa e feita de atuações.
1 de novembro de 2025 0
Veneza é uma cidade em que a maioria dos habitantes se conhece, já que não circulam carros e todos andam a pé na maior parte do tempo. Isso, somado à enorme quantidade de pontes (muitas delas com escadas), faz com que idosos ou pessoas com problemas de locomoção tenham dificuldade de viver por lá. A ausência de automóveis também faz com que a cidade italiana seja bem mais silenciosa do que outras de seu porte. Veneza tem uma grande quantidade de ruelas, o que faz com que até seus moradores às vezes se percam no meio do verdadeiro labirinto formado por elas. Com seus canais, pontes, história e charme, a cidade atraiu para si muitos escritores de primeira linha, como Ezra Pound, Henry James e Robert Browning, que lá moraram durante longos períodos de suas vidas. Os venezianos pensam em si próprios primeiro como venezianos e depois como italianos. Segundo um de seus nobres mais importantes, o conde Girolamo Marcello, “em Veneza estão todos encenando, todos representam papéis, e os papéis mudam. O segredo para se entender os venezianos é o ritmo – o ritmo da lagoa, das marés, das ondas… O ritmo de Veneza é como a respiração. Maré alta, pressão alta: tenso. Maré baixa, pressão baixa: descontraído. Os venezianos não estão sintonizados ao ritmo da roda. Isso é para outros locais, locais com veículos motorizados. Nosso ritmo é o do Adriático. O ritmo do mar”. Ainda segundo o conde, para os habitantes da cidade, as pontes não são vistas como obstáculos, e sim como transições: “passamos por elas bem devagar. Fazem parte do ritmo. São junções entre dois atos no teatro, como mudanças de cenário, ou como a evolução do primeiro para o segundo ato em uma peça teatral”. Para Marcello, “os venezianos jamais falam a verdade. O verdadeiro sentido das nossas palavras é, precisamente, o oposto do que dizem”. Estas e muitas outras informações sobre a lendária cidade italiana são mostradas em “Cidade dos Anjos Caindo” (Objetiva, 380 páginas), de John Berendt, escritor americano na linha do new journalism, a mesma de, por exemplo, Truman Capote e Gay Talese. Como o próprio autor explica, “é um livro de não ficção, mas escrito do ponto de vista de um romancista, usando técnicas literárias que um romancista utilizaria. Você não diz, como um jornalista diria, simplesmente: ‘O homem disse isso e isso’. Você descreve o tipo de olhar, a reação das pessoas no quarto. Então, lê-se o livro como se fosse um romance, mas é tudo verdade” – realmente, se não fosse a advertência inicial de que o livro é de não ficção, seria muito difícil para o leitor desavisado saber que a obra é uma espécie de reportagem. A obra anterior de Berendt, Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, foi um best-seller de enorme sucesso que tratava de uma cidade no sul dos Estados Unidos, Savannah, de maneira similar àquela que foi utilizada para descrever Veneza em Cidade dos Anjos Caindo, com uma diferença fundamental: neste, ao contrário do que foi feito na obra anterior, todos os nomes utilizados são reais. Nas palavras de Berendt, “quando escrevi Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, pensei que estaria fazendo um favor a algumas pessoas ao mudar os nomes delas para preservar sua privacidade. Mas quando o livro foi lançado, muitos dos personagens que haviam recebido pseudônimos me disseram que desejavam que eu tivesse usado seus verdadeiros nomes. Então, desta vez, decidi: nada de pseudônimos”. Em Veneza, o afluxo turístico é tão intenso que em certas épocas do ano os turistas estão na cidade em número muito maior do que os habitantes locais – mas o interesse principal de Berendt está nas pessoas que moram lá. Para escrever “Cidade dos Anjos Caindo” (cujo nome é baseado em uma obra de restauração em uma igreja veneziana em que anjos do teto começaram a cair, o que fez com que os restauradores colocassem uma placa no local com os dizeres: “Cuidado, anjos caindo!”), o autor viveu em Veneza durante períodos de dois a três meses ao longo de nove anos, entrevistando habitantes e pesquisando locais e fatos. São muitos os personagens e fatos reais que aparecem na obra. Um rico poeta e radialista homossexual deixa todos os seus bens para uma família de feirantes, cujos membros muito provavelmente não eram muito íntimos dele. Dois dirigentes de uma fundação americana de ajuda à cidade veem-se numa acirrada disputa de egos. Um casal faz amizade com a amante do falecido poeta Ezra Pound, possivelmente para roubar-lhe documentos de grande valor. O mais importante vidreiro da cidade, um homem sério e calado, vê um de seus filhos traí-lo nos negócios. Em um jantar, todos ficam fascinados com a conversa sobre venenos para ratos de um grande fabricante do produto, que nunca conseguiu vendê-lo para a prefeitura local. Um grande palácio tem uma sala principal tão ricamente decorada que acaba dificultando a sua manutenção, o que faz os seus donos (um dos quais é um homem totalmente maníaco por viagens espaciais) quererem vendê-lo. Mas a principal história do livro trata do incêndio de um dos principais símbolos da cidade, o Teatro Fenice: o autor descreve o que ocorreu no dia da tragédia, as investigações para apurar os responsáveis e a reconstrução do local com grande precisão de detalhes – sem esconder as inúmeras suspeitas de corrupção que foram aparecendo no processo. Extremamente bem escrito, “Cidade dos Anjos Caindo” é um livro de leitura agradável e fluida, que mostra uma Veneza meio decadente, com muitos habitantes cheios de manias – mas inegavelmente charmosa, claro. (O texto acima foi publicado na Revista Dominical do Jornal O Estado do Paraná, em 08 de outubro de 2006. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. As imagens acima foram obtidas no Gemini, do Google.)
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O Maior Atletiba da História
Esporte
O Maior Atletiba da História
26 de outubro de 2025 0
Eu tive uma coluna no site Coxanautas por alguns anos, em meados dos anos 2000. Fuçando meus alfarrábios, achei o texto abaixo, escrito em torno de 2005. Acho que o Atletiba de 1968 continua sendo o maior de todos os tempos, mas não tenho tanta certeza assim. Mas que ninguém nega que ele foi histórico, acho que ninguém nega. _______________________________________________ Qual foi o maior Atletiba de todos os tempos? Foi aquele realizado na noite fria de 28 de agosto de 1968 (o ano, coincidentemente, em que nasci)? Provavelmente. Desde criança, escuto meu pai contar a emoção de ter assistido àquele jogo. Ele sempre me fala do frio e da entrada do jogador reserva que marcou o gol de cabeça. Aquela partida foi o início da maior série de vitórias em Campeonatos Paranaenses na história do Glorioso: 1968, 1969, 1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976, 1978, 1979. Anteontem, Carneiro Neto se referiu àquele jogo na Gazeta do Povo: “Naquele ano, disputou-se o melhor Campeonato Paranaense de todos os tempos, em pontos corridos e com todos os times muito bem-preparados. O gol do título coxa-branca, marcado por Paulo Vecchio em fria noite na Vila Capanema, entrou para a história pela emoção da histórica conquista no último minuto do clássico.” Se Carneiro Neto não chega a assegurar que aquele foi o maior Atletiba de todos, poucas dúvidas há – até hoje – de que aquele foi o melhor Campeonato Paranaense da História. O campeonato começou turbulento: o Atlético, que tinha ficado em último lugar no ano anterior, simplesmente se recusava a ser rebaixado – a lei do acesso e descenso começara a vigorar pouco tempo antes. Começou uma luta de bastidores entre o então presidente atleticano, Jofre Cabral, e o presidente da Federação Paranaense de Futebol, José Milani. Como forma de fazer pressão, o presidente rubro-negro contratou grandes jogadores: Bellini (ex-campeão mundial de futebol), Dorval (ex-companheiro do Santos de Pelé), o goleiro Muca e os grandes jogadores Zé Roberto e Nilson Borges. Tanto se fez que se conseguiu que tanto Atlético quanto Paranavaí – primeiro colocado da divisão de acesso, na época chamada Primeira Divisão (enquanto os principais clubes formavam a Divisão Especial) – tivessem vaga garantida no Campeonato Paranaense de 1968. (Além disso, mais um outro clube foi convidado: o vencedor de um torneio entre os participantes da divisão de acesso.) Toda essa movimentação fez com que o campeonato pegasse fogo. Segundo as palavras do Professor Francisco Genaro Cardoso, em seu “História do Futebol Paranaense” (Federação Paranaense de Futebol. Curitiba, 1978): “Nunca se viu tantas casas em Curitiba ostentando bandeiras e faixas de clubes de futebol, com predominância de atleticanas e coritibanas. (…) Nunca se viu tanto ardor, tanto fanatismo por parte dos torcedores de ambas as agremiações. Nos cinco jogos em que os rivais fizeram durante o ano, as rendas foram recordes. A nota triste do campeonato foi a morte do presidente atleticano, Jofre Cabral, em 2 de junho daquele mesmo ano. “Voltando ao futebol: na última rodada do campeonato, o Coritiba precisava de um ponto contra o Ferroviário para levar a final para uma série de três partidas com o Atlético – e este ponto só foi conseguido nos momentos finais de um emocionante jogo num Alto da Glória superlotado: 2 a 2.” Conforme contam Vinícius Coelho e Carneiro Neto em seu “O Campeoníssimo” (Coração Brasil Editora. Curitiba, 2003): “Como havia perdido em casa para o Furacão, 15 dias antes, em disputa pela vaga do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (…), o Coritiba sabia das dificuldades que teria na decisão do campeonato. No primeiro jogo, 2 a 1 para o Coritiba no então estádio Belfort Duarte – atual Couto Pereira. Ao Coritiba bastava o empate no jogo seguinte, no Estádio Durival de Britto, na quarta-feira, evitando assim o terceiro jogo. Acho que será mais interessante para o leitor se forem simplesmente reproduzidas as palavras de Francisco Genaro Cardoso sobre aquele que, possivelmente, tenha sido o maior atletiba da História: “Constituiu-se no mais espetacular ‘Cotejo da Rivalidade’ dos últimos 20 anos. Durante 90 minutos, o Atlético vencia por 1 a 0. Estava-se nos descontos. O ‘povão’ rubro-negro já começava a comemorar a vitória e renasciam as esperanças de que em nova peleja, seria campeão. Que barulho sua torcida fazia. Já decorriam 30 segundos além do tempo regulamentar. Falta na intermediária rubro-negra. Pelo lado esquerdo. Cobrança pelo lateral esquerdo do Coritiba: Nilo. Nove jogadores coritibanos na área rubro-negra contra onze. Arnaldo César Coelho, carioca, o árbitro. Mais de 25.000 espectadores em suspense. Jogo noturno. Silêncio absoluto no Estádio. Era a derradeira oportunidade do Coritiba empatar. Cigarros não fumados. Mascados. Dentes cerrando dentes. Dentes comendo unhas. Torcidas estáticas. Um minuto além do tempo. No gramado, um empurra-empurra entre jogadores dentro da área penal, com que os atleticanos esperavam retardar a cobrança e ouvir o apito final. Arnaldo César Coelho, com muito custo, colocava a casa em ordem. Adverte, ameaça. Procura ângulo melhor para controlar a área. Vem o apito para a cobrança de falta. Nilo levanta a pelota para a frente do arco. Gil, o goleiro, salta. Saltam vários jogadores. Um bouquet humano, branco, verde, vermelho e preto. O mais feliz foi o comprido meia-cancha coritibano, Paulo Vecchio. Era o gol de empate e o título de 1968.” (Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini. Se você estiver interessado em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Valdez vem aí
Literatura
Valdez vem aí
18 de outubro de 2025 0
Valdez Vem Aí (Editora Rocco, 218 páginas, ano de publicação original: 1969), do grande escritor de westerns Elmore Leonard, começa com um homem encurralado em sua própria casa por um grupo de pessoas, incluindo pistoleiros a mando do Sr. Tanner. O chefe dos pistoleiros suspeita que o homem acuado seja um foragido do exército que assassinou um de seus homens. Roberto Valdez, que representa a lei na aldeia onde estes acontecimentos se desenrolam, surge sem ser chamado, mas é completamente ignorado por todos. A situação se encontra em um impasse: o homem não sai da casa e, por estar armado, os pistoleiros e Tanner não tentam invadir o local. Em meio a esse ambiente tenso, a mulher do encurralado — uma indígena grávida — entra na residência sem dirigir a palavra aos presentes. Algum tempo depois, Valdez consegue penetrar no local e convencer o homem a sair para se explicar. Assim que deixam a casa, os pistoleiros do Sr. Tanner — que desconheciam a negociação — começam a disparar. Sentindo-se traído, o homem acuado tenta atirar em Valdez, que, em legítima defesa, reage e o mata. Chamado para reconhecer o morto, o Sr. Tanner declara, com a maior tranquilidade, que se enganara: aquele não era o foragido que procurava. Uma pessoa havia sido assassinada por engano, e o chefe dos pistoleiros permanecia completamente indiferente. Mas Valdez não estava. Ele vai conversar com a indígena e lhe promete quinhentos dólares para que ela possa sustentar o filho após o nascimento. Ela se mostra tão inexpressiva que mal consegue responder, mas Valdez leva a promessa a sério. À noite, ele procura alguns dos presentes na caçada ao negro para tentar fazer uma coleta e dar o dinheiro à viúva. Todos riem dele e o aconselham a procurar o Sr. Tanner, que vivia com seus asseclas em um local distante da aldeia. Decidido, o protagonista se dirige à propriedade, onde é pessimamente recebido. Tanner recusa-se a pagar os quinhentos dólares, e seus pistoleiros, para assustar Valdez, disparam vários tiros próximos ao seu corpo, mas sem feri-lo. O homem da lei não chora nem implora. Apenas observa, quase impassível, aqueles que o ameaçam. Mesmo sabendo que o pior poderia acontecer, Valdez retorna no dia seguinte. Desta vez, a recepção é pior. Ele é espancado, e duas varas em forma de cruz são presas em suas costas, de modo que é obrigado a sair da propriedade de Tanner andando com grande dificuldade e sem poder olhar para cima. É neste sofrimento extremo que ele é forçado a deixar o local. Mas Roberto Valdez não desiste e volta lá. Só que não vou contar mais nada para não estragar a surpresa. O que posso dizer é que a aventura está só começando. Em Valdez Vem Aí, não há a preocupação de situar a história no tempo. O leitor só sabe que está no Velho Oeste por causa de alguns detalhes, como a ausência de veículos motorizados — o transporte é feito por tração animal. Os personagens principais são muito bem construídos, e suas personalidades são reveladas mais por atos do que por descrições minuciosas: Elmore Leonard não subestima a inteligência do leitor. O livro mostra um Velho Oeste sem lei, onde o homem que a representa só tem poder na medida em que sabe atirar bem. Neste universo brutal, Valdez Vem Aí narra uma profunda história de moralidade e justiça. O protagonista tem consciência do que é certo e luta por isso — mas seu caminho é tão sangrento e a sua caracterização é tão bem-feita, que em nenhum momento o livro resvala na pieguice. Em resumo, esta é uma espetacular obra de aventuras, que prende completamente a atenção do leitor da primeira à última página, e uma obra-prima da literatura de westerns. (Texto publicado na segunda metade dos anos 2000 no Mondo Bacana. Imagem obtida com o Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Pureza, palavra horrível
Obra Literária
Pureza, palavra horrível
11 de outubro de 2025 0
Francisca era uma garota de programa que trabalhava num apartamento ao lado do Passeio Público. Passava o horário comercial ali, e a casa tinha, normalmente, uma alta rotatividade de clientes. Alguns eram muito bondosos, davam gorjetas e chegavam a pedir por programas de cinco horas. Outros eram asquerosos, tratavam-na mal, eram grosseiros — pelo menos estes, normalmente, chegavam rapidamente ao orgasmo e o programa era curto. À noite, ela voltava para casa, um sobrado bem ajeitado no Umbará, onde morava com o marido. Pegava dois ônibus para ir para casa, o primeiro na Praça Rui Barbosa e o segundo no Terminal do Pinheirinho. Quando chegava, o marido lhe perguntava como tinha sido o dia. Ela dizia que trabalhava como cuidadora de uma senhora senil perto das Mercês, e ele aceitava sem problemas. O marido, que se chamava Paulo, trabalhava com transporte de bebidas e era um homem sério e compenetrado. Nos fins de semana, ele, a mulher e os três filhos assistiam aos cultos na Igreja Universal do Reino de Deus, a três quadras da casa deles. Como ela trabalhava de segunda a sexta, podia ir aos cultos de sábado e domingo sem maiores problemas. Às vezes a família ia visitar o pai dela, que morava em Matinhos, e era só assim que perdiam as cerimônias religiosas. Em algumas dessas ocasiões, Paulo assistia a um culto da mesma denominação lá no litoral, mas o mais comum era avisar ao seu pastor na igreja do Umbará que “naquele fim de semana eles iriam fazer a obrigação de dar uma atenção para o sogro, um velhinho muito bom, mas, infelizmente, distante da igreja”. O pastor então orava junto com Paulo pela conversão de Raul, o pai de Francisca. Não se pode dizer que essa vida dupla não pesava na consciência da pobre Francisca, que realmente tinha trabalhado durante algum tempo cuidando de idosas. Quase meia década antes dos fatos narrados aqui, a última mulher sob seus cuidados morrera de uma hora para outra e ela ficara desempregada. Seu marido também estava sem emprego, e o desespero do casal era imaginável: eles tinham três filhos, sendo que nenhum dos três trabalhava e o mais velho tinha apenas dezoito anos. Nessa situação desoladora — o pouco dinheiro que tinham economizado já estava no fim —, a irmã de Francisca, uma católica não praticante que não se importava com os chamados “moral e bons costumes”, sugeriu que ela começasse a vender seu corpo para ganhar dinheiro. Se Francisca quisesse, Raquel — a irmã — poderia lhe passar o contato de uma amiga dona de um apartamento que estava precisando de meninas para esse tipo de trabalho. Depois de muita hesitação, Francisca acabou conversando com a moça, e as duas combinaram que na semana seguinte ela começaria a trabalhar ali. Francisca acabou gostando muito mais de trabalhar com sexo do que tinha imaginado. Tinha muito mais desejo sexual que o marido — frequentemente ia dormir insatisfeita porque ele não queria nada com ela — e os clientes, em sua maioria, a tratavam bem. Percebeu que não precisava se esforçar muito para ganhar muito mais dinheiro que antes: na verdade, em grande parte do tempo, o trabalho lhe dava prazer. Era assídua com os horários — a dona exigia que ela chegasse às sete da manhã e ela não poderia sair antes das cinco da tarde —, e não faltava nem quando estava muito resfriada. Para a família, como se pode imaginar, ela tinha dito que arranjara outro trabalho como cuidadora de idosos. Sua consciência pesou mais no início da vida dupla: ela se sentia mal nos cultos, dada a incoerência entre o que era pregado e seu trabalho. Faltou a algumas cerimônias religiosas, mas teve que voltar a participar delas quando o marido disse que não era bom que ela continuasse se ausentando da casa de Deus. Então, recomeçou a frequentar as cerimônias. Quanto a seu dia a dia em casa, percebeu que nada se modificara e que, de certa maneira, seu trabalho no apartamento era apenas mais um trabalho: continuava sendo a boa mãe e esposa de sempre, carinhosa e atenta às necessidades da família. *** Além dos problemas de consciência, que às vezes eram maiores, às vezes menores, Francisca se incomodava com o que ela chamava de “sombra”. Sempre que estava sozinha à noite andando na rua (que não precisava estar necessariamente deserta para que isso acontecesse), ela via um homem alto, com uma capa comprida e chapéu pretos. Às vezes ele estava na sua frente, normalmente a uns vinte metros de distância, mas às vezes ela sentia que ele estava atrás dela — e, quando se virava, lá estava ele. O pior nem era isso: o mais comum era Francisca olhar para ele, se distrair e, quando olhava de novo, ele sumia — normalmente para aparecer em outro lugar da rua, frequentemente distante do anterior, alguns minutos depois. Ela sentia uma sensação estranha, uma espécie de calafrio, quando o via. No início, ela sentia bastante medo do homem misterioso, de quem nunca conseguiu ver direito o rosto — ele sempre aparecia à noite, e o chapéu aumentava a sua sombra, afinal de contas. Só sabia que ele usava uma barba, muito escura, aliás. Com o tempo, o medo diminuiu, mas não a sensação de desconforto que ele lhe trazia. *** Grandes mudanças na vida de Francisca tiveram início quando Paulo passou a chegar cada vez mais tarde em casa, devido a mudanças em sua escala de trabalho. Logo ele se estabeleceu num horário fixo na transportadora de bebidas: do meio-dia às oito da noite, de terça a sábado. Por isso, ele deixou de ir aos cultos do sábado — mas Francisca e os filhos não. Continuaram os mesmos bons crentes de sempre. Para ela, a principal diferença era a falta que o marido lhe fazia entre a hora em que ela chegava em casa — normalmente perto das seis da tarde — e a hora de Paulo, entre nove e dez da
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Um Nobel para Chamar de Meu
Literatura
Um Nobel para Chamar de Meu
9 de outubro de 2025 0
O Prêmio Nobel de Literatura de 2025, concedido a László Krasznahorkai, foi anunciado há pouco. Como de costume, assisti ao anúncio ao vivo pelo site do Prêmio Nobel. O processo é bem simples: há uma porta fechada com algumas pessoas sentadas em frente a ela. Pouco depois, uma pessoa bem-vestida sai e, com frases rápidas em sueco e inglês, anuncia o nome do vencedor, além de dar uma breve justificativa para a escolha. Comecei a acompanhar o Nobel de Literatura com mais atenção em 2008, quando J.M.G. Le Clézio foi o vencedor. Eu tinha comprado um livro dele, Mondo et autres histoires, quase por acaso e tinha ficado embasbacado. Fiquei tão feliz quando vi a vitória de Le Clézio na página principal do UOL que liguei para a Valéria para contar. O Prêmio Nobel de Literatura tem me ajudado a descobrir excelentes autores ao longo dos anos, como Han Kang (2024), Patrick Modiano (2014), Svetlana Alexievich (2015), Kazuo Ishiguro (2017), Alice Munro (2013), Mo Yan (2012), J.M. Coetzee (2003), Naguib Mahfouz (1988) e Olga Tokarczuk (2018). Gosto de outros escritores que já conhecia antes de receberem o Nobel, como Gabriel García Márquez (1982), Vidiadhar Naipaul (2001) e Mario Vargas Llosa (2010). De outros, cheguei a ler algo, mas não gostei muito, como Imre Kertész (2002) e Peter Handke (2019). De Jon Fosse (2023), já comprei o livro “Trilogia”, mas ainda não comecei a ler. Não tenho muita facilidade com poesia, então acabei lendo pouquíssima coisa de Louise Glück (2020), Tomas Tranströmer (2011) e Wisława Szymborska (1996). O caso de Herta Müller (2009) é um pouco diferente: li alguns de seus livros, gostei de uns e menos de outros, mas suas histórias tendem a grudar na memória, sejam elas boas ou ruins. Alguns autores simplesmente não me atraem, e não pretendo lê-los, como é o caso de Abdulrazak Gurnah (2021) e Annie Ernaux (2022). Porém, isso não aconteceu com o laureado de hoje, László Krasznahorkai, que recebeu o prêmio, segundo a Academia Sueca, “pela sua obra convincente e visionária que, em meio de um terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. “Distopia” e “terror” são termos frequentemente citados quando se fala em sua obra, dois assuntos que me interessam bastante: meu novo romance, “3040”, é uma espécie de distopia, e meu texto mais recente aqui foi sobre filmes de terror. Em breve, comprarei “Sátántangó”, romance “apocalíptico” publicado originalmente em 1985 e já lançado no Brasil pela Companhia das Letras. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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Por que me Assusto? – Uma análise pessoal do que torna o horror tão perturbador.
Cinema
Por que me Assusto? – Uma análise pessoal do que torna o horror tão perturbador.
5 de outubro de 2025 0
Tenho assistido a muitos filmes de terror. Assim como minha outra paixão cinematográfica, os filmes noir americanos e franceses, em que eu simplesmente vou assistindo a todos os filmes de DVDs da Versátil sem me preocupar em saber o enredo ou a opinião da crítica, com os filmes de terror muitas vezes começo a assistir a algum título na Netflix ou no Amazon Prime sem me preocupar muito em saber do que se trata. Outra mania minha: só assisto a filmes de terror mais ou menos recentes. Manias não se explicam. O filme americano Corra! (dirigido por Jordan Peele, 2017, EUA) foi escolhido como o quinto melhor do século XXI, em qualquer gênero, pelo jornal New York Times. Não achei o filme ruim, mas penso que grande parte da sua importância se deve à profunda crítica social que ele traz, e não ao terror em si. De todo modo, o tipo de terror que Corra! representa é relativamente frequente em muitos filmes recentes: a história de alguém que chega a um lugar onde um grupo mais ou menos esquisito acaba se revelando muito mais estranho do que parecia à primeira vista. Filmes desse tipo que assisti recentemente são O Monastério (dirigido por Bartosz M. Kowalski, 2022, Polônia), A Freira (dirigido por Corin Hardy, 2018, EUA), Imaculada (dirigido por Michael Mohan, 2024, EUA e Itália), Piscina Infinita (dirigido por Brandon Cronenberg, 2023, Canadá, Croácia e Hungria), Suspiria (dirigido por Luca Guadagnino, 2018, EUA e Itália) e A Cura (dirigido por Gore Verbinski, 2017, EUA, Alemanha e Luxemburgo). O que mais gostei foi Midsommar (dirigido por Ari Aster, 2019, EUA e Suécia), em que o terror surge num lugar lindo, ensolarado (!) e bucólico no interior da Suécia. Casos interessantes, para o público ocidental, são A Morte Sussurra (dirigido por Taweewat Wantha, 2023, Tailândia), um filme tailandês em que um exorcismo acontece sob o ponto de vista budista, e o excelente Umma (dirigido por Iris K. Shim, 2022, EUA), um filme americano em que uma mãe coreana atormenta a vida da filha, que nasceu na Coreia, mas vive nos Estados Unidos. Duas sequências de filmes que ainda não assisti inteiras estão entre as coisas mais assustadoras que já vi: V/H/S (dirigido por vários, 2012, EUA), que só assisti ao primeiro e que mostra uma série de pequenas histórias filmadas em VHS, e [REC] (dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, 2007, Espanha), que já assisti aos dois primeiros, uma série espanhola sobre uma possessão monstruosa num prédio em Barcelona. Esta última também tem uma versão americana, e é bom saber que ainda tenho bastante coisa — boa, espero — para assistir nessas séries. Muito assustador também é Canibais (dirigido por J.K. Bown, 2017, Estados Unidos), um filme em que seres humanos são criados como gado para o abate, sobre o qual já comentei aqui. Embora alguns filmes citados acima realmente me perturbem, é mais comum que os filmes de terror não me assustem muito, mas me divirtam bastante. Provavelmente o terror assusta mais o espectador quando o atinge em algum canto do seu inconsciente. É por isso que o filme A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2021, Coreia do Sul) foi um dos mais assustadores que já assisti: uma história de possessão com estudantes em uma universidade, com corredores escuros e estranhos, que me deixou realmente inquieto. Sim, grande parte dos meus sonhos e pesadelos se passa em corredores escuros e estranhos. Por sorte, a continuação de A Maldição da Ponte (dirigido por Ha Won-joon, 2023, Taiwan) é tão confusa que não chegou a me dar medo. (Imagem que acompanha o texto obtida no Google Gemini. Se você tiver interesse em receber meus textos semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.)
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