Carta a uma suicida
Exercícios Literários
Carta a uma suicida
5 de setembro de 2019 0
Maria, Pare de bobagem, vai. Eu sabia que você estava com problemas, nunca quis me meter, porque sempre achei que você era bem crescidinha para me pedir ajuda se precisasse. Sou psicóloga! Quantas vezes eu não te disse que depressão era uma doença séria, que não tinha nada a ver com frescura, nem com nada parecido. Aliás, intuindo sobre seu estado, eu colocava sempre esse assunto nas nossas conversas, eu achava que você iria se mancar e se abrir para mim – mas nada, né? Agora que eu sei que você está a salvo, e que aquela quantidade de remédios que você tomou acabou não dando mais do que uma diarreia daquelas (graças a Deus!), está na hora de você tomar uma providência na sua vida e procurar ajuda. É claro que eu queria que você viesse desabafar sobre seu estado comigo, que SEI que sou sua melhor amiga. Mesmo assim, sei lá, você não desabafou comigo. Por que seria? Será que é porque você sempre foi a intelectual de nós duas, a mais rica, a mais bonita – e, como se ainda fosse possível, a mais humilde? Cara, isso não faz sentido. Sempre te amei como a irmã que eu não tive, e sei que sempre foi recíproco. O que é isso? Vergonha? Vergonha DE MIM? Ora, Laura, tome tenência, por favor, como dizia meu falecido pai. Procure ajuda, me procure. Eu te amo muito mais do que você pode imaginar, não consigo nem imaginar a tragédia que seria para mim se aqueles remédios tivessem feito efeito. Por favor, Marta (Texto escrito a partir do seguinte exercício literário proposto pelo Robertson Frizero: Em prol do setembro amarelo. 💛 Escreva, em até 500 palavras uma carta pela vida: imagine que essa carta foi escrita por uma personagem [masculina ou feminina] para um amigo ou amiga que pode estar planejando tirar a própria vida, tentando dissipar tal ideia. A carta não deve trazer as vozes dos autores, nem ser direcionada a alguém a eles relacionado.)
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Duas minisséries
Séries
Duas minisséries
29 de agosto de 2019 0
Minisséries são como filmes longos – sabemos que a história termina ali, por mais que alguns filmes (e minisséries) tenham continuação. Uma das melhores séries a que já assisti, “Dark objects”, sobre a qual já comentei aqui, na verdade é uma minissérie, formato dos ótimos “O bosque” e “The alienist”, objetos do presente texto. Produzido pela TNT e distribuído pela Netflix por aqui, “The Alienist” tem dez episódios de cerca de 50 minutos cada. A minissérie se passa em Nova Iorque no final do sec. XIX (a reconstituição de época é primorosa), e conta história do estranho alienista (nome antigo dado aos psiquiatras) Laszlo Kreizler, vivido por Daniel Brühl, envolvido na investigação de crimes perpetrados por um assassino serial. O enredo é bem estruturado e as atuações, muito boas, mas a história é contada com mão pesada, fazendo com que acompanhar a história seja um pouco cansativo. De todo modo, já está prevista uma continuação para a minissérie, chamada “The Angel of Darkness”. Gostei bem mais de “O bosque”, série francesa da Netflix com seis episódios de cerca de 50 minutos cada um. Numa cidade do interior francesa, duas adolescentes desaparecem – e a minissérie conta a história da procura por elas, que acaba desnudando segredos da cidadezinha. “O bosque” tem paisagens belíssimas, ótimas atuações e mantém a tensão em todos os episódios. Não precisa mais.
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“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury
Literatura
“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury
18 de agosto de 2019 0
Num futuro não especificado, foram descobertos materiais de construção, com os quais todas as construções passaram a ser construídas, que não pegavam fogo de jeito nenhum. Os bombeiros passaram a não trabalhar contra os incêndios – que não existiam mais -, mas para colocar fogo em um tipo de material extremamente perigoso, os livros. Este é o mote principal do clássico distópico “Fahrenheit 451” (Coleção Folha – Grandes Nomes da Literatura, 168 páginas), publicado em 1953 pelo americano Ray Bradbury, e que inspirou o clássico cinematográfico de mesmo nome dirigido em 1966 por François Truffaut. O livro conta a história de um bombeiro, Montag, que começa a ter consciência pesada por colocar fogo em todos os livros que as pessoas guardam, e as aventuras daí decorrentes. “Fahrenheit 451” (temperatura em graus Fahrenheit da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius) é um excelente romance, que merece o sucesso e status de clássico que obteve no decorrer dos anos. Mas o assustador é o motivo pelo qual a humanidade resolveu proibir os livros: tudo decorreu de um lento processo de imbecilização entre as pessoas, no qual as complexidades dos grandes clássicos passaram a não ter mais espaço em uma sociedade cada vez mais simplista, cada vez mais receptiva a histórias fáceis, cada vez mais preocupada com as minorias. Qualquer semelhança com o mundo de hoje, infelizmente, parece não ser mera coincidência.
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“Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley
Literatura
“Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley
8 de agosto de 2019 0
No ano 2540 o mundo será bastante diferente do que é hoje. As pessoas não dizem mais “Meu Deus”, mas “Nosso Ford”, em homenagem Henry Ford. A crença em Deus não existe mais. É altamente respeitável, para mulheres e homens, ter vários parceiros sexuais – quanto mais, melhor, aliás. Por outro lado, ter filhos ou fazer parte de uma família é algo decididamente obsceno, já que os seres humanos e, 2540 nascem por um processo industrial que une espermatozoides e óvulos. Este processo permite que pessoas nasçam, de maneira deliberada, com diferentes capacidades, fazendo parte de cinco diferentes castas – dos Alfa (os mais evoluídos entre todos) até os Ípsilon (inferiores aos demais). O objetivo do governo geral é a harmonia e a felicidade entre todas as pessoas, e para isso um alucinógeno chamado Soma é amplamente distribuído. Também visando este objetivo, a leitura de clássicos como Shakespeare, por ser perturbadora, é proibida. De todo modo, nem toda a população mundial vive conforme descrito no parágrafo anterior: alguns povos ainda vivem em ilhas, de maneira “primitiva”: casando, formando famílias, tendo filhos, acreditando em forças espirituais e em Deus. Este é o mundo descrito no clássico “Admirável Mundo Novo”, do inglês Aldous Huxley (Biblioteca Azul, 312 páginas), publicado originalmente em 1932. No romance, a tensão entre o mundo “oficial” e o “primitivo” ocorre quando os personagens Bernard Marx e Helmholtz Watson (ambos Alfas) resolvem visitar uma ilha “primitiva” e trazem de lá um “selvagem”, chamado John, leitor de Shakespeare. Os conflitos apresentados e os personagens são rasos, mas “Admirável Mundo Novo” é espetacular ao descrever um mundo totalitário, onde a utopia se mistura com a distopia.
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Literatura
“Carrie, a estranha”, de Stephen King
21 de julho de 2019 0
Sempre que alguém comenta “que os livros são sempre melhores do que os filmes baseados neles” eu lembro que “Laranja Mecânica”, o filme de Stanley Kubrick (1971), me pareceu muito melhor do que o livro correspondente de Anthony Burgess, publicado em 1962. Já com “Carrie, a estranha” (Objetiva, 200 páginas), a disputa filme x livro é bem acirrada. Assisti ao filme de 1976 (há outras duas versões, uma de 2002 e outra de 2013), de Brian De Palma, com Sissy Spacek no papel principal, há muitos anos já. Carrie é uma garota que tem poderes de telecinese (basicamente, mover objetos com o poder da mente) e sofre bullying na escola em que estuda. Tentando aliviar a barra da moça, um garoto, convencido pela namorada, convida Carrie para o baile de formatura – e chega de contar a história.  O livro – que li recentemente e que foi o primeiro publicado por Stephen King, em 1974 -, à maneira de H.P. Lovecraft, descreve com linguajar científico e detalhado a história da pobre garota e dos seus poderes mentais, o que acaba fazendo com que assistir ao filme – muito mais direto – seja muito mais assustador do que ler o livro. De todo modo, o sofrimento de Carrie, personagem baseada em duas meninas que o autor realmente conheceu, é mostrado em cores bem mais fortes no romance – o que faz com que o jogo termine praticamente empatado, no final das contas.
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“O verão de 54 (novelas)”
Literatura, Obra Literária
“O verão de 54 (novelas)”
16 de julho de 2019 0
“O verão de 54 (novelas)” , de Fabricio Muller (Editora Appris), é composto por quatro histórias bastante diferentes uma da outra. O Verão de 54 é uma história de amor proibido. Conversão trata de família e religião, Morrissey é um policial sobre um assassino serial com “uma missão” e Sorry é uma novela para adolescentes. O Verão de 54 é uma história em metalinguagem. Conversão utiliza um narrador onisciente, Morrissey é em formato de diálogo e Sorry é um diário. Como se vê, o leitor pode iniciar a leitura deste livro por qualquer uma das quatro novelas cujo tema lhe pareça mais interessante. Informações: Comprar na Amazon, impresso ou para Kindle: aqui Live de lançamento no YouTube, em de agosto de 2019 no Encontro Café do Escritor: aqui Entrevista na CBN: aqui Prefácio, por Robertson Frizero: aqui Anúncio do lançamento na semana literária do Sesc, em 23 de setembro de 2019: aqui Resenha da Regina Pimentel: aqui Foto do lançamento do livro no CIP, em 4 de agosto de 2019: aqui Trecho inicial da novela Morrissey: aqui Trecho inicial da novela Sorry: aqui
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“Ecce homo”, de Nietzsche
Filosofia
“Ecce homo”, de Nietzsche
14 de julho de 2019 0
“Por que eu sou tão sábio”. “Por que eu sou tão inteligente”. “Por que eu escrevo livros tão bons”. “Por que sou um destino”. Os títulos dos três primeiros e do último capítulos de “Ecce Homo”, de Friedrich Nietzsche (L&PM Pocket, 192 páginas, tradução e notas de Marcelo Backes) mostram que o filósofo alemão não estava numa fase exatamente marcada pela modéstia quando escreveu o livro. Como a obra foi escrita em 1887 e sua loucura – que duraria até sua morte, em 1900 – se iniciaria no ano seguinte, em 1888, frequentemente várias das afirmações de Nietzsche constantes em “Ecce Homo” – como os títulos dos capítulos, reproduzidos acima – são considerados fortes indícios do início de sua perda de sanidade mental. O livro é de cunho autobiográfico e filosófico ao mesmo tempo: enquanto nos capítulos cujos títulos são citados acima ele se concentra mais em sua própria genialidade, nos dez capítulos intermediários ele comenta suas obras anteriores, como “Assim falou Zaratustra” e “Além do bem e do mal”. Em “Ecce Homo” Nietzsche reforça os pontos mais conhecidos de sua filosofia: a crítica da moral cristã (“moral de ressentidos”), a tese do eterno retorno (segundo o qual cada um terá de viver a vida como agora e vivê-la ainda uma vez e inúmeras vezes, sempre na mesma ordem e sequência), a exaltação dos fortes e o desprezo pelo pobres de espírito, a superação do homem pela criação – poética, em certo sentido – pelo “Super Homem”. Também descreve o processo de criação de algumas de suas obras, como o já citado “Assim falou Zaratustra”, escrito durante dezoito meses, em grande parte na Itália. Como sempre em Nietzsche, o estilo literário é assombro: mestre nos aforismos, o filósofo disserta sobre diversos assuntos, como sua própria vida e a decadência da Alemanha. Apresento alguns trechos a seguir para dar uma ideia da coisa. “Àqueles que silenciam quase sempre lhes falta algo em fineza e polidez de coração; silenciar é uma objeção; engolir sapos faz, irremediavelmente, um mau caráter – e inclusive estraga o estômago… Todos aqueles que silenciam são dispépticos. –” “Eu jamais compreendi a arte de me indispor comigo mesmo – e também isso eu devo a meu pai incomparável –, mesmo quando isso me pareceu ser de grande valor. Eu inclusive não me senti, por mais que uma afirmativa dessas possa parecer pagã, uma só vez que fosse, indisposto comigo mesmo; pode-se virar minha vida de frente e do avesso e apenas raramente, na verdade apenas uma única vez, se encontrará rastros de que alguém teve contra mim más intenções – mas talvez venha a se encontrar rastros um tanto demasiados de boas intenções… Minhas próprias experiências com esse tipo de gente, com o qual todo mundo tem más experiências, falam, sem exceção, em favor deles; eu amanso qualquer urso e sou capaz até de fazer de um palhaço uma pessoa decente. Durante os sete anos em que ensinei grego nas classes mais altas do Liceu de Basiléia,[10] jamais tive motivo para pôr alguém de castigo; os mais vagabundos eram diligentes comigo.” “Eu conheço meu fado. Um dia haverão de unir meu nome à lembrança de algo monstruoso – uma crise como jamais houve outra na Terra, na mais profunda colisão de consciência, em uma decisão contra tudo aquilo que até então tinha sido acreditado, reivindicado, santificado… Eu não sou homem, sou dinamite.”
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João Gilberto (1931-2019)
Música
João Gilberto (1931-2019)
7 de julho de 2019 0
O meu professor de violão amava João Gilberto de uma maneira que eu achava meio incompreensível: ele me mostrava, vibrando, aqueles acordes dissonantes que só mesmo o baiano genial conseguia criar. Aquilo fazia pouco sentido para mim, mas eu tentava: comprei alguns discos, e até gravei em cassete um show de João Gilberto que passou na TV. Mas não conseguia entender o que ele tinha de tão genial. Tudo mudou quando fiz um estágio onde tocava a Rádio Ouro Verde o dia inteiro. Foi só então que percebi que as mesmas músicas interpretadas por outros cantores e pelo João Gilberto eram completamente diferentes: o baiano conseguia fazer algo perfeito, direto, sem um resquício de brega. Sim, a explicação de por que o João Gilberto é melhor que os outros é complicada para quem, como eu, não entende de técnica musical. Já li alguns críticos elogiando a maneira como ele fazia as frases, essas coisas; Zuza Homem de Mello, por exemplo, escreveu ontem (obrigado, Fábio Bianchini) que “Ouvir João Gilberto requer aprendizado. Requer concentração apuradíssima para se usufruir de tudo ao mesmo tempo: precisão micrométrica do violão, a identificação das notas formando acordes, as sutis alterações harmônicas, o balanço rítmico irresistível, a destreza de seus dedos acertando as cordas do braço do violão, a posição da mão direita no jogo de vai e vem, a justeza equilibrada entre o volume do instrumento e da voz, a dicção impecável, a emissão na medida certa, a minúcia das quase imperceptíveis mudanças na divisão, as defasagens rítmicas e alterações melódicas, a argúcia dos silêncios, a supressão do supérfluo, a valorização dos esses, dos erres, das consoantes e vogais; do sentido das palavras, das profundas notas graves, a capacidade de fazer vir à tona a intenção do verso, a delicadeza em mostrar a música como nunca se ouviu antes.” O trecho reproduzido acima faz pouco sentido para mim, sou obrigado a reconhecer. Só sei que João Gilberto cantava muito melhor que os outros, embora não saiba explicar bem por quê. Não importa. Eu fui um viciado intermitente por sua música: lembro, por exemplo, quando a Valéria se queixou de que não aguentava mais ouvir aquele CD de MP3 só com músicas de João Gilberto no carro; ou quando eu comprava a revista Veja antes de ir para a faculdade, lia quase inteira no carro mesmo, ouvindo a fita de “João”, o disco de 1991; consegui até ir num show dele, muito tenso, e que descrevi aqui. Agora ele morreu, ficamos um pouco órfãos, mas com esperança de que alguém libere alguma gravação de show, ou de telefone mesmo. Descanse em paz, gênio da raça.
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