Livros sobre o nazismo
História
Livros sobre o nazismo
3 de maio de 2020 0
O regime nazista, comandado por Adolf Hitler na Alemanha, foi um dos mais brutais de todos os tempos, senão o mais brutal: não só provocou a Segunda Guerra Mundial como assassinou friamente, fora dos campos de batalha, cerca de seis milhões de judeus, quinhentos mil ciganos e cinco milhões de pessoas de outras etnias. Toda esta barbárie ainda chama muito a atenção dos historiadores e do público em geral, e novos lançamentos de história e de ficção abordam diferentes aspectos do regime nacional-socialista. Falecido recentemente, o historiador alemão Joachim Fest escreveu aquela que é considerada por grande parte dos especialistas como a melhor de todas as biografias de Adolf Hitler. O segundo volume desta obra foi relançado em 2006 (o primeiro tinha saído em 2005): Hitler – vol. 2  (Nova Fronteira, 528 páginas). O primeiro tomo cobria a vida de Hitler desde o seu nascimento até a posse como Chanceler (cargo equivalente ao Primeiro-Ministro de um país parlamentarista) alemão, em 30 de janeiro de 1933. Hitler – vol. 2 inicia-se nesta data e termina com a morte do Führer no seu bunker em Berlim, quando da derrota da Alemanha em 1945. Os dois volumes desta biografia são extremamente detalhados, precisos e bem escritos, fruto de um trabalho sério e obsessivo do historiador. Merecem totalmente o imenso prestígio que obtiveram ao longo dos anos, desde a sua publicação na Alemanha em 1973. Para o leitor leigo, uma boa introdução ao modo nazista de pensar e de governar encontra-se em Itália Nazista e Alemanha Nazista (Madras, 180 páginas), escrita pelo catedrático de História Europeia Moderna da Universidade Estadual da Carolina do Norte Alexander J. De Grand. A obra faz uma comparação entre os regimes fascista da Itália e nazista da Alemanha em relação a assuntos como a marcha para o poder, os sistemas econômicos, as comunidades, a cultura, os militares, a expansão e a guerra. Dificilmente alguém que não tenha ficado chocado com a barbárie nazista não tenha algum dia se perguntado como estaria hoje o mundo se o Eixo – aliança entre a Alemanha, a Itália e o Japão – tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Uma fantasia – tétrica, como não poderia deixar de ser – neste sentido foi criada pelo escritor de ficção científica Philip K. Dick no romance O homem do castelo alto, publicado originalmente em 1962 e apenas agora lançado no Brasil (Aleph, 304 páginas). O livro mostra como seria o início dos anos sessenta após a derrota dos Aliados. Neste assustador mundo fictício, os japoneses governam a Costa Oeste dos Estados Unidos e a Alemanha, a Costa Leste. Hitler está tão doente que já não tem mais condições de governar, e o ditador do Reich agora é o antigo fiel escudeiro do ex-Führer, Martin Bormann. Os dirigentes nazistas (como sempre ocorrera, aliás), travam ferozes lutas internas por nacos de poder: com Heinrich Himmler já falecido, os mais importantes mandatários alemães são o ministro da aeronáutica e ex-vice premiê Hermann Göring, o ministro da propaganda Joseph Goebbels, o ex-dirigente da juventude nazista, o moderado Baldur Von Schirach, e os cruéis Arthur Seyss-Inquart e Reinhard Heydrich – que, na ficção de Philip K. Dick, não tinha sido morto em decorrência de um atentado em Praga perpetrado por terroristas tchecos, conforme realmente ocorreu no ano de 1942. Na África, os nazistas promoveram um monstruoso genocídio contra a população negra e, em todo o mundo, dão total publicidade ao assassinato em massa de judeus nas câmaras de gás – que continua, claro, com todo o fôlego. Os eslavos que não são escravizados ou assassinados são mandados para regiões distantes da Sibéria. Não satisfeitos em colonizar a Terra, os alemães mandam os primeiros seres humanos para Marte. Ainda na parte tecnológica, os nazistas criam foguetes de linhas comerciais que fazem o trajeto Estados Unidos-Europa em menos de uma hora. O homem do castelo alto se passa na Costa Oeste dos Estados Unidos, na região de San Francisco. No romance, os americanos são cidadãos de segunda classe, totalmente subjugados ao poder japonês, que é bem menos agressivo que o correspondente nazista: o governo imperial permite alguma liberdade de imprensa e jamais perseguiu judeus. Os japoneses, além disso, admiram a cultura americana, apreciando o jazz e o blues, e colecionam objetos fabricados nos Estados Unidos no período anterior à Segunda Guerra Mundial. O livro conta a história de alguns personagens – quase todos aficionados pelo milenar livro chinês de adivinhação, o I Ching – vivendo nesta Costa Oeste fictícia. O espião alemão que quer, com grande risco de vida, passar informações extremamente importantes para o governo japonês. O artesão judeu que fez operações plásticas e mudou seus documentos para esconder sua origem. A mulher problemática que namora um rapaz pretensamente italiano que ela acaba descobrindo ser um espião alemão preparado para assassinar o escritor de um romance que contava a história de um mundo em que o Eixo perdeu a guerra. O comerciante americano de objetos antigos que está sempre querendo agradar os superiores japoneses. O burocrata japonês que sofre com as políticas nazistas e com as guerras de espionagem. O homem do castelo alto é um livro sombrio e melancólico, e que gruda na memória do leitor. Se a obra de Philip K. Dick angustia quando trata de um tempo presente que poderia ter acontecido com a vitória alemã na Segunda Guerra Mundial, Diário de um skinhead – um infiltrado no movimento neonazista, do jornalista espanhol Antonio Salas (Planeta, 280 páginas) assusta ao falar do nazismo “de verdade” nos dias atuais.  O autor, que utilizou um pseudônimo para assinar o livro por motivos óbvios, passou mais de um ano como infiltrado entre violentos skinheads espanhóis, sempre filmando tudo com uma câmera escondida. O risco que ele correu nesta empreitada foi, obviamente, enorme, e o jornalista brasileiro Tim Lopes, brutalmente assassinado por traficantes cariocas ao fazer uma reportagem semelhante em 2002, é citado no livro do espanhol para dar uma idéia do perigo da situação. Para infiltrar-se na extrema-direita espanhola, Salas começou
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Leituras na pandemia
História, Literatura
Leituras na pandemia
20 de abril de 2020 0
“O império de Hitler”, do britânico Mark Mazower (Companhia das Letras, 801 páginas, tradução de Claudio Carina e Lucia Boldrini), conta o que os alemães aprontaram em toda a Europa quando colonizaram grande parte do continente entre 1939 e 1945. O livro mostra que a ideologia racial nazista era mais importante que considerações práticas ou econômicas – e que isto acabou tendo importância fundamental na derrota do regime de Hitler em 1945. Não acho que a literatura deva defender posição política – não explicitamente, pelo menos. “A barata”, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 104 páginas, tradução de Jório Dauster), faz exatamente isso: o livro, em que uma barata se transforma no primeiro-ministro inglês (a alusão à “Metamorfose”, de Kafka, é óbvia), é declaradamente uma denúncia contra o Brexit – como o posfácio, escrito pelo autor, deixa muito claro. Mas o livro é muito divertido e, como sempre no caso do grande escritor inglês, é extremamente bem escrito. Fiquei sabendo depois de ter comprado o livro que “Blade Runner”, de Philip K Dick (Aleph, 283 páginas, tradução de Ronaldo Bressane) se chamava inicialmente “Androides sonham com ovelhas elétricas”. Assisti ao filme baseado no livro muitos anos atrás, e lembro que gostei muito. O romance – uma ficção científica que conta a história de um caçador de androides que estavam causando perigo às pessoas – não me impressionou tanto (creio que se ele tivesse metade do tamanho seria melhor). De todo modo, as discussões que o livro desperta – sobre consciência, empatia e sobre o que, afinal, nos faz humanos – são muito interessantes. Aparentemente, “Não me abandone jamais”, do escritor Prêmio Nobel de Literatura de 2017, o inglês Kazuo Ishiguro (Companhia das Letras, 343 páginas, tradução de Beth Vieira), conta a história de uma escola na Inglaterra, com alunos vivendo as situações normais da infância/adolescência: o bullying, a amizade, a descoberta do sexo. Mas não é bem isso. Melhor não contar mais nada, mas vou dar uma dica: se você quiser ler o livro, recomendo que nem leia as orelhas do romance, uma obra-prima assustadora publicada originalmente em 2005.
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Três livros escritos por mulheres
Literatura
Três livros escritos por mulheres
12 de abril de 2020 0
O Prêmio Nobel de Literatura de 2001, o trinitário-britânico de origem indiana V.S.Naipaul (de quem, aliás, li três ótimos livros, “Os mímicos”, “Uma casa para o sr. Biswas” e “Guerrilheiros”) causou polêmica em 2011 ao criticar a literatura feminina, devido à “sensibilidade e estreita visão de mundo das mulheres”. Isso é uma bobagem tão grande que nem merece refutação. Mas é outra afirmação do escritor, na mesma ocasião, que me faz citá-lo aqui: ele acrescentou ainda que lia uma obra e depois de dois parágrafos já sabia dizer se o livro tinha sido escrito por uma mulher ou não. Li recentemente três ótimos romances escritos por mulheres, e fico me perguntando se eu saberia se tinham sido escritos por membros do sexo feminino caso eu não soubesse o nome do autor(a). Sou fascinado pela distopia da república fictícia de Gilead, criada pela escritora canadense Margaret Atwood no romance “O conto da Aia” e que é a origem da excepcional série “Handmaid’s Tale”, ambos já comentados por aqui. Em 2019 ela lançou uma continuação de sua saga, chamada “Os testamentos” (Rocco, 448 páginas, tradução de Simone Campos). O livro é contado, de forma alternada, por três personagens femininas, tanto a favor quanto contra a opressora República de Gilead. O livro é excelente e com conflitos muito bem resolvidos, mas eu esperava um pouco mais. Coisa de fã. Já “Largo pétalo del mar”, da chilena Isabel Allende (Sudamericana, 2019 – já existe uma tradução brasileira, a cargo da Bertrand Brasil) é uma verdadeira epopeia. O romance contando a história do casal espanhol (um casal bem diferente, diga-se, mas prefiro não dar mais detalhes) Víctor e Roser Dalmau desde a fuga da Guerra Civil Espanhol até seu final da vida no Chile – passando por uma fuga deste país quando do golpe de estado do ditador Augusto Pinochet. O livro parece esbarrar na pieguice aqui e ali, e os personagens principais são inesquecíveis. Finalmente, “A época da inocência”, escrita pela americana Edith Wharton em 1920 (Penguin-Companhia, 416 páginas, tradução de Hildegard Feist), conta a história de amor mal-resolvido entre o rico advogado Newland Archer e a condessa Olenska, prima de sua futura esposa May Welland. Os preconceitos e costumes dos ricos americanos entre final do sec. XIX e o início do sec. XX são descritos com precisão cirúrgica e desapiedada por esta extraordinária Edith Wharton. Uma obra-prima. Voltando à pergunta inicial: eu saberia se algum dos livros foi escrito por mulher, caso eu não soubesse o nome das autoras? Com certeza não. V.S. Naipaul era um bobão mesmo.
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“O dom”, de Vladimir Nabokov
Literatura
“O dom”, de Vladimir Nabokov
5 de abril de 2020 0
Fyodor é um exilado russo em Berlim na primeira metade do século XX, e está tentando iniciar sua carreira literária. Lá ele conhece outros fugitivos da Revolução Russa e passa os dias entre os livros, algumas aulas particulares que ministra, e andanças pela cidade. O personagem principal de “O dom”, de Vladimir Nabokov (Alfaguara, 384 páginas) tem bastante em comum com o autor, também exilado russo que viveu em Berlim. Composto por cinco longos capítulos, o romance, entre outras técnicas, usa metaficção – conforme notado por Paulo Nogueira em seu texto sobre o livro no Estadão, “a própria primeira frase é interrompida para a citação de um crítico a respeito de… primeiras frases” – alternância entre primeira e terceira pessoas na narração – e o leitor que se vire para saber o que está rolando. O quarto capítulo é composto por uma biografia meio debochada, escrita por Fyodor, de Nikolay Chernishevski, o autor favorito de Lênin. Não acontece muita coisa em “O dom”, e boa parte da narrativa é composta por comentários sobre personagens, autores, romances, poesias e lembranças do próprio Fyodor (impressiona a história do pai dele, que era um entomologista muito famoso na Rússia de antes da Revolução – importante lembrar que o próprio Nabokov era entomologista profissional). O tipo de técnica utilizada faz com que às vezes seja meio difícil saber o que exatamente está ocorrendo; mesmo assim, o livro não é de leitura muito complexa. Nabokov considerava “O dom” como seu melhor livro, e hoje a crítica o coloca no mesmo nível de seus romances mais importantes, como “Lolita” e “Fogo Pálido” (o meu preferido dele, aliás). Quanto a mim, a cada novo livro fico mais impressionado com a incrível criatividade de Nabokov: “O dom” não se parece em nada com os demais romances dele que já li – uns muito diferentes dos outros, aliás.
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Filmes noir em tempos e lugares diferentes
Cinema
Filmes noir em tempos e lugares diferentes
29 de março de 2020 0
O universo do filme noir é tipicamente urbano e contemporâneo: de maneira geral, protagonistas de caráter duvidoso, bandidos, mulheres fatais, policiais, etc., são personagens vivendo em grandes cidades – seja em becos escuros, lanchonetes, palacetes ou residências modestas – nos anos 40 e 50 do século XX (época em que os filmes foram realizados). Porém, alguns filmes no estilo fogem deste padrão. O presente texto trata de quatro filmes cujas histórias transcorrem em locais diferentes – dois em presídios, um na fronteira entre os Estados Unidos e México e outro numa pequena cidade – e outro no século XIX. São uma mostra de uma rara flexibilidade neste estilo cinematográfico fascinante – e um tanto engessado. Todos os filmes citados aqui constam da fascinante coleção de DVDs “Filme Noir”, da Versátil . “À margem da vida” (“Caged”, 1950, 96 min), de John Cromwell, se passa num presídio feminino, em que uma jovem viúva de 19 anos é presa por cumplicidade num pequeno assalto e, lá, vai ficando cada vez mais amargurada com a falta de perspectivas de melhorar de vida quando estiver livre. O filme é extremamente bem conduzido, concorreu a quatro Oscar e Eleanor Parker – atriz que faz jovem viúva – acabou vencendo o prêmio de melhor atriz. “Rebelião no presídio” (“Riot in cell block 11”, 1954, 80 min), de Don Siegel, se passa num presídio masculino onde ocorre uma rebelião. O filme é de denúncia contra as péssimas condições dos presos – alguém já ouviu falar nisso? -, mas perdeu muito de sua força. “Mercado humano” (“Border incident”, 1949, 96 min), de Anthony Mann, conta a história de policiais mexicanos e americanos que vão à fronteira entre os Estados Unidos e México tentar desbaratar uma quadrilha que explora o tráfico de mexicanos. Grande filme, com uma fotografia espetacular de John Alton. Em “Ao cair da noite” (“Moonrise”, 1948, 90 min), de Frank Borzage, um rapaz de uma cidade do interior que sempre sofreu bullying por ter um pai enforcado por assassinato acaba matando sem intenção, numa briga, o maior dos valentões da cidadezinha. O restante do filme mostra os problemas do assassino com sua consciência – e por isso a Versátil, na contracapa, acaba chamando o filme de “noir psicológico”. O filme definitivamente não consegue criar o clima que queria – será pelo fato de o diretor Frank Borzage não gostar do gênero noir, como mostrado nos extras do volume 11 da coleção da Versátil? Apostaria nisso. Finalmente, “Conspiração” (“The tall target”, 1951, 77 min), de Anthony Mann, mostra um detetive que embarca num trem para tentar salvar o presidente Abraham Lincoln, que será vítima de um atentado. O melhor dos filmes citados aqui.
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“Vampiro de Curitiba” e “Cemitério de Elefantes”, de Dalton Trevisan
Literatura
“Vampiro de Curitiba” e “Cemitério de Elefantes”, de Dalton Trevisan
22 de março de 2020 0
Lançados originalmente respectivamente em 1964 e 1965, “Cemitério de Elefantes” (Record, 126 páginas) e “O Vampiro de Curitiba” (Record, 142 páginas) são dois dos livros mais famosos de Dalton Trevisan – frequentemente apelidado, ele mesmo, de “vampiro de Curitiba”. Em “O Vampiro de Curitiba”, todas as quinze histórias têm um personagem principal com o mesmo nome, “Nelsinho”, sempre obcecado por mulheres,  mas que não são necessariamente a mesma pessoa.  Algumas histórias, envolvendo estupro, são chocantes até para leitores assíduos de Dalton Trevisan (“O Vampiro de Curitiba”, “Debaixo da Ponte Preta”). Outras, envolvendo carência feminina, são francamente patéticas (“Visita à Professora”, “A Velha Querida”, “A Noite da Paixão”, “Chapeuzinho Vermelho”). Em “Arara Bêbada” e “Menino Caçando Passarinho”, Nelsinho é um advogado que não dá bola para os limites éticos de sua profissão, assediando descaradamente suas clientes. “Último Aviso” mostra um Nelsinho ciumento e chantageador. “Na Pontinha da Orelha” e “Eterna Saudade” descrevem relacionamentos complexos, com atração mútua e alguns mal-entendidos. Já “O Cemitério de Elefantes” fala de vingança (“O Primo”), morte (“Uma Vela para Dario”), violência (“O Baile”, “À Margem do Rio”), ciúme (“Bailarina Fantasista”), alcoolismo (“Os Botequins”), miséria (“Cemitério de Elefantes”). O tema principal do livro parece mesmo ser as relações familiares, sempre complicadas quando o assunto é Dalton Trevisan (“O Jantar”, “O Espião”, “Duas Rainhas”, “Angústia do Viúvo”, “A Casa de Lili”, “Dia de Matar Porco”) – tanto que um dos contos, sobre um marido violento, se chama “Questão de Família”.  Tantos anos depois de publicados, os dois livros não envelheceram nadinha.
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Amenra (Fabrique Club, 1/3/2020)
Música
Amenra (Fabrique Club, 1/3/2020)
15 de março de 2020 0
Eu comecei a me divertir pensando neste texto enquanto via o show da banda belga Amenra, em São Paulo. Explico: o meu show preferido tinha sido o do Morrissey no ano 2000, mas em 2017 escrevi aqui pedindo desculpas a ele por ter preferido o show da Ariana Grande. Depois, em 2018, foi a vez de o jogo virar eu comentar que o show do “Morrissey no Espaço das Américas em São Paulo, no dia 2 de dezembro, foi não só o melhor dos três dele que já vi, como, provavelmente, foi o melhor show a que já assisti”. E aí vem o motivo do meu divertimento durante o show do Amenra: eu teria que escrever que tinha mudado de ideia de novo, porque ele estava fazendo picadinho de tudo a que eu tinha assistido antes. O espetáculo se iniciou com o vocalista Colin H. Van Eeckhout, de joelhos e de costas para a plateia, tocando uma espécie de percussão metálica num ritmo lento e preciso, enquanto os instrumentos faziam um clima baixinho ao fundo. Aquilo demorou uns bons minutos, a ponto de eu ficar me perguntando quando mesmo o show iria começar… até que todos os instrumentos (duas guitarras, bateria e baixo – a cargo do grande Levy Seynaeve, líder o Wiegedood, sobre quem já comentei aqui) tocam os primeiros acordes em uníssono, o vocalista grita, e todos no Fabrique Club passam a saber que estavam vivenciando uma experiência única. Eu lamento não ter o talento do meu mestre José Augusto Lemos para o superlativo – eu lembro dos textos dele falando de shows como um da Gal Costa e outro do David Bowie: o Amenra merecia um texto melhor, mas isso agora não importa muito. A banda de “doom/sludge metal/hardcore” (segundo o Encyclopaedia Metallum) mantém a pegada de alternância entre peso e delicadeza durante todo o show. Colin H. Van Eeckhout passa a maior parte do tempo de costas para a plateia, e se vira de vez em quando e parece que vai rasgar a camiseta; ao seu lado, o baixista Levy Seynaeve alterna entre momentos de costas e de frente para a plateia, do mesmo modo que os guitarristas Mathieu J. Vandekerckhove e Lennart Bossu, nas pontas do palco. Durante todo o show são projetadas belíssimas imagens em preto e branco com cenas rurais e partes de corpos humanos. Muito mais não tem como descrever, a não ser que eu fosse o já citado José Augusto Lemos. Por sorte a banda tem alguns shows muito bem filmados no YouTube (ver aqui, por exemplo), que dão uma boa ideia da coisa. Enfim, quase todas as pessoas com as quais eu conversei falaram termos como “magia” para descrever esse espetáculo incomum.  O show da minha vida.  Desculpem, Morrissey e Ariana Grande.
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“Beatriz”, de Pedro Kowacs
Literatura
“Beatriz”, de Pedro Kowacs
8 de março de 2020 0
O narrador de “Beatriz”, de Pedro André Kowacs (Cajarana, 156 páginas, 2019), conheceu a sua musa, que dá nome a seu livro, no Brasil. Ela lhe dá o endereço de um prédio em Budapeste e ele vai até lá tentar encontrá-la. O endereço acaba dando num prédio, com um apartamento por andar, que tem um estranho bar no térreo, e o narrador – que logo faz amizade com o barman – acaba descobrindo que, para encontrar Beatriz, ele tem que subir um elevador. É quando ele chega no apartamento número 2 – no que seria o primeiro andar aqui no Brasil mas que, na Hungria do livro, é o andar número dois (já que o térreo é o próprio primeiro andar) -, onde duas mulheres, uma eslava e outra asiática, o prendem por muitos dias para que ele faça sexo com elas. Ele consegue fugir de lá e vai para o apartamento número 3, onde mora Ignatius, um homem que o faz comer o tempo todo. No apartamento número 4 ele conhece dois lutadores irmão, Ogekk e Vishal Molnár, um avaro, outro pródigo. O apartamento número 5 é o lugar de reuniões de condomínio deste prédio esquisito, e a reunião em que o narrador participou é confusa e agressiva, como normalmente acontece. O morador do apartamento número 6, Dadec Nögyasvi, deixa todas as decisões de sua vida a cargo do acaso – um dado, no caso. No apartamento número 7 o narrador conhece um estranho e violento casal e, de surpresa em surpresa, o narrador chega ao décimo terceiro e último andar deste prédio para lá de surpreendente.  “Beatriz” é cheio de personagens bizarros, de situações estranhas, de citações inesperadas. Um livro surpreendente.
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