Crítica Musical

As Dez Melhores de Selena Gomez (e o inesperado encontro com Morrissey)
Música
As Dez Melhores de Selena Gomez (e o inesperado encontro com Morrissey)
22 de março de 2026 at 08:56 0

Eu achei que seria fácil fazer uma lista das dez melhores músicas de Selena Gomez, mas que ideia a minha. Só de pensar na lista das coisas que ficaram de fora — como Lose You To Love Me, Sunset Blvd, Bad Liar e Scared of Loving You — já sinto uma certa melancolia. Mas eu gosto de listas; é quase impossível não sentir essa ambivalência entre o que entra e o que sobra em cada seleção feita.

Por sorte (ou por escolha inconsciente), todas as faixas escolhidas possuem videoclipes. Na lista a seguir, os links para os vídeos estão nos títulos:
  1. In the Dark: A artista cantando sozinha na penumbra cria um clima sofisticado e sombrio ao mesmo tempo. “Você é tão lindo no escuro”, diz a letra para alguém que ela conhece mais do que a própria pessoa conhece a si mesma.
  2. Come & Get It: Um dos grandes sucessos de Selena, no qual ela canta: “A luz para a minha escuridão, me ajude a enxergar”. A escuridão, de novo. O clipe, com danças indianas, alterna entre noite e dia em um bom contraste visual.
  3. I Want You To Know (com Zedd): Ela e um duplo (?) sangram a mesma luz e correm a mesma corrida. No clipe, enquanto Selena se entrega à dança na pista, o criador desta EDM inesquecível, Zedd, aparenta uma seriedade protetora para com ela.
  4. Wolves (com Marshmello): Uma EDM mais pop com uma melodia marcante. Traz uma das mais belas letras já interpretadas por ela (“Nos seus olhos, há uma tristeza profunda / Um para amar e outro para perder / Doce divindade, uma verdade pesada / Água ou vinho, não me faça escolher”).
  5. Back to You: Um videoclipe primoroso, esteticamente influenciado pela Nouvelle Vague francesa, para uma música de fôlego.
  6. Love On: Uma homenagem vibrante à França em um clipe divertidíssimo.
  7. Call Me When You Break Up (com benny blanco e Gracie Abrams): Ao contrário das superproduções habituais de Selena, os clipes de Gracie Abrams costumam ser íntimos – neles, ela frequentemente está em casa e de pijama; aqui, as duas conversam na cama como amigas adolescentes falando dos namorados. A música é solar e de alto astral.
  8. 999 (com Camilo): Gravado em 2021, durante a pandemia, tanto a música – suave e deliciosa – quanto o clipe – com lindas cores berrantes e artificiais – foram feitos com os cantores separados. Na letra ela diz: “Já procurei na internet pra ver se isso é normal / Se sentir tão bem e, às vezes, tão mal / Querer te beijar sem poder te beijar / Te tocar sem poder te tocar”.
  9. The Heart Wants What It Wants: Um clipe lancinante sobre a humilhação do amor não correspondido. Na abertura, ela desabafa sobre como a confiança em si mesma pode ser destruída por apenas uma coisa.
  10. Dance Again: Selena Gomez dança sozinha no clipe desta música, lançada logo no início da pandemia.

Recentemente fiz um paralelo entre Selena Gomez e Morrissey, não custa fazer mais um. O cantor inglês lançou agora, em março de 2026, o álbum Make-up is a Lie. Seguem minhas faixas preferidas:
  1. The Monsters of Pig Alley: Tão bela quanto as grandes baladas solo de Morrissey, como Lost ou Life is a Pigsty (que, curiosamente, também faz referência a porcos no título — “alameda dos porcos” vs. “chiqueiro”).
  2. Boulevard: Uma letra sombria (”Andando como se tivesse as duas pernas quebradas”) envolta em uma melodia lenta, bem ao estilo dos seus trabalhos mais recentes.
  3. You’re Right, It’s Time: Uma faixa de abertura impactante, que gruda na memória.
  4. Headache: Morrissey canta quase em sussurros nesta canção onde a “dor de cabeça” é tratada como um cônjuge indesejado: “Do you take this headache to be your amour?”.
  5. Lester Bangs: Uma belíssima homenagem àquele que é considerado maior crítico do rock (“Mais uma noite apertada de latas de cerveja / No seu porão do desespero / Mulheres nuas na parede / Porque eles pertencem a esse lugar / Camiseta de Detroit, surrada e rasgada / Com manchas de sete dias / Mas ah, quando você levanta a caneta / Para escrever sobre Roxy Music e os Dolls / O Village Voice não tem escolha / Tem que elogiar cada uma de suas palavras”).
  Para terminar o texto, mais um paralelo entre Selena Gomez e Morrissey: se o clipe de Love On é uma ode à França, à sua cultura e à sua liberdade sexual, ao menos três faixas de Make-up is a Lie citam o país. A faixa-título (”Eu me encontrei em Paris”), Notre-Dame (sobre o incêndio na catedral) e The Monsters of Pig Alley. “Pig Alley” era o apelido dado por soldados à região de Pigalle, em Paris, famosa pela vida noturna e pelo Moulin Rouge.
Imagem que acompanha o texto obtida no Gemini, do Google. Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail.
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Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquecíveis: Um ensaio sobre a elegância de Armstrong, a parceria de Sinatra e a estética sombria do rap contemporâneo
Música
Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquecíveis: Um ensaio sobre a elegância de Armstrong, a parceria de Sinatra e a estética sombria do rap contemporâneo
8 de fevereiro de 2026 at 14:26 0

Lá em casa só se ouvia MPB. Minha mãe, confessa e praticamente sem ouvido para música, era ligada apenas às letras; por isso, creio eu, quase tudo o que ouvia era em português. De esquerda, ela também não nutria grande apreço pelos Estados Unidos.

Foi, portanto, uma surpresa quando, por volta de 1980, senti vontade de comprar o primeiro fascículo de uma série de LPs que a televisão não parava de anunciar. A coleção se chamava “Gigantes do Jazz”, da Editora Abril, e o exemplar de estreia era sobre o grande cantor e trompetista Louis Armstrong. Minha mãe não se opôs à compra; pelo contrário, chancelou a escolha dizendo que “jazz era clássico”. Com o exemplar em mãos, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o visual: o fascículo era colorido, beirando o brega — um contraste enorme com as coleções de MPB e música erudita da Abril, que eram bem mais sóbrias. A segunda surpresa foi notar que todos os textos eram assinados por críticos franceses. Como eu estudava francês na época, achava a língua bem mais chique que o inglês. O que eu não sabia era que os críticos franceses foram os grandes responsáveis por elevar o jazz ao status de música erudita. Os textos eram ácidos: lembro-me de ler que, após o show cujas gravações estavam naquele LP, a carreira de Armstrong teria entrado em uma “decadência inexorável”. Embora tenha gostado das músicas, o jazz nunca se tornou meu estilo musical preferido. No entanto, guardei para sempre uma frase daquele fascículo: dizia-se que “Rockin’ Chair”, em que Louis Armstrong canta com Jack Teagarden, era “o dueto mais delicioso da história do jazz”. De fato, tornou-se minha faixa favorita do álbum. Há alguns anos, escrevi um texto sobre os meus cinco duetos preferidos entre cantores e cantoras. Agora, decidi fazer o mesmo com os melhores duetos exclusivamente entre cantores, homenageando algumas composições memoráveis, aquele lindo dueto citado e, claro, minha querida mãe. Segue a lista, por ordem de preferência (links para o YouTube no texto):
  1. “Rockin’ Chair” (Louis Armstrong & Jack Teagarden): Se ouvir a canção é delicioso, ver a performance dos dois músicos juntos é simplesmente maravilhoso. Um detalhe importante: Jack Teagarden, que tocava trombone e cantava, era branco — algo que eu não tinha ideia em 1980! Há duas versões fantásticas: uma mais antiga, em preto e branco, impagável pelas expressões faciais da dupla, e outra mais recente e colorida, que provavelmente é a que eu conhecia do LP da Abril.
  2. “Birth of Blues” (Louis Armstrong & Frank Sinatra): Descobri este vídeo totalmente por acaso. Assim como no dueto anterior, os dois gigantes se divertem sem limites cantando este clássico do cancioneiro americano, que é uma belíssima homenagem à alma do jazz e do blues.
  3. “Money in the Grave” (Drake & Rick Ross): Enquanto a canção anterior trata da origem humilde do jazz, aqui os dois rappers celebram a opulência, pedindo que sua fortuna seja enterrada com eles. A batida sombria é fantástica e os versos são espetaculares. O clipe, em preto e branco, é altamente impactante. Drake lançou a faixa para celebrar o primeiro título do Toronto Raptors na NBA, em 2019.
  4. “Sneakin’” (Drake & 21 Savage): Se Armstrong aparece duas vezes nesta lista, Drake também merece o bis. Nesta faixa hipnótica, ele ostenta seu sucesso e responde aos rivais, enquanto 21 Savage utiliza um estilo ostensivamente repetitivo. O clipe apresenta uma filmagem de baixa qualidade (Lo-Fi) que evoca a estética de fitas VHS — uma possível influência do rapper Bones, o próximo da lista.
  5. “鈍ら墓地” (Cemetery Blunts) (Bones & Xavier Wulf): Comecei a ouvir Bones por volta de 2014. Vindo do metal, mergulhei no universo do rapper por anos; meu Last.fm confirma que, ainda em 2025, ele foi meu artista mais ouvido. O clipe é o ápice da estética Vaporwave/Sad Boys que dominava o Tumblr e o underground em 2013: gravado em VHS, com interferências visuais (glitches) e estátuas clássicas ao fundo. É tudo maravilhoso até hoje.
  (Imagem obtida no Gemini)
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