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Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquecíveis: Um ensaio sobre a elegância de Armstrong, a parceria de Sinatra e a estética sombria do rap contemporâneo
Música
Do Vinil ao VHS: Uma Jornada pelos Duetos Inesquecíveis: Um ensaio sobre a elegância de Armstrong, a parceria de Sinatra e a estética sombria do rap contemporâneo
8 de fevereiro de 2026 at 14:26 0

Lá em casa só se ouvia MPB. Minha mãe, confessa e praticamente sem ouvido para música, era ligada apenas às letras; por isso, creio eu, quase tudo o que ouvia era em português. De esquerda, ela também não nutria grande apreço pelos Estados Unidos.

Foi, portanto, uma surpresa quando, por volta de 1980, senti vontade de comprar o primeiro fascículo de uma série de LPs que a televisão não parava de anunciar. A coleção se chamava “Gigantes do Jazz”, da Editora Abril, e o exemplar de estreia era sobre o grande cantor e trompetista Louis Armstrong. Minha mãe não se opôs à compra; pelo contrário, chancelou a escolha dizendo que “jazz era clássico”. Com o exemplar em mãos, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o visual: o fascículo era colorido, beirando o brega — um contraste enorme com as coleções de MPB e música erudita da Abril, que eram bem mais sóbrias. A segunda surpresa foi notar que todos os textos eram assinados por críticos franceses. Como eu estudava francês na época, achava a língua bem mais chique que o inglês. O que eu não sabia era que os críticos franceses foram os grandes responsáveis por elevar o jazz ao status de música erudita. Os textos eram ácidos: lembro-me de ler que, após o show cujas gravações estavam naquele LP, a carreira de Armstrong teria entrado em uma “decadência inexorável”. Embora tenha gostado das músicas, o jazz nunca se tornou meu estilo musical preferido. No entanto, guardei para sempre uma frase daquele fascículo: dizia-se que “Rockin’ Chair”, em que Louis Armstrong canta com Jack Teagarden, era “o dueto mais delicioso da história do jazz”. De fato, tornou-se minha faixa favorita do álbum. Há alguns anos, escrevi um texto sobre os meus cinco duetos preferidos entre cantores e cantoras. Agora, decidi fazer o mesmo com os melhores duetos exclusivamente entre cantores, homenageando algumas composições memoráveis, aquele lindo dueto citado e, claro, minha querida mãe. Segue a lista, por ordem de preferência (links para o YouTube no texto):
  1. “Rockin’ Chair” (Louis Armstrong & Jack Teagarden): Se ouvir a canção é delicioso, ver a performance dos dois músicos juntos é simplesmente maravilhoso. Um detalhe importante: Jack Teagarden, que tocava trombone e cantava, era branco — algo que eu não tinha ideia em 1980! Há duas versões fantásticas: uma mais antiga, em preto e branco, impagável pelas expressões faciais da dupla, e outra mais recente e colorida, que provavelmente é a que eu conhecia do LP da Abril.
  2. “Birth of Blues” (Louis Armstrong & Frank Sinatra): Descobri este vídeo totalmente por acaso. Assim como no dueto anterior, os dois gigantes se divertem sem limites cantando este clássico do cancioneiro americano, que é uma belíssima homenagem à alma do jazz e do blues.
  3. “Money in the Grave” (Drake & Rick Ross): Enquanto a canção anterior trata da origem humilde do jazz, aqui os dois rappers celebram a opulência, pedindo que sua fortuna seja enterrada com eles. A batida sombria é fantástica e os versos são espetaculares. O clipe, em preto e branco, é altamente impactante. Drake lançou a faixa para celebrar o primeiro título do Toronto Raptors na NBA, em 2019.
  4. “Sneakin’” (Drake & 21 Savage): Se Armstrong aparece duas vezes nesta lista, Drake também merece o bis. Nesta faixa hipnótica, ele ostenta seu sucesso e responde aos rivais, enquanto 21 Savage utiliza um estilo ostensivamente repetitivo. O clipe apresenta uma filmagem de baixa qualidade (Lo-Fi) que evoca a estética de fitas VHS — uma possível influência do rapper Bones, o próximo da lista.
  5. “鈍ら墓地” (Cemetery Blunts) (Bones & Xavier Wulf): Comecei a ouvir Bones por volta de 2014. Vindo do metal, mergulhei no universo do rapper por anos; meu Last.fm confirma que, ainda em 2025, ele foi meu artista mais ouvido. O clipe é o ápice da estética Vaporwave/Sad Boys que dominava o Tumblr e o underground em 2013: gravado em VHS, com interferências visuais (glitches) e estátuas clássicas ao fundo. É tudo maravilhoso até hoje.
  (Imagem obtida no Gemini)
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