“Violetas e Pavões”, de Dalton Trevisan
Literatura
“Violetas e Pavões”, de Dalton Trevisan
17 de novembro de 2019 0
Em “A Desgraça de Zeno” uma mulher trafica drogas pela primeira vez e se dá muito mal. “Amor, Amor, Abra as Asas” é uma declaração sem-vergonha de amor de um homem para sua amada. “O Recibo” conta um estupro. “Na Virada da Noite” conta a vida de um homem devastado pelas drogas. “Violetas e Pavões” é, também, uma safada declaração de amor – mas do ponto de vista feminino. Em “Não Sou o Buba” o protagonista tenta explicar que foi preso por engano. Em “Misericórdia” uma senhora doente é internada na ala dos idosos, “anexa à dos psicóticos”. “Tenha Uma Boa Noite!” conta um tenso atravessar de uma região perigosa. Em “Ele” um pai estupra a própria filha. “Lábios Vermelhos de Mulher” conta as fantasias sexuais de uma mulher casada. “Elas Cantam Só Para Mim” é sobre as desventuras de um fotógrafo. Em “Uma Senhora” uma mãe é abandonada pelos três filhos. Em “Violetas e Pavões” (Record, 128 páginas), publicado em 2009, Dalton Trevisan conta mais histórias sórdidas, violentas, eróticas, como tem feito há tantos anos já. Sorte nossa, seus leitores!
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Uma partida inesquecível
Esporte
Uma partida inesquecível
10 de novembro de 2019 0
O jogo é na Islândia, no Reykjavík Rapid de 2004. As partidas já começaram, os jogadores já estão cada um de um lado de suas mesas, mas um enxadrista ainda não chegou. Seu adversário está lá, andando de um lado para outro, com a expressão perdida. Ele toma um refrigerante, o que combina com sua própria idade: o jogador que já chegou tem apenas treze anos, mas sua aparência é de ainda menos idade: é um pré-adolescente, quase criança. Mais tarde o garoto diria que não queria ganhar o jogo pela ausência de seu adversário, já que ele queria mesmo jogar aquela partida. O adversário finalmente chega na sala, esbaforido. Ele se senta de seu lado da mesa, cumprimenta a criança, que está jogando com as brancas e faz o primeiro lance. O adversário – um senhor de quarenta anos, com cabelos muito curtos e já grisalhos – põe as mãos na cabeça, parece preocupado, pensa um pouco e logo faz seu primeiro lance. O jogo termina empatado: o garoto, que estava melhor na partida mas que teve problemas com o tempo, acabou fazendo um lance ruim no final do jogo, que permitiu que o senhor mais velho acabasse conseguindo um empate. Os melhores momentos deste jogo são apresentados num vídeo com mais de cinco milhões de visualizações, apresentado no YouTube neste link, e a partida é dissecada com a habitual competência por Rafael Leite no seu Xadrez Brasil, neste link. O garoto do vídeo se chama Magnus Carlsen, o jogador que alcançaria o maior rating ELO[1] da história (2882, em 2014) e é campeão mundial desde 2013. Já o senhor se chama Garry Kasparov, russo campeão mundial[2] entre 1985 e 2000, considerado por muitos o melhor jogador de xadrez de todos os tempos. Em 2004, quando ocorreu o jogo descrito acima, Kasparov nunca tinha disputado uma partida contra um adversário tão jovem. Suas expressões de espanto, em muitos momentos da partida, são muito engraçadas: o gênio russo não parecia se conformar em estar sofrendo contra um garotinho aparentemente tão inofensivo. Mas o que é maravilhoso mesmo no vídeo é que ele pode ser considerado o momento simbólico do final de uma era – a do domínio de Kasparov – e o início de outra, a de Magnus Carlsen, atual campeão mundial. [1] O rating Elo é um método estatístico utilizado para se calcular a força relativa entre jogadores de xadrez, inventado pelo físico americano Arpad Elo. [2] A história dos campeonatos mundiais de Kasparov é meio complicada, já que ele brigou com a FIDE em 1993.
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Proust/Machado
Exercícios Literários, Literatura
Proust/Machado
4 de novembro de 2019 0
Fiquei meio espantado com a frase de Machado de Assis, em Brás Cubas: “não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar” (já tinha lido a obra, mas não me lembrava em absoluto desta citação). Explico: ela lembra, de maneira notável, uma frase de Proust: “é melhor cair das nuvens do que cair dos planos”. Logo fiquei pensando nos paralelos incríveis entre duas frases tão semelhantes: será que Proust sabia da obra de Machado, escrita em 1881, quando o francês tinha dez anos? Provavelmente não: se a literatura brasileira tem pouca penetração no exterior hoje em dia, imagine-se no século XIX. Então, só me restava comparar as duas sentenças, na maneira incrível como “planos”, na frase de Proust, se transformava em “terceiro andar”, na machadiana: nos dois casos a realidade atinge de maneira definitiva e inexorável o “sonhador”, aquele que “não mantém os pés na terra”, que “vive nas nuvens”. Que notável! Dois gênios, separados por um oceano e algumas décadas de distância, praticamente criando uma transmissão de pensamentos! Mas é melhor desconfiar, né? Antes de evoluir nos meus próprios pensamentos, resolvi dar uma olhadinha na internet: a frase do Proust realmente é citada, mas em sites de autenticidade duvidosa. Mais do que isso, nas minhas pesquisas em francês não surgiu nada parecido com a sentença supracitada. A frase, com quase 100% de certeza, não é de Proust, e quase caí no conto (eu a tinha lido como se fosse dele há muitos anos já). Enfim, esse assunto tem tudo para cair em outra reflexão: quem inventou essa coisa? Provavelmente algum brasileiro, que conhecia a frase de original de Machado de Assis e resolveu dar um lustro afrancesado na coisa. Pensando nisso, não posso deixar de me divertir ao pensar nesse suposto brasileiro piadista. (Crônica baseada no seguinte desafio literário proposto por Robertson Frizero: No capítulo CXIX do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o narrador-protagonista lista uma série de irônicos aforismos de sua autoria. O desafio de hoje é escolher um desses aforismos e escrever um conto, crônica ou poesia de até 500 palavras a partir de sua interpretação da frase. Estes são os aforismos machadianos: (…) Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.)
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“Histórias mínimas”, de Jonatan Silva
Literatura
“Histórias mínimas”, de Jonatan Silva
27 de outubro de 2019 1
O tipo de literatura tento fazer nos meus livros é uma literatura que se concentra em conflitos humanos, com uma dose maior ou menor de realismo – é como se fosse um espelho, mais ou menos límpido, da realidade. Existe outro tipo de literatura – por simplicidade, chamemo-la de “fantástica” – em que o texto literário é quase que separado da vida, e que se basta a si mesmo: neste caso, a realidade não aparece como um espelho, mas como metáfora. Os livros de Borges e Kafka pertencem a este tipo de literatura, mas pode-se argumentar que mesmo os mitos de criação todas as culturas, por exemplo, podem pertencer a este grupo. As histórias deste excelente livro de contos “Histórias mínimas”, de Jonatan Silva (Kafka, 74 páginas, 2019) pertencem a este “outro tipo”, o “fantástico”, de literatura. Em “Alfinetes”, a personagem não consegue viver sem alfinetes. Em “A Flor”, alguém vive embaixo de uma pilha de lixo. “Lázaro” tem um caco de vidro no olho. “Neve” é uma estranha história de um níquel e muita neve. “Esteves” é uma máquina faminta que se alimenta “de vinho e cigarros”. “O Sonho”, provavelmente o melhor conto do livro, conta a história de um velho cego com sonhos estranhos. “O pão do corvo” fala, de maneira brilhante, sobre a guerra, assim como o extraordinário “Adela”. “Piano de cauda” é uma história dolorosa sobre música. Enfim, as “Histórias mínimas” de Jonatan Silva, tenho certeza, agradariam a Borges e Kafka. Mas o livro conta com alguns contos do tipo realista – creio que Dalton Trevisan apreciaria “Rosália”, por exemplo, transcrito a seguir: “Rosália fora uma mulher voluptuosa, recheada de encantos que aos poucos se transfiguraram em uma velhice que lhe adornaria o corpo. Os homens, que tanto se engraçavam, se calavam ao vê-la passar. Restou-lhe somente o marido, um par de gatos e a obrigação de, pela primeira vez, ser fiel.”
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“Longe das Aldeias”, de Robertson Frizero
Literatura
“Longe das Aldeias”, de Robertson Frizero
20 de outubro de 2019 1
São tantas as qualidades de “Longe das Aldeias”, de Robertson Frizero (77 páginas, Terceiro Selo, lançado em 2015), que é até meio difícil saber por qual começo.  De todo modo, vamos lá. A primeira coisa que me chamou a atenção no romance é o não dito: é impressionante a quantidade de coisas que não são explícitas. Li “Longe das Aldeias” com a sensação de que estava numa espécie de labirinto, em que alguns caminhos levavam a lugar nenhum, enquanto outros, efetivamente, faziam aumentar a compreensão de onde eu estava. Acho que o segundo aspecto que me chamou a atenção no romance é o fato de ele ser exatamente o contrário do que eu esperava: conheci Robertson Frizero num grupo (de e-mails, estávamos no fim dos anos 90!) sobre a banda portuguesa Madredeus, que eu amava incondicionalmente, hoje um tantinho a menos, e que o Robertson continua amando do mesmo jeito de sempre (sou meio traidor para música, meus amigos sabem disso).  Bem, o negócio é que um livro chamado “Longe das Aldeias”, de um escritor fã de Madredeus, na minha cabeça deveria ser um livro bucólico, que trataria da beleza e da melancolia de uma aldeia em Portugal, cheio de saudade, mar, e amor – temas caros à grande banda portuguesa. Que nada! “Longe das Aldeias” fala de guerra, de genocídio, de sofrimento e famílias destroçadas – e tudo daquela maneira elusiva comentada acima. E o romance é grande literatura não apenas por causa do comentado acima: a solução que Robertson Frizero dá para os conflitos é brilhante, digna dos grandes mestres.  Meses depois que acabei de ler esta pequena obra-prima, ainda fico impressionado em com o quanto de coisas o autor conseguiu colocar em apenas 77 páginas. E, finalmente, você, que me lê, deve estar achando que não falei nada sobre o enredo, né? Fato. É uma homenagem: uma resenha elusiva para uma obra-prima elusiva!
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“Submissão”, de Michel Houellebecq
Literatura
“Submissão”, de Michel Houellebecq
20 de outubro de 2019 0
Num futuro próximo, um partido islâmico chamado “Irmandade Muçulmana” ganha as eleições na França e começa a modifica o dia-a-dia dos franceses. O desemprego desaba rapidamente, já que as mulheres devem ficar em casa cuidando dos filhos, a poligamia é estimulada, as estudantes universitárias devem cobrir a cabeça e a educação é obrigatória somente até os doze anos de vida. Este é o tema de fundo de “Submissão”, brilhante romance vagamente distópico do francês Michel Houellebecq (Alfaguara, 253 páginas). O livro é contado em primeira pessoa por François, professor de literatura especialista no escritor francês J.K. Huysmans (1848-1907), escritor decadentista, autor da obra-prima “Às avessas” e que se converteu ao catolicismo no final da vida. François é solitário, cínico, e amante de mulheres bem mais jovens que ele.   Assim como seu personagem principal, o romance “Submissão” é cínico e, apesar de parecer contra o islã em uma ou outra passagem, está longe de ser um manifesto antimuçulmano. Independentemente de qualquer coisa, o romance tem passagens engraçadíssimas e, como um todo, é delicioso de ler.   
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“Uma aventura no Brasil Central”, de Horacio Sendacz
Literatura
“Uma aventura no Brasil Central”, de Horacio Sendacz
13 de outubro de 2019 0
Haroldo, no primeiro semestre de 2014, uma época “recheada de más notícias, a maioria delas relacionada a terroristas islâmicos”, resolve sair da cidade em que morava, Curitiba, para dar um passeio em áreas preservadas no Brasil Central. São as aventuras de Haroldo que são descritas em “Aventura no Brasil Central”, de Horacio Sendacz (acessível em https://horaciosendacz.wordpress.com/2018/06/27/aventura-no-brasil-central/). Já no Centro Oeste, Haroldo trava contato com a guia Rafaela, “uma morena de cor jambo, miúda e com um corpo jeitoso”, que não aparentava seus quarenta anos. Na viagem, eles encontram belas paisagens e “seres, obviamente extraterrestres, que tinham aparência quase igual entre si e, como vestimenta, cada um portava apenas um colar com um pingente de pedra semipreciosa”. Haroldo queria saber se eles faziam sexo, e foi informado que eles transavam apenas uma vez na vida, para reprodução, e sem orgasmo. Além disso, eles são “tradicionalmente tristes”. Haroldo e Rafaela são liberados pelos E.T. e, de volta ao passeio no Brasil Central, começam uma série de aventuras sexuais, históricas, antropológicas e policiais – e também conhecem povos, da Terra mesmo, bastante misteriosos, sempre em meio a belíssimas paisagens. Melhor não contar muito para não estragar a surpresa.    De todo modo, o importante é que “Aventura no Brasil Central” é um livro despretensioso e muito, mas muito mesmo, gostoso de ler.
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Catherine Millet, Jacques Henric
Literatura
Catherine Millet, Jacques Henric
6 de outubro de 2019 0
Como se sabe, Catherine Millet é uma respeitada crítica de arte que causou furor, em 2001, ao lançar o para lá de polêmico livro autobiográfico A vida sexual de Catherine M., sobre o qual comentei que ela falava de sua vida de verdadeira libertina (participando de orgias, relacionamentos longos e curtos) como uma crítica de arte. Aproveitando o grande sucesso do livro, o seu companheiro Jacques Henric lançou, ainda em 2001, “Légendes de Catherine M.” (Denoël, 250 páginas) e a própria Catherine lançou em 2008 “A outra vida de Catherine M.” (Agir, 200 páginas, tradução de Hortencia Santos Lencastre). Os dois livros são interligados: o livro de Catherine conta as crises de ciúme que ela teve de Jacques em uma certa época da vida – ciúmes um tanto incoerentes, como ela mesma não cansa de repetir, tendo em vista sua própria vida sexual livre. Já o livro de Jacques Henric mostra uma série de fotos da sua companheira nua – você pode ver algumas delas abaixo – e um longo texto em que o autor fala de sua atração por ela, pelas mulheres em geral, sobre as fotos postadas, com um enorme número de citações literárias e, um tanto paradoxalmente, religiosas – sempre com grande conhecimento de causa, aliás. Dois livros fascinantes de um casal fascinante.
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