“O Oceano no Fim do Caminho”, de Neil Gaiman
Literatura

“O Oceano no Fim do Caminho”, de Neil Gaiman

20 de setembro de 2018 0

Como se sabe, a dificuldade da memória em acessar acontecimentos longínquos e/ou traumáticos é um dos temas principais – ou mesmo o principal – da obra do escritor francês Patrick Modiano, agraciado com o Nobel de Literatura de 2014. É interessante observar que as peças que a memória prega também é um tema fundamental de “O Oceano no Fim do Caminho”, do escritor e quadrinista inglês Neil Gaiman (Intrínseca, 208 páginas), mas sob um ponto de vista da literatura fantástica de terror, na linha de H. P. Lovecraft e Stephen King.

O narrador do romance, já adulto, volta à sua cidade natal no interior por causa de um velório e começa a se lembrar de acontecimentos fantásticos ocorridos décadas antes, quando ele tinha sete anos de idade: iniciados depois do suicídio de hóspede que estava na casa do narrador, estes acontecimentos envolveram pássaros vorazes e monstros de um lado e as mulheres Hempstock (uma filha, sua mãe e sua avó) do outro: elas fizeram virtualmente de tudo para defender o pobre garoto, que mal sabia o que estava acontecendo (não à toa, o próprio Neil Gaiman reconhece que “venera as mulheres”).

Antes dos acontecimentos fantásticos que são o cerne do livro, o narrador descreve seu aniversário de sete anos, no qual nenhum dos convidados compareceu, sua má relação com a irmã e a falta de carinho dos pais. A relação entre a solidão do garoto e a parte fantástica e de terror do livro abre uma perspectiva interessante de análise. Conforme crítica de Rodolfo Lucena Leão na Folha de São Paulo,

“Que ninguém se engane com as bruxarias. Por baixo das fantasias, Gaiman discute questões de fundo, como ele disse numa entrevista ao jornal ‘The Independent’: ‘Quando somos muito pequenos não podemos fazer realmente alguma coisa – não temos poder de decisão, não temos dinheiro nem recursos, às vezes nem temos ideia do que está acontecendo.’”

Realmente, “O Oceano no Fim do Caminho” tem interessantes pontos em comum com a obra de Patrick Modiano.

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