“Ligue os Pontos – Poemas de Amor e Big Bang”
Literatura

“Ligue os Pontos – Poemas de Amor e Big Bang”

13 de dezembro de 2016 0

Todo o mundo conhece Gregório Duvivier. Seja como ator na Porta dos Fundos (eu gosto), seja como colunista na Folha de São Paulo (às vezes gosto, às vezes não gosto, mas é sempre original), seja como aquele engraçadinho que entrou ao vivo num jornal da TV Globo dizendo a famosa frase “primeiramente, fora Temer”. O que eu não tinha ideia era do talento do sujeito como poeta. O seu “Ligue os Pontos – poemas de amor e big bang” (Companhia das Letras, 88 páginas) é excepcional. É um livro luminoso, profundo, surpreendente.

Depois da bela dedicatória para sua então mulher, Clarice Falcão, vem a parte chamada “Cartografia Afetiva”, em que ele, em rápidas pinceladas, descreve diversas regiões e bairros do Rio de Janeiro. “Alguns lugares”, segundo Duvivier, “jazem enclausurados como certos becos de Copacabana que moram em 1993”. O bairro da Urca tem “medo de assalto”, onde ninguém é – isso é paranoia dos militares, avós e “filhas de militares que nunca se casaram” que moram lá. “O Bairro de Botafogo se fosse um senhor usaria óculos de fundo de garrafa”. Já o bairro de São Conrado parece o mês de agosto: “é difícil atravessá-lo”. “O mês de fevereiro nasce em outubro no alto da Floresta da Tijuca” e, quando chega em Ipanema, “já estamos em maio”.

No poema “geração bug do milênio” Duviver lembra do ano de 1998, do que fazia e assistia na época, quando tinha medo que o mundo acabasse no ano 2000 antes de “conseguir beijar alguém”.

Os poemas de amor que ele escreve para Clarice Falcão são muito bonitos. O destaque é “ligue os pontos”, em que ele pega uma caneta esferográfica e liga os pontos sardentos das costas dela enquanto ela dormia. Ele achou que ia descobrir um mapa submerso ou uma constelação oculta, mas achou um “polígono arbitrário” que “não fornecia direções” mas “simplesmente dizia: você está aqui”.

Mas eu acho que o ponto alto do livro são os poemas sobre o Big Bang. Em “no dia seguinte ao big bang” uma “dor de cabeça titânica” devido à ressaca tomou conta dos astros depois dele: o negócio era continuar a beber para resolver o problema. Em “num dia ensolarado” Duvivier conta que até hoje ouvimos, de maneira ensurdecera, o barulho do Big Bang. Parece que não o ouvimos, “só não estamos escutando porque sempre o ouvimos, desde pequenos, mas se ouvíssemos agora pela primeira vez seria ensurdecedor”. A música, ele conclui, serve para “calar o estrondo”.

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