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Blind Willie McTell: o algoritmo perfeito do Country Blues
Música
Blind Willie McTell: o algoritmo perfeito do Country Blues
25 de janeiro de 2026 at 11:00 0
Nos últimos tempos, tenho ouvido alguns artistas de forma intensiva por períodos de poucos meses, para logo depois deixá-los de lado — antes que o interesse se esgote definitivamente, como aconteceu com o Madredeus (nunca é demais repetir). Nesse esquema, tive fases com a banda indie californiana The Brian Jonestown Massacre, o rapper XXXTentacion, a cantora pop Gracie Abrams, a banda de black metal polonesa Mgła, o punk do NOFX, a genialidade de Mozart e o metal denso do Neurosis. Sobre alguns deles já escrevi por aqui, e os links seguem nos nomes citados. A "bola da vez" agora é o cantor de country blues Blind Willie McTell (1898-1959), que nasceu e faleceu no estado americano da Geórgia. Já escrevi outros textos sobre o country blues — o blues rural e acústico que floresceu entre os anos 20 e 60 — que podem ser lidos aqui. É um estilo de que gosto muito; volta e meia a Valéria comentava sobre "aqueles negros antigos" que eu tanto amava ouvir. Entre os muitos bluesmen do início do século XX, confesso que, inicialmente, tive certa dificuldade em me conectar com McTell. Eu o conheci através de Jack White, dos White Stripes, banda que admiro até hoje. White tem uma devoção profunda pelo bluesman da Geórgia: com os Stripes, gravou covers de "Lord, Send Me An Angel" e "Your Southern Can Is Mine", além de ter dedicado a obra-prima De Stijl (2000) inteiramente a McTell e ao designer Gerrit Rietveld. Essa admiração seguiu em sua carreira solo, onde ele continuou a evocar o mestre, seja em performances ao vivo de "The Dying Crapshooter's Blues" ou no lançamento de coleções raras de McTell através de seu selo, a Third Man Records. Outro que admira profundamente o cantor é Bob Dylan, que lançou a música "Blind Willie McTell" em 1983, considerando-o um "evangelista do blues" — alguém capaz de transformar a dor em algo transcendente e tecnicamente perfeito. Apesar dessas referências, no início dos anos 2000, as gravações de McTell me soavam estranhas: achei que havia ragtime demais e blues de menos. Eu estava errado, claro. Blind Willie McTell é mais suave que contemporâneos como Charley Patton, Blind Willie Johnson ou Blind Lemon Jefferson, e suas melodias no violão de doze cordas são lindas e viciantes. Cego de nascimento e de família pobre, ele teve uma educação formal rara: era alfabetizado em Braille, o que lhe permitiu desenvolver uma compreensão intelectual e estruturada da música — sofisticação que transparece em suas composições. Segundo a Wikipédia:
“Ele nunca produziu um disco de grande sucesso, mas teve uma prolífica carreira em diferentes gravadoras e sob diversos nomes nas décadas de 1920 e 1930. Em 1940, foi registrado pelo folclorista John A. Lomax para a Biblioteca do Congresso. Permaneceu ativo nas décadas de 1940 e 1950, tocando nas ruas de Atlanta, muitas vezes com seu parceiro Curley Weaver. Suas últimas gravações surgiram em uma sessão improvisada em 1956. McTell faleceu três anos depois, devido a complicações do diabetes e do alcoolismo, sem viver para ver o renascimento da música folk em que muitos de seus pares foram 'redescobertos'.”
Agora que escuto Blind Willie McTell boa parte do dia, pego-me pensando no que já comentei aqui: como seria incrível ter uma máquina do tempo para conhecê-lo e vê-lo tocar ao vivo, junto a outros gigantes daquela época. *** Se você estiver interessado em receber este e outros textos meus semanalmente, clique aqui e cadastre seu e-mail. Imagem que acompanha o texto: Blind Willie Mctell em Novembro de 1940 durante uma sessão de gravações num quarto de hotel em Atlanta, Geórgia, para John e Alan Lomax, obtida na Wikipédia
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