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Literatura
Trecho inicial da minha novela “Morrissey”
10 de março de 2019 at 12:18 0
Morrissey - fonte: Billboard

- De jeito nenhum, delegado.

- Mas como assim, como é que você pode ter certeza?

- Tenho. Ele é um poeta, um homem estudado...

- Poetas e homens estudados não podem acreditar?

- Eu acho que não.

- Mas você sabe que a coisa não é bem assim, né?

- Eu acho que nenhum homem estudado, com talento, pode acreditar em Deus.

- Tá, vá lá, então o Morrissey não acredita em Deus e escreveu uma música chamada I have forgiven Jesus porque na verdade queria falar do seu desejo de matar alguém.

- Qualquer um pode ver isso, delegado... ah lá: Why did you give me so much desire? / When there is nowhere I can go / To offload this desire? Tá aí. Tá com desejo de matar.

- Ele disse que está com desejo de amor, é só ler a continuação da letra: And why did you give me so much love / In a loveless world / When there is no one I can turn to / To unlock all this love? Então você está dizendo que o amor que ele fala aqui é “metafórico”?

- Claro.

- Baseado exatamente no quê?

- Se fosse desejo de sexo, e aí até eu poderia aceitar, ele ia falar sexo, não amor. Ou você acha que um cara que tem tanto desejo assim de amor ia reclamar de falta de amor? Ninguém tem desejo assim de amor!

("Morrissey" é a segunda novela do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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Literatura
Trecho inicial de “O verão de 54 (novelas)”
4 de fevereiro de 2019 at 20:25 0
Clarice Lispector - fonte: InstitutoMoreiraSalles

Tudo começou quando a Valéria me contou que havia sonhado com a Clarice Lispector lhe dizendo que eu teria que escrever um livro chamado “O verão de 54”. Além deste, a escritora acrescentava que eu deveria, ainda, compor outra obra, sobre a Rússia. Bem, o Stálin é um personagem fascinante e a ideia de escrever uma espécie de monólogo interior sobre os dias dramáticos depois da invasão da União Soviética pela Alemanha, quando o ditador soviético aparentemente entrou em colapso nervoso, pareceu-me, de cara, uma boa ideia. É claro que eu teria que ler muitas biografias do ditador russo, fazer pesquisas, coisas que meu trabalho como engenheiro impossibilitaria – ou, no mínimo, dificultaria muito. Quem sabe um dia.

Assim como a ideia do hipotético livro sobre a Rússia, a ideia da história do “O verão de 54” me veio imediatamente à cabeça. Seria a paixão de um homem mais velho por uma mulher bem mais jovem, ele muito rico, ela de classe média baixa, aqui em Curitiba mesmo. O problema estava no título: “O verão de 54” significava que o livro deveria se passar, pelo menos em parte, muitas décadas atrás. Meus pais nasceram no início dos anos 40, poderiam me ajudar com alguma informação sobre aquela época. Minha sogra nasceu nos anos 20, também poderia contribuir com alguma coisa.

Meu protagonista seria rico e jornalista. Rico e jornalista, naquela época, até onde eu sei, só se fosse proprietário de uma grande empresa de comunicação. Ele poderia então ser filho do dono de um grande jornal – uma solução interessante, já que eu não imaginava meu protagonista com grande espírito empresarial. Claro que um empreendedor de primeira linha (o que combinaria com um fundador de um grande jornal) poderia se apaixonar por uma moça mais jovem, mas eu imaginava um protagonista mais passivo.

Tudo começou com um sonho que Paulo teve com Maria, secretária de seu pai. Pai e filho trabalhavam em salas contíguas e ela ficava na antessala dos gabinetes dos dois, juntamente com outras duas secretárias, Nicole e Amanda.

Comecei. Consegui criar um ambiente, um local – será que as coisas eram assim mesmo na sede de um jornal décadas atrás?

(trecho inicial do meu livro "O verão de 54 (novelas)", a ser publicado em meados deste ano)

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