Duas atrizes
Cinema

Duas atrizes

9 de março de 2015 1

I – A Berma

Era enorme a expectativa do Narrador ao assistir a Berma pela primeira vez. Como tinha saúde frágil, seu médico tinha proibido a sua ida ao teatro – esta proibição acabou quando o influente embaixador M. de Norpois recomendou que ele fosse assistir a Berma interpretando Fedra, a peça clássica de Racine. O Narrador, esclareçamos agora, é quem conta a história em primeira pessoa no romance “Em Busca do Tempo Perdido”: ele é comumente chamado assim porque  praticamente não se nomeia durante o livro, uma das obras-primas da literatura universal. O Narrador, importante ressaltar, é grandemente baseado no próprio autor da obra, de forte conotação autobiográfica, Marcel Proust.

Voltando à história: após uma longa expectativa, finalmente o Narrador foi ver a peça – uma decepção. Ele esperara tanto por aquele momento, a Fedra interpretada pela Berma parecia-lhe um ápice artístico inigualável – mas, quando finalmente o espetáculo começou, o Narrador simplesmente não conseguiu notar o que havia de tão diferente entre a Berma e os demais atores. Mais tarde, ouvindo um comentário aqui e outro ali, somado à enorme atenção que tivera na atuação da atriz, o Narrador acabou quase se convencendo da grande interpretação dela.

Anos mais tarde o Narrador tem novamente oportunidade de assistir a Berma representando Fedra. Desta vez, ao contrário da primeira, ele não tinha praticamente nenhuma expectativa – mas finalmente entendeu a grandeza da atriz. O desempenho desta tinha se tornado tão transparente, tão cheio do que interpreta, que ela não se via mais a ela própria e a artista não era mais que uma janela que dá para uma obra-prima. A interiorização da artista era tão profunda e completa que não se notavam as intenções da artista, nem em inflexões de voz nem em mímica, ao fazer o papel – era como se a Berma fosse a própria Fedra. O Narrador, ao contrário da primeira vez em que a vira interpretar o papel, não queria mais imobilizar as atitudes da Berma, (…), nem fazer com que dissesse cem vezes o mesmo verso. Finalmente ele compreendia que não se podia exigir isto da atriz, já que aquele encanto esparzido de mão sobre um verso, aqueles gestos instáveis perpetuamente transformados, aqueles quadros sucessivos eram o resultado fugitivo, o fim momentâneo, a móvel obra-prima que a arte teatral se propunha, e à qual destruiria, querendo fixá-la.

Depois da Fedra, o programa previa que a Berma atuasse em outra peça, desta vez de um autor moderno. O Narrador tinha dívidas sobre se a grandeza da atriz não residia em grande parte no texto de Racine, mas estas acabaram assim que nova peça começou. Seu desempenho foi novamente sublime: tanto nas frases do dramaturgo moderno como nos versos de Racine, a Berma sabia introduzir aquelas vastas imagens de dor, de nobreza, de paixão, que eram as obras-primas dela própria e em que a reconheciam, como se reconhece um pintor em retratos que pintou segundo modelos diferentes.

II – Fernanda Montenegro

A interpretação de Fernanda Montenegro no belo filme Central do Brasil, de Walter Salles Jr. foi de um sucesso de critica espantoso – chegou a concorrer ao Oscar de melhor atriz, numa rara concessão a um filme não falado em inglês. Fui assisti-lo com grande expectativa – mas a minha decepção foi aumentando à medida que o filme transcorria. O que tinha de tão espetacular a sua interpretação? Eu não estava conseguindo entender.

Fernanda Montenegro faz o papel de Dora, uma mulher de caráter duvidoso e que sobrevive escrevendo, no Rio de Janeiro, cartas ditadas por imigrantes para serem enviadas a seus parentes que ficaram no Nordeste. Em grande parte das vezes, ela promete a seus clientes que vai mandar as cartas mas não as manda, ficando com o dinheiro dos selos. Na verdade, pensava eu, não havia nada de tão extraordinário naquela mulher pobre, aproveitadora, porém não de todo má. Neste ponto, em torno do meio do filme, é que entendi o segredo de Fernanda Montenegro: era como se ela fosse a própria Dora. Não havia a menor teatralidade em seus gestos, em seu falar, em seus modos. Até a sua maneira de sentar era a de uma mulher do povo. As características que muitas vezes são relacionadas a uma grande interpretação, como grandiloquência e dramaticidade, estavam completamente ausentes de sua interpretação minimalista e enormemente autêntica.

Para completar o paralelo entre a Berma e a maior atriz brasileira, eu teria de comentar a sua atuação numa peça clássica. Ironicamente, eu realmente assisti a Fedra interpretada pela Fernanda Montenegro há muitos anos, no Teatro Guaíra em Curitiba. A peça me impressionou grandemente, mas é tudo o que lembro para que possa comentar aqui. Fico então com as palavras de Millôr Fernandes: o papel [de Fedra] lhe cabe como uma luva. Imagem aliás absolutamente imprópria numa  época em que ninguém mais usa luvas.

P.S.: Depois de ter terminado o texto acima, assisti Wilde, filme de 1997 do diretor Brian Gilbert sobre o grande escritor irlandês do final do século XIX. Stephen Fry, o ator que vive o protagonista, tem uma atuação estupenda, profunda e cheia de nuances.

A decisão do roteirista, que privilegiou um retrato realista e completo de Oscar Wilde – não dando portanto destaque excessivo a seus ditos espirituosos (o que poderia ter tornado o filme tendencioso e exagerado), permitiu a Fry a possibilidade de atuar de maneira totalmente natural, muito distante da caricatura. Como em Central do Brasil, em Wilde se assiste o filme como se o protagonista fosse o próprio escritor, e não um ator fazendo o seu trabalho.

(texto escrito em meados de 2004)

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There is 1 comment

  • Ary Quintella disse:

    Muito bom ler esse texto seu, porque justamente andei pensando na Berma, vendo a Fernanda Montenegro em “A Vida Invisivel”. Espera-se 2 horas até ela aparecer na tela do cinema. Eu temia ficar desapontado, como o narrador de Proust com a Berma. Pensei na Berma durante o próprio filme. Aconteceu o contrário. Ela aparece, fica 15 minutos na tela, e o filme todo fica claro. Acabo de escrever uma crônica em que menciono a Berma. Aviso quando publicá-la. A propósito: tb vi a FM no papel de Fedra. Não ficou uma lembrança tão boa assim.

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