Marie de Bernadaky
Literatura

Marie de Bernadaky

8 de junho de 2015 0

Por mais que eu tente, não conseguiria exagerar a importância de Marcel Proust na minha história, como direi, “literária”. Li os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, no final dos anos 80, quase que de uma sentada. Tudo na obra me fascinou: as enormes digressões em que o autor nunca perde o fio da meada; as descrições de músicas, pinturas e peças de teatro (muitas delas imaginadas por Proust); as relações inesperadas entre fatos ou sensações que nada parecem ter a ver um com os outros; o estilo. A obra é composta em primeira pessoa por um personagem cujo nome praticamente nunca aparece, mas que é quase que totalmente baseado no próprio Proust: “Em Busca do Tempo Perdido” é, ao mesmo tempo, um romance e uma espécie diferente de livro de memórias.

Como tantos outros proustmaníacos, sempre tive o desejo de reler “Em Busca do Tempo Perdido” e, desde que terminei de ler a obra, tentei atingir este objetivo algumas vezes. Cheguei uma vez até à metade de “O Caminho de Guermantes”, o terceiro da série, mas parei por ali. Nestas tentativas, acho que já cheguei a reler “O Caminho de Swann”, o primeiro livro, umas duas ou três vezes.

A minha mais recente tentativa de releitura em “Em Busca do Tempo Perdido” começou uns dois anos atrás. Li os dois e maiores capítulos de “O Caminho de Swann”, “Combray” e “Um Amor de Swann”, em português, e parei de novo. Recentemente resolvi retomar a leitura, mudando um pouco a “tática”: duas páginas por dia em francês, com dicionário (eu odeio ler em outras línguas com dicionário). Quem sabe agora vai. Com esta nova “metodologia” de leitura, já terminei o terceiro, último e mais curto capítulo de “O Caminho de Swann”, chamado “Nome de Terras: O Nome”.

O assunto mais importante (praticamente o único) de “Nome de Terras: o Nome” é o amor do autor por Gilberte Swann, a filha de um amigo dos pais dele, Charles Swann (o personagem principal do segundo capítulo de “O Caminho de Swann”, “Um Amor de Swann” – praticamente um romance à parte dentro de “Em Busca do Tempo Perdido”).

É patético o amor do personagem autor por Gilberte: eles se encontram sempre no jardim dos Champs Elisées, em Paris, e a grande expectativa da vida de Proust era saber se ela iria também, para brincarem juntos: se chovesse, ou nevasse, ela provavelmente não iria e a tristeza do autor seria enorme. A luta dele com as nuvens ameaçadoras do céu é uma das muitas passagens inesquecíveis do capítulo.

Gilberte Swann na vida real chamava-se Marie de Bernadaky, e era uma filha de um nobre polonês. Foi o grande amor da infância/adolescência de Proust, e até o final da vida ele se referiria a ela como “o grande amor de sua vida”. Marie de Bernadaky não correspondia ao amor do futuro escritor, e a mãe dele também não aprovava esta paixão, já que ela causava um grande sofrimento para ele. Com isto, Proust acabou decidindo nunca mais ver Marie de Bernadaky (o que realmente acabou ocorrendo).

Depois deste trauma inicial, Proust começou a procurar em outros homens o amor que a menina que amara não tinha lhe dado. Se ele teria sido heterossexual caso Marie de Bernadaky tivesse lhe correspondido é uma questão que jamais será respondida.

(texto publicado no Mondo Bacana em 11 de fevereiro de 2015)

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