Nem sempre a leitura de uma obra-prima é fácil: estão aí os romances de Marcel Proust, William Faulkner e Javier Marías que não me deixam mentir. Outros autores escrevem livrosde leitura prazerosa, mas que estão distantes de serem clássicos: são os casos de Nick Hornby e Haruki Murakami. É claro que muitas obras-primas permitem uma leitura relativamente fácil (casos de “Ana Karênina” de Tolstói ou “O Castelo” de Kafka), mas “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura (também colunista do jornal Folha de São Paulo), se destaca especialmente pela união de um estilo saboroso como com uma excepcional qualidade literária. Se não bastasse isso, a obra é representante de uma categoria que normalmente não me agrada muito, o “romance histórico”: eu tendo a achar que ou bem o livro é de História ou bem é de ficção – quando a obra é híbrida, me dá a impressão de que não cumpre bem nenhum dos dois papéis. Preconceito é sempre uma coisa besta, né? “O homem que amava os cachorros” é um romance ao mesmo tempo histórico e espetacular.
O livro conta a história de um acontecimento especialmente dramático do século XX: o assassinato do revolucionário soviético Leon Trotski no México, sob as ordens de seu desafeto, o ditador soviético Josef Stalin. Os capítulos são escritos, de maneira mais ou menos alternada, sob três pontos de vista: o do assassino de Trotski, o catalão Ramón Mercader (que, para se disfarçar, utiliza vários outros nomes no decorrer do livro); o do próprio Leon Trotski; e o do personagem fictício que faz o papel do “escritor” do romance, o cubano Iván Cárdenas Maturell. Os capítulos referentes a Mercader e a Trotski são escritos em terceira pessoa e os correspondentes a Maturell, em primeira pessoa.
O romance apresenta todo o processo pelo qual passou Ramón Mercader para o assassinato de Trotski: espanhol, ele não só ganhou um passaporte belga (com o nome de Jacques Mornard) como foi treinado para “pensar” como um belga totalmente diferente de quem era. Ao contrário do duro revolucionário que era Ramón Mercader, “Jacques Mornard” era um playboy belga desinteressado por política – era o disfarce que seus orientadores soviéticos criaram para que ele pudesse entrar na fortaleza em que vivia no México o exilado Trotski. Quanto a este, “O homem que amava os cachorros” mostra os sucessivos exílios pelos quais passou (Turquia, Noruega e México), suas desilusões com os rumos da União Soviética, seus raros prazeres (como a vida em família e seus cães), sua aventura intelectual. Finalmente, através da história da vida do escritor Iván o leitor toma contato com os grandes ciclos econômicos de Cuba – a relativa fartura dos anos 80, a fome dos anos 90 depois da glasnost de Mikhail Gorbachev – e com alguns detalhes da vida sob o socialismo da ilha caribenha: a repressão, a falta de perspectivas, o fim das ilusões.
No longo (mais de 700 páginas) “O homem que amava os cachorros” (Boitempo), a história das personagens vai se descortinando aos poucos (boa parte do que é contado sobre Ramón Mercader, aliás, foi deduzida pelo autor pelo fato de haver poucas informações fidedignas sobre o assassino de Trotski), e o maravilhosos estilo de Leonardo Padura faz com que em basicamente nenhum momento o livro perca o interesse.
Por último, mas não menos importante, o romance deixa para o leitor um travo amargo a respeito do socialismo real: tantas ilusões, tantas utopias… para tão trágicos resultados.
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