A apresentação
Impressões

A apresentação

18 de junho de 2015 0

Não, eu não poderia ir. Por mais que ela chorasse, por mais que esperneasse, eu não poderia ir na apresentação de fim-de-ano da minha filha. E ela estava chorando, ela estava esperneando.

Antes que me chamem de insensível, deixe-me explicar: minha filha tinha pego um forte resfriado, que a impedira de ir às aulas durante duas semanas. O dia em que ela retornou às aulas foi exatamente o dia da apresentação: os alunos passariam a tarde toda ensaiando e, então, fariam a apresentação. Às quatro e meia da tarde. Eu tinha que trabalhar naquele horário pavoroso. Será que o pessoal do Colégio Sion não sabe que os pais trabalham durante a tarde?

Não dava. Minha filha que chorasse. Se ela não quisesse fazer parte da apresentação, iríamos trazê-la de volta para casa. A professora dela a convenceu a ficar – e pronto. Ela iria se apresentar, iria ensaiar… e eu não veria nada. Não tinha mesmo jeito.

Surpreendentemente o meu trabalho do turno da tarde estava mais tranquilo que o normal e eu poderia sair. Eu não gosto muito de sair cedo, mas ótimo. A mãe da minha filha também, inesperadamente, pôde sair mais cedo que o normal e, às quatro e quinze da tarde, estávamos no Colégio Sion para assistir a apresentação de final de ano dos alunos do Jardim II.

Chegando lá, havia uma pequena confusão de professores, pais, auditórios e salas. Após caminharmos meio sem rumo pelos corredores do Colégio, finalmente chegamos na sala do Jardim II, onde seria a apresentação dos alunos. Era uma sala estreita e comprida, e as cadeiras formavam duas filas voltadas para o quadro negro, permitindo um espaço razoável para os alunos se apresentarem. A boa parte dos pais (como eu) foram reservadas cadeiras de criança, estranhamente confortáveis, dado o seu tamanho diminuto. Assim que nos instalamos, fiquei sabendo que nossa filha nos tinha visto enquanto passávamos pelo corredor (eu não tinha percebido isto).

Após uma pequena espera o espetáculo finalmente começou. Não sei se os alunos ensaiaram quando da ausência da minha filha. Provavelmente não. Eles, de forma geral, se apresentaram de forma completamente atabalhoada e desorganizada – por mais que uns dois ou três meninos, que tinham umas falas maiores, até que não tenham se saído mal. Um deles chegou, deitou, outro então veio, falou algo sobre o espírito do Natal e tal. Não lembro bem. Depois entraram umas meninas, que ficaram paradas, em pose de bailarina (será que era isto?). Os meninos que apareceram no começo do espetáculo então tocaram com uma espécie de varinha de condão as “bailarinas”, que começaram a rodar, de forma quase que completamente caótica e sem a menor sincronia. De bailarinas elas tinham praticamente só mesmo as roupas. Depois deste início confuso todos os alunos se perfilaram e cantaram, desafinadamente, uma (ou duas?) canção de Natal. O espetáculo, finalmente, terminara.

Provavelmente eu nem estaria contando aqui esta história se não fosse o olhar de felicidade da minha filha. Santa Teresa de Jesus dizia que o verdadeiro êxtase espiritual está bastante distante da histeria, e eu nunca tinha visto uma felicidade tão separada de qualquer tipo de afobação como o da minha filha naquela tarde. Nós, adultos, estamos acostumados a ver alegrias esfuziantes e quase histéricas, como a de um torcedor que pula e grita quando seu time faz um gol numa final de campeonato contra seu mais aguerrido adversário, ou quando algum ganha uma grande quantidade de dinheiro e berra de felicidade. O olhar da minha filha não tinha nada desta alegria que faz a pessoa ter vontade de pular e de gritar. Era apenas uma alegria que não precisava demonstrar nada, não precisava gritar nada, não precisava falar nada. Ela errava quase todos os passos da dança, sorrindo imensamente e nos olhando com um olhar de imensa felicidade. (Mais tarde ela chegou a nos perguntar: “vocês estavam brincando comigo quando falaram que não vinham, só para fazer surpresa pra mim, né?” Concordamos, claro.)

Quanto à minha reação (eu fiquei com uma cara seríssima durante todo o espetáculo, tentando disfarçar as lágrimas que, por mais que me esforçasse, insistiam em escorrer em grande quantidade pelo meu rosto), posso garantir que esta não teve importância nenhuma.

(texto escrito em 2002)

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