O Conde d’Abranhos
Literatura

O Conde d’Abranhos

16 de maio de 2015 0

Depois da gratíssima surpresa que tive com a leitura de “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós, foi com a melhor das expectativas que comecei a ler outro livro do grande escritor português, o póstumo O Conde d’Abranhos, da Coleção Grande Obras da Literatura em Miniatura, da Planeta DeAgostini (ver mais detalhes aqui).

Logo na introdução, a surpresa: o livro, segundo Eça, é apenas uma tentativa de homenagear o grande caráter moral, grande político, o grande homem Conde d’Abranhos – de quem o autor tinha sido secretário durante quinze anos. Fora a influência do Conde que fez Eça deixar as “perniciosas idéias democráticas” e socialistas para se tornar um cristão convicto e monarquista conservador.

Estranho isto, pensei comigo. Primeiro por que o tom laudatório e unidimensional não costuma combinar com um escritor de primeira linha. Além disso me pareceu um pouco estranha esta conversão ao conservadorismo da parte de Eça – conversão esta da qual eu nunca tinha ouvido falar. De todo o modo, acabei aceitando o fato por que conheço pouco sobre sua vida e acabei lembrando que também era monarquista, cristão e conservador outro gigante da literatura, Balzac.

Mas estranho mesmo era este trecho da introdução:

(O Conde d’Abranhos) um dia exclamara na Câmara dos Deputados (sessão de 15 de Agosto, «Diário do Governo» nº 2758):«Não podemos dar ao operário o pão na terra, mas obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no Céu banquetes de Luz e de Bem-aventurança!»

E quem negará aí que não seja esta a verdadeira maneira de promover a felicidade das classes trabalhadoras?

 

Neste ponto acabei pensando que Eça ficara maluco. Mas, sabe-se lá, a mentalidade da época poderia ser diferente. Conformei-me novamente.

Depois da introdução e mais algumas páginas do corpo do livro, acabei interrompendo a leitura do Conde d’Abranhos. Afinal de contas, este Eça era muito diferente daquele que eu estava acostumado. Melhor mesmo ficar com a boa impressão d’A cidade e as serras.

Mesmo assim, comecei a dar umas rápidas olhadelas em partes aleatórias do livro. O estilo já começava a me parecer vívido e, estranhamente, Eça não escondia os defeitos do Conde – por mais que sempre os justificasse e acabasse por elogiá-lo.

Até que acabei procurando sobre o livro na internet e achei uma página. O mistério, afinal, era-me desvendado! Tudo era fictício no livro – a começar pelo Conde e por seu secretário, que não era Eça e sim um tal de Zagalo, um personagem criado para contar a história elogiando Abranhos mesmo quando ele fazia as maiores barbaridades: o conde, na verdade, era um sujeito mesquinho, fingido, completamente sem caráter, capaz de literalmente qualquer coisa para obter poder e dinheiro.

Obviamente senti-me um idiota quando descobri que estava diante de uma obra de ficção, e não de uma elegia a um personagem real como eu tinha pensado antes. A auto-reprovação, contudo, logo cedeu lugar ao prazer em retornar a ler O Conde d’Abranhos.

O livro, agora, me parecia ácido, debochado, engraçadíssimo. Todas as péssimas atitudes do conde são elogiadas e/ou justificadas pelo seu secretário Zagalo: Abranhos abandonara o pai na miséria por que era uma alma sensível e sofisticada, que não suportava, por exemplo, o chiado daquele quando tomava sopa; abandonara o filho que tivera com a empregada por que esta era “inconveniente” e o conde era uma personalidade superior; como político, mudava de partido apenas para ir aonde estava o poder por que tinha uma grande visão das coisas; era um Ministro da Marinha que tinha repulsa até em olhar o mar – o que não era nenhum problema, pois a Abranhos só interessavam as grandes questões.

Mas não é só descrevendo o Conde d’Abranhos que Eça é brilhantemente ácido: existem outros personagens inesquecíveis no livro, como o Conselheiro Gama Torres – que apenas repetia, sério e compenetrado, quando lhe faziam qualquer pergunta sobre política: “há questões! Há questões terríveis, a miséria, a prostituição…” (*).

Segundo o site supracitado, «O Conde d’Abranhos» foi deixado apenas em forma de esboço. Como afirma o seu filho, que em 1925 transcreveu e publicou a obra, é natural que o autor planeasse revê-la por completo, dando um tom mais moderado e subtil à caricatura que esboçou. Eça de Queirós teria então eliminado o que pudesse ser «excessivo no ridículo ou exagerado na perversidade». O romance ter-se-ia tornado mais subtil e menos caricatural, mas não teria, quase certamente, deixado de dirigir as suas farpas aos mesmos alvos.

Fica a pergunta: teríamos mais prazer em ler um O Conde d’Abranhos mais sutil e menos caricatural?

Tenho sinceras dúvidas a este respeito.

(*) vale a pena ler esta descrição do Conselheiro Gama Torres presente em O Conde d’Abranhos:

“Muitas vezes, segundo me contou o Conde, durante os meses de Estio em que a política, refugiada na sombra das quintas ou na frescura das praias, dormita, o redactor da Bandeira, sem assunto para o seu artigo de fundo, recorria ao génio do Conselheiro, como um pobre envergonhado. Gama Torres, porém, colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas, fitava o soalho e.23 bamboleando o crânio fecundo, murmurava surdamente:

– Ele há muitas questões!… Há questões terríveis. Há a prostituição… o pauperismo… Ele há muitas questões…

Mas, repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma ideia. Não o censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu génio às grandes questões sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual – sempre que diante dele se falava de assuntos políticos – ouvi-lo murmurar soturnamente:

– Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São grandes questões! Questões terríveis!

E pareciam com efeito terríveis essas questões, de uma tenebrosidade de abismo, quando se via o olhar esgazeado com que ele parecia contemplá-las mentalmente.

Pouco tempo antes da sua morte, lembro-me de o ter visto, uma noite, em Casa do Conde, numa ocasião de crise ministerial, e nunca esquecerei a terrível impressão que me deixou aquele grande homem, de pé no meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente:

– Os senhores podem crê-lo, nem tudo são chalaças; ele há questões terríveis… A prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo… Questões terríveis.

E no silêncio apavorado que deixara aquela voz profética, em que se sentia a ameaça de graves tormentas sociais rolando do fundo do horizonte, aproximei-me instintivamente do Conde, como quem procura asilo seguro.

Tal era o director da Bandeira. Devo acrescentar que os únicos artigos que ele dava para o jornal anunciavam as suas jornadas para a Ericeira, ou os partos frequentes de sua esposa, ou ainda os progressos da sua doença de bexiga: artigos curtos, de resto, mas numa linguagem tersa, firme, grave, em que se sentia o homem de Estado!”

(texto escrito em 2003)

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