Hitler tem sangue mongol?
História

Hitler tem sangue mongol?

7 de julho de 2015 0

Quando assassinou o jornalista Fritz Gerlich na Noite dos Longos Punhais, a Gestapo mandou para a sua viúva os seus óculos ensanguentados. Os óculos de alguém que enxergou demais. Esta imagem aterradora é apresentada no livro Para entender Hitler (Ed. Record, 2002), do jornalista Ron Rosenbaum.

No livro citado acima também se pode ler este trecho:

A foto tem a capacidade de chocar: Adolf Hitler casando-se com uma noiva negra. Mais de seis décadas depois, esta extraordinária fotomontagem da imagem de Hitler, de cartola e casaca, de braços dados com uma noiva negra, numa cena de êxtase nupcial, apareceu na primeira página de um dos principais jornais de Munique, esta representação jocosa de Hitler – num contexto de decapitação, miscigenação, sexo transgressor e violenta desfiguração – ainda desprende uma aura de temeridade, de perigo.

Esta descrição de uma fotomontagem  – que eu não vi, já que não há nenhuma reprodução no livro e não consegui achar nenhuma reprodução na internet – me é profundamente assustadora, e meu objetivo aqui é tentar entender o porquê disso. Para começar é necessário explicar quem era o jornalista cuja morte foi descrita no primeiro parágrafo.

Personalidade contraditória, Fritz Gerlich foi um crítico acerbo de Hitler – apesar de ser conservador. Praticamente retirado do esquecimento graças ao livro de Ron Rosenbaum, ele era o editor do jornal anti-hitlerista Der Gerade Weg entre os anos de 1923 a 1933 – ano em que ele e seus colaboradores foram caçados pelos nacional-socialistas e enviados a campos de concentração, poucos meses após a chegada de Hitler ao poder. Existem indícios de que a Gestapo, antes de mandar Gerlich para Dachau (onde seria assassinado), retirou do prelo um exemplar explosivo de seu jornal, que esclareceria definitivamente a rumorosa morte do grande amor de Hitler, sua sobrinha Geli Raubal (há quem diga que este exemplar, nunca mais encontrado, provaria que Raubal fora assassinada pelo próprio Hitler).

Voltemos então à foto descrita acima: ela apareceu na capa de uma edição do Der Gerade Weg de julho de 1932, cuja manchete principal era “HITLER TEM SANGUE MONGOL?”. No artigo escrito com este título Fritz Gerlich usa as teorias raciais dos nacional-socialistas contra o próprio Hitler. Inicialmente ele comenta que aquela fotomontagem (que ele diz, cinicamente, que fora mandada por um leitor) o fez pensar que, afinal de contas, havia uma semelhança inesperada entre a “noiva” negra de Hitler e o próprio Hitler. A partir disto Gerlich usa a tese do principal “biólogo racial” do Reich para provar, levando em conta descrições de narizes de várias raças, que o nariz de Hitler não era o de um ariano e sim o de um eslavo – mas de um tipo bastardo de eslavo, formado pela mistura, após a invasão huna de mongóis, com o tipo sanguíneo original eslavo (o próprio nome Hitler tem uma certa origem eslava). O que deixava isto ainda mais grave era que, para os nacional-socialistas, o nariz é o sintoma mais importante na ascendência social de uma pessoa. Neste artigo irônico e explosivo ainda havia mais: segundo o principal ideólogo nazista, Rosenberg, o traço sociológico mais importante dos arianos é a sua independência e a sua liberdade, tanto que, segundo ele, os duques germânicos não tinham grande poder sobre seu próprio povo. Ainda segundo Rosenberg, os asiáticos, como Gêngis Khan, são despóticos e ditatoriais. Isto é o suficiente para que Gerlich conclua que Hitler não só tinha sangue, mas também a alma mongol, já que no seu partido a única vontade que existia era a dele, que ele nunca precisava explicar o que fazia, e que os seus seguidores tinham de obedecê-lo sem qualquer informação.

Conforme o autor de Para Entender Hitler explica, Fritz Gerlich absolutamente não acreditava nestas teorias absurdas de supremacia por causa do formato do nariz. O que ele quis foi provocar profundamente Hitler, colocando a nu a fragilidade de sua própria teoria racial: como classificar uma pessoa como racialmente superiora se o próprio Führer não se coadunava nestes traços raciais “ideais”? E Gerlich realmente provocou Hitler, conforme provam seus óculos ensanguentados.

O autor de Para Entender Hitler, Ron Rosenbaum, além de jornalista, é formado em literatura inglesa pela Universidade de Yale. E é, realmente, com maestria que ele joga com palavras e imagens. Em seu livro ele fala diversas vezes de uma certa estranheza de Hitler – mas não deixa claro se esta estranheza é dele mesmo (uma forma velada de se referir ao demônio?) ou de suas feições pouco arianas. Em outros momentos do livro o autor fala de mistérios da vida de Hitler que provavelmente jamais serão esclarecidos (como a edição de Der Gerade Weg retirada do prelo pela Gestapo que esclareceria a morte de Geli Raubal). Em outros trechos ainda ele comenta segredos terríveis  da obscura família de Hitler, ou analisa o profundo ódio de Hitler, quase como se fosse um sentimento além da compreensão humana. Este clima próximo ao sobrenatural permeia boa parte do livro. Mesmo o jornal de Fritz Gerlich é mostrado como algo quase esquecido, secreto, como se fosse um segredo de uma seita obscura.

Já a descrição da fotomontagem (cuja imagem, repito, não aparece no livro e eu nunca vi) é, por si só, surrealista ao modo de um pesadelo: afinal, imaginar Hitler casando com uma negra assusta como um palhaço assassino de criancinhas. Esta analogia é válida porque, casando com uma negra, ele passa a ter uma imagem não racista e quase simpática. Mas, exatamente como o palhaço assassino, esta roupagem agradável é apenas mais um estratagema que o Mal utiliza ao atrair suas vítimas indefesas para, então, torturá-las e executá-las. A diferença entre os dois está no fato de que, ao contrário do palhaço do pesadelo, Hitler assassina criancinhas (e jornalistas que enxergam demais) no mundo real. O que o faz ainda mais assustador.

(texto escrito em 2001 –  já consegui obter a fotomontagem comentada acima na internet, e é a imagem que acompanha o texto)

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