O autógrafo
Música

O autógrafo

16 de junho de 2015 1

Do meu lado, no check-in do aeroporto de Cumbica, em Só Paulo, uma mala. Foi a primeira coisa que vi. Ela estava cheia de etiquetas, cada uma representando um aeroporto em uma diferente parte do mundo. O dono da mala era um português gordo, cansado, suado – meio desanimado de tanto viajar, acredito.

A lembrança seguinte que tenho do ocorrido é, estando já um pouco longe do check-in, olhar para o lado e ver, a uma certa distância, um grupo razoavelmente grande de pessoas. Pude ouvir um pouco o que eles falavam, e achei que eram portugueses. Fixei o olhar e vi que que tinha uma mulher no meio deles. Olhei para a Valéria, do meu lado, e falei:

– Valéria, acho que ali está a Teresa Salgueiro.

Era impossível acreditar. A cantora que havia embalado meu sono durante, pelo menos, uns seis meses  – eu colocava a fita que tinha com os Madredeus (descrita aqui), todas as noites, para dormir. A minha cantora preferida desde a primeira vez que a vi, numa propaganda da TV Cultura. A expressiva e bela Teresa Salgueiro, ali, na minha frente.

Não era fácil ser fã dos Madredeus naquela época. Eu só tinha um único disco da banda, Existir, que comprei, até hoje não sei como (nem o pessoal dos Madredeus sabia que tinham lançado um disco deles por aqui), numa loja de discos em Curitiba aonde só fui umas três vezes. E tinha aquela fita de vídeo, gasta de tanto ser vista. Ainda não tinha acessado a internet (o ano era 1995). Não sabia nada sobre a banda – nem quantos discos, nem quando começaram, nada.

E a Teresa Salgueiro, ali, pertinho, pedindo para me dar um autógrafo.

– Vai lá, Fabricio, pede um autógrafo pra ela – a Valéria sugeriu.

– Não, estou com vergonha.

Mais alguns passos para frente. Parei. Meia volta.

– Valéria, vou pedir um autógrafo.

Tinha ido num congresso (de radares meteorológicos), e o único papel disponível era o da lista de participantes. Seria aquele mesmo. A caneta, eu tinha na bolsa.

A Teresa Salgueiro falava sem parar, num extremo bom humor. Cheguei perto, respirei fundo, e apontei para ela:

– Você é cantora, né?

– Sim.

– Teresa Salgueiro?

– Sim.

– Você pode me dar um autógrafo?

E entreguei para ela o papel improvisado e a caneta.

– Para quem?

– Como?

– O nome, para quem?

– Ah, Fabricio Muller.

E assim ela escreveu o meu autógrafo para Fabrício Miller. Em seguida começou a se formar um grupo em torno de mim, e o empresário da banda me perguntou:

– Você é português?

– Não, brasileiro.

– Já foi para Portugal?

– Não, conheço a banda de um especial da TV Cultura.

Não, não falei que era a minha cantora preferida. Não falei que tinha gravado o especial, veja só, por causa de direitos autorais. Não falei que mal sabia como estava conseguindo balbuciar algumas palavras naquele momento.

E a alegria do empresário era evidente. Eu via potenciais cifrões brasileiros nos olhos dele.

– Você conhece algum disco da banda?

É claro que eu não lembrava o nome do disco. Mal lembrava meu próprio nome.

– É um com uns negócios de circo na capa…

Começaram a citar alguns nomes de discos, até que a Teresa Salgueiro falou:

– Existir?

– É esse – respondi.

À medida que aumentava o interesse dos portugueses por mim, aumentava também meu medo de ser um fã chato – eu lembrava de depoimentos de vários artistas falando do quão inconvenientes alguns fãs acabavam sendo. Eu preferia qualquer coisa a ser inconveniente para a Teresa Salgueiro. Despedi-me rapidamente, fiz meia-volta e fui-me embora.

Após este encontro, os Madredeus lançaram um disco – O Paraíso – onde a Teresa Salgueiro canta:

Volta no vento

Por favor

E também canta:

Andorinha de asa negra aonde vais?

Que andas a voar tão alta

Leva-me ao céu contigo, vá

Qu’eu lá de cima digo adeus ao meu amor

A Andorinha

da Primavera

Ai quem me dera também voar

Que bom que era

A Andorinha

na Primavera

também voar

Às vezes eu penso, meio de brincadeira, que estes versos (e mais outros aqui e ali) do disco O Paraíso foram feitos para mim. Ainda mais que, segundo a Valéria, a Teresa Salgueiro ficou com os olhos arregalados o tempo todo me olhando, enquanto fiquei junto do grupo de portugueses – e eu mal lembro disso, pois estava muito nervoso.

Brincadeiras à parte, quando lembro do autógrafo atualmente eu fico impressionado com a minha própria imaturidade naquela época. A imagem de “criatura celestial” que a Teresa Salgueiro tinha para mim desapareceu instantaneamente. Muito baixinha, mal vestida, com um rosto absolutamente comum, a grande cantora portuguesa – minha preferida até hoje e, provavelmente, até sempre – é um ser humano como eu ou você.

Uma descoberta tardia para um senhor de vinte e oito anos (a minha idade em 1995), pois não?

(texto escrito em 2003)

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There is 1 comment

  • Vera Alves disse:

    Olá, Fabrício Müller.
    Deliciosa sua narração. Não seja malvado, Teresa é linda, muito simpática e atenciosa com todos os fãs, sem exceção. Você sabia que ela segue em carreira solo? Já lançou cinco álbuns e estamos ansiosos à espera do sexto.
    Quanto aos olhos arregalados, hahaha, são grandes mesmo, castanhos, luminosos. Nesse olhar ela “copiou” você inteiro, se duvidar até seus pensamentos.
    Também assisti a esse especial da Cultura, foi no Reveillon de 95, sim? Me apaixonei por ela nesse dia também. Lembro que rodei a sala toda à procura de um lugar que o sinal pegasse bem. Ela nunca deixou de ser a minha “criatura celestial”, pelo contrário, quanto mais eu a conheço mais apaixonada fico.
    Olhe, “para um senhor de 28 anos”, você se saiu bem. Adorável o seu texto. Um grande abraço.
    Vera.

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