Estranho “romance”
Literatura

Estranho “romance”

22 de fevereiro de 2016 0

A primeira estranheza de A hora dos náufragos, do escritor e jornalista mineiro Pedro Maciel (Bertrand Brasil, 192 páginas), está na capa, na qual, logo abaixo do título, está escrito Romance. Não deixa de ser uma licença poética incluir o livro neste gênero literário, já que a sua leitura completa demora, no máximo, uns vinte minutos. Apesar de ter um grande número de páginas, praticamente todas as de número ímpar estão em branco, enquanto que quase todas as pares têm pouquíssimas linhas. Outras, ainda, contém belas ilustrações de Geraldo de Barros.

A segunda estranheza do “romance” é a do seu é com o próprio conteúdo: boa parte do livro é composta por pensamentos, muitos deles delirantes, de um agonizante (cujo nome não é revelado) num hospital. Sua situação é de profunda angústia: “A luz da varanda se apaga. A enfermeira não se atreve a chegar perto de mim. O silêncio está a meu favor. Seja como for, eu não quero mais falar de mim, não quero, não, não quero mais falar de mim mas falarei de mim quando não falar mais”. Ele está perdendo a memória: “A enfermeira disse que um dia volto a lembrar dos lugares e das pessoas. Lembro-me vagamente”. Neste estado de sofrimento, o tempo corre lentamente: “Podemos prescindir do espaço, mas não do tempo”; “A vida é breve mas a mim parece longa”; “Ando cansado de mim mesmo”.

Não se sabe se é a memória do agonizante ou uma estranha volta à vida normal, mas no meio do livro ele se refere ao sexo no tempo presente: “Há dias não compro sexo. O sexo, diz a puta, é o poder do jovem e o poder é o sexo do velho”; “Às vezes faço sexo sem tesão (…)”. Lá pelas tantas, abre-se a possibilidade de que o agonizante esteja neste estado apenas por alucinações causadas por drogas: “Há dias penso em parar de tomar drogas. Não é a primeira vez que procuro em vão fugir dos delírios”. Quando, no final do livro, a morte do personagem chega, é pintada com cores fortes: “Ninguém sabe se ele teria se suicidado por envenenamento ou morrido naturalmente. O cheiro forte do moribundo tresandou pelo corredor”; “Um sorriso no canto esquerdo da boca realçava o seu rosto. Os traços imóveis do seu semblante estampavam uma promessa de paz. Findo o seu tempo. Ele parecia estar aliviado, todos estavam aliviados”.

Com um texto fragmentado e esquisito, permeado de aforismos de cunho filosófico, (normalmente pessimistas como: “Somos onde estamos; às vezes a existência me parece alheia”; “O bem, o mal, é tudo igual”; “ele perdeu as últimas esperanças, por isso não vive mais todas as vidas. A esperança existe por causa dos desesperados”), A hora dos náufragos é um livro audacioso, inquietante e bem realizado.

(Revista Dominical do Jornal O Estado do Paraná, Curitiba (PR), p. 14 – 15, 09 jul. 2006.)

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