Dois livros de Junichiro Tanizaki
Literatura

Dois livros de Junichiro Tanizaki

10 de junho de 2018 0

É engraçado dizer isso, mas a primeira palavra que me vem à cabeça quando penso nos dois livros de ficção do escritor japonês Junichiro Tanizaki que li recentemente (já tinha comentado aqui recentemente sobre o belo ensaio “Em Louvor da Sombra”) é “desconforto”. Os livros, publicados pela Companhia das Letras, são o romance “Há Quem Prefira Urtigas” (192 páginas) e as duas novelas que compõem o volume “A Vida Secreta do Senhor de Musashi e Kuzu” (218 páginas). Vou tentar explicar o porquê deste “desconforto” a seguir.

“Há Quem Prefira Urtigas” conta a história de um marido e uma mulher, Kaname e Misake, que estão em crise: ele nunca deu muita importância para a esposa, que acaba se relacionando com um amante, Aso, com total apoio do marido. A novela “A Vida Secreta do Senhor de Musashi” conta a história de um samurai fictício do século XVI que, depois de um evento marcante durante uma guerra entre senhores feudais, desenvolve uma tara para lá de estranha. Finalmente, a novela “Kuzu” conta a história de uma viagem do autor para as montanhas de Yoshino, onde ele tenta, sem sucesso, arranjar material para um romance sobre o Imperador Celestial, morto no século XV.

São alguns os motivos do “desconforto” ao ler os livros de Junichiro Tanizaki. Suas referências vêm apenas do Oriente: ele descreve em detalhes, por exemplo, em “Há Quem Prefira Urtigas”, diversos tipos de teatro e literatura japoneses sobre os quais não tenho nenhum conhecimento – mais do que isso, nos dois livros objeto deste texto ele não faz um só comentário referente à cultura ocidental. Outro motivo do desconforto é o tratamento absolutamente tranquilo com o qual ele trata de assuntos sexuais: conforme comentado na orelha da edição da Estação Liberdade de outro livro do autor, “Diário de Um Velho Louco”, “o universo de Tanizaki é intimista e centrado na sensualidade e no relacionamento físico entre as pessoas, sendo que a infidelidade, fetichismo, tendências sádicas e voyeurismo não coíbem os personagens de realizar seus anseios, bem na tradição budista que desconhece a noção de pecado – ao contrário de outros escritores japoneses de sua geração, Tanizaki jamais viajou ao Ocidente e não era influenciado pelo cristianismo e suas normas morais”.

Além do citado acima, a leitura de Junichiro Tanizaki traz o desconforto típico que só os grandes escritores trazem: a alta literatura não é lugar para quem não quer sair de sua zona de conforto.

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