{"id":974,"date":"2015-05-22T19:07:21","date_gmt":"2015-05-22T19:07:21","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=974"},"modified":"2015-05-22T19:08:44","modified_gmt":"2015-05-22T19:08:44","slug":"dois-livros-de-lolita-pille","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=974","title":{"rendered":"Dois livros de Lolita Pille"},"content":{"rendered":"<p><strong>Hell \u2013 Paris \u2013 75016<\/strong><\/p>\n<p>Ela \u00e9 linda. Ela \u00e9 riqu\u00edssima. Ela sai todas as noites em bares e boates da moda. Ela exagera no \u00e1lcool e na coca\u00edna. Ela troca de parceiro sexual como quem troca de roupa. Ela mesma diz que \u00e9 uma putinha, daquelas da pior esp\u00e9cie. O seu nome \u00e9 Ella. <!--more-->Ou Elle. Mas ela prefere mesmo ser chamada de Hell (inferno, em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Hell \u00e9 a personagem-t\u00edtulo de\u00a0<em>Hell \u2013 Paris \u2013 75016<\/em>, da francesa\u00a0Lolita Pille\u00a0(tradu\u00e7\u00e3o de Julio Bandeira, Editora Intr\u00ednseca, 207 p\u00e1ginas), que tinha 18 anos quando o comp\u00f4s, em 2000 (foi publicado no ano seguinte). Escrito na primeira pessoa, o livro \u00e9 quase que totalmente autobiogr\u00e1fico. Ele descreve o dia a dia de pessoas como ela: milion\u00e1rias, que gastam em uma noite o equivalente ao sal\u00e1rio de grande parte das pessoas da classe m\u00e9dia, que julgam seus semelhantes apenas e t\u00e3o somente pelas grifes que ostentam, que n\u00e3o t\u00eam outro objetivo na vida sen\u00e3o se divertir muito com muito sexo, muita coca\u00edna, muito \u00e1lcool.<\/p>\n<p>O livro tem seu valor quando apresenta, sem retoques, a mentalidade do grupo a que Hell pertence. Arrogantes, sentindo-se sempre superiores ao restante da humanidade, paran\u00f3icos pelo uso excessivo do p\u00f3 (ou simplesmente pela falta aten\u00e7\u00e3o dos pais), os jovens rica\u00e7os n\u00e3o causam praticamente nenhuma simpatia aos leitores &#8220;comuns&#8221; (embora possam chocar as pessoas com vida mais \u2013 desculpem o termo \u2013 &#8220;regrada&#8221;) e nem fazem a menor quest\u00e3o disso. Suas vidas s\u00e3o um desfile de marcas famosas de carros, de rel\u00f3gios, de roupas, de sapatos, tudo misturado com muita fofoca sobre a vida alheia (&#8220;mas fulano n\u00e3o est\u00e1 quebrado? Como ele mant\u00e9m este estilo de vida?&#8221;) e comportamento totalmente desregrado.<\/p>\n<p>Se\u00a0<em>Hell \u2013 Paris \u2013 75016<\/em>\u00a0pode encontrar um eco distante em Balzac pelo retrato de um grupo social, o mesmo n\u00e3o se pode dizer da penetra\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica das personagens principais. Hell n\u00e3o se parece muito com algu\u00e9m de carne-e-osso. Ela n\u00e3o \u00e9 muito convincente, por exemplo, quando tenta mostrar que a vacuidade da sua vida tamb\u00e9m traz sofrimento \u2013 no contexto do livro, frases como &#8220;se os ricos n\u00e3o s\u00e3o felizes \u00e9 porque a felicidade n\u00e3o existe&#8221; e &#8220;a humanidade sofre e eu sofro com ela&#8221; parecem mais coisas de uma adolescente mimada preocupada em dar um estofo existencialista para a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um tanto for\u00e7ada, tamb\u00e9m, \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o da pessoa pela qual Hell se apaixona, o rica\u00e7o Andrea. Ele tem o objetivo de desmascarar a hipocrisia e imbecilidade de seu grupo social, mas acaba tendo o mesmo comportamento daqueles que critica. O romance entre os dois personagens mal compostos acaba, como n\u00e3o poderia deixar de ser, parecendo exagerado e for\u00e7ado \u2013 a pr\u00f3pria Lolita Pille, em uma entrevista, descreve este caso de amor como sendo &#8220;meio \u00e1gua-com-a\u00e7\u00facar&#8221;.<\/p>\n<p><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/edicao-23-curitiba-pop-festival-2004\/lolita-pille-02-neuronio.html\" target=\"_blank\">Mondo Bacana<\/a> em 2005)<\/em><\/p>\n<p><strong>Bubblegum<\/strong><\/p>\n<p>Paranoia n\u00e3o falta nos livros da escritora francesa Lolita Pille. Depois do gigantesco sucesso mundial de <em>Hell &#8211; Paris \u2013 75016<\/em>, a Intrinseca est\u00e1 lan\u00e7ando o seu segundo romance, <em>Bubblegum<\/em> (272 p\u00e1ginas). Se, por um lado, o novo livro de Lolita Pille continua a enfocar personagens riqu\u00edssimos que vivem uma vida agitada, sem limites quanto a sexo, \u00e1lcool ou drogas, por outro agora aparece a primeira personagem central pobre da autora: Manon, uma garota de uma pequena cidade do interior da Fran\u00e7a que vive infeliz com a sua condi\u00e7\u00e3o, e que sonha com uma vida como grande atriz de cinema, cheia de riqueza e luxo.<\/p>\n<p>Para atingir seu objetivo, Manon larga o pai, que a criou, sozinho na cidadezinha do interior: ela sequer se despede, e n\u00e3o volta a entrar em contato com ele. Depois de um tempo penando como gar\u00e7onete, ela come\u00e7a a namorar o rica\u00e7o Derek Delano, herdeiro de uma companhia petrol\u00edfera na Venezuela: \u00e9 quando seus sonhos come\u00e7am a se realizar. Logo Manon se transforma numa modelo requisitad\u00edssima, capa das mais melhores revistas da Europa e Estados Unidos, e acaba realizando seu grande sonho: ser a atriz principal de um filme importante. Agora nada mais segura a garota do interior, que passa a ter praticamente a mesma vida dissoluta da personagem principal do romance anterior de Lolita Pille, a jovem Ella &#8211; e \u00e9 neste ponto que uma s\u00e9rie de acontecimentos surpreendentes, que n\u00e3o ser\u00e3o descritos aqui para n\u00e3o estragar a surpresa, mudam de maneira radical esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais ainda que em <em>Hell &#8211; Paris \u2013 75016<\/em>, em seu novo livro Lolita Pille n\u00e3o consegue mostrar nenhum ato de bondade no ser humano: suas personagens continuam frias, calculistas, capazes de literalmente qualquer coisa por dinheiro ou divers\u00e3o. De qualquer maneira, \u00e9 ineg\u00e1vel que a francesa escreve bem; de maneira geral, inclusive, o seu segundo romance \u00e9 um pouco superior ao anterior &#8211; apesar da reviravolta forrada e um tanto absurda do final de <em>Bubblegum<\/em>.<\/p>\n<p><em>(texto publicado na revista dominical do jornal O Estado do Paran\u00e1 em 2006)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hell \u2013 Paris \u2013 75016 Ela \u00e9 linda. Ela \u00e9 riqu\u00edssima. Ela sai todas as noites em bares e boates da moda. Ela exagera no \u00e1lcool e na coca\u00edna. Ela troca de parceiro sexual como quem troca de roupa. Ela mesma diz que \u00e9 uma putinha, daquelas da pior esp\u00e9cie. 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