{"id":949,"date":"2015-05-29T18:37:16","date_gmt":"2015-05-29T18:37:16","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=949"},"modified":"2015-05-20T18:43:12","modified_gmt":"2015-05-20T18:43:12","slug":"na-galeria-de-franz-kafka","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=949","title":{"rendered":"Na galeria, de Franz Kafka"},"content":{"rendered":"<p>O extraordin\u00e1rio texto abaixo deve ser lido com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o mas, se poss\u00edvel, de um f\u00f4lego s\u00f3. Ele faz parte da obra-prima <em>Um m\u00e9dico rural<\/em> (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001), livro com narrativas curtas de Franz Kafka (um dos poucos do grande escritor tcheco publicados em vida).<!--more--><\/p>\n<blockquote><p><em>Na galeria<\/em><\/p>\n<p>Se uma amazona fr\u00e1gil e t\u00edsica fosse impelida meses sem interrup\u00e7\u00e3o em c\u00edrculos ao redor do picadeiro sobre o cavalo oscilante diante de um p\u00fablico infatig\u00e1vel pelo diretor de circo impiedoso de chicote na m\u00e3o, sibilando em cima do cavalo, atirando beijos, equilibrando-se na cintura, e se esse espet\u00e1culo prosseguisse pelo futuro que se vai abrindo \u00e0 frente sempre cinzento sob o bramido incessante da orquestra e dos ventiladores, acompanhado pelo aplauso que se esvai e outra vez se avoluma das m\u00e3os que na verdade s\u00e3o martelos a vapor &#8211; talvez ent\u00e3o um jovem espectador da galeria descesse \u00e0s pressas a longa escada atrav\u00e9s de todas as filas, se arrojasse no picadeiro e bradasse o basta! em meio \u00e0s fanfarras da orquestra sempre pronta a se ajustar \u00e0s situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas uma vez que n\u00e3o \u00e9 assim, uma bela dama em branco e vermelho entra voando por entre as cortinas que os orgulhosos criados de libr\u00e9 abrem diante dela; o diretor, buscando abnegadamente os seus olhos respira voltado para ela numa postura de animal fiel; ergue-a cauteloso sobre o alaz\u00e3o como se fosse a neta amada acima de tudo que parte para uma viagem perigosa; n\u00e3o consegue se decidir a dar o sinal com o chicote; afinal dominando-se ele o d\u00e1 com um estalo; corre de boca aberta ao lado do cavalo; segue com olhar agudo os saltos da amazona; mal pode entender sua destreza; procura adverti-la com exclama\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas; furioso exorta os palafreneiros que seguram os arcos \u00e0 aten\u00e7\u00e3o mais minuciosa; as m\u00e3os levantadas, implora \u00e0 orquestra para que fa\u00e7a sil\u00eancio antes do salto mortal; finalmente al\u00e7a a pequena do cavalo tr\u00eamulo, beija-a nas duas faces e n\u00e3o considera suficiente nenhuma homenagem do p\u00fablico; enquanto ela pr\u00f3pria, sustentada por ele, na ponta dos p\u00e9s, envolta pela poeira, de bra\u00e7os estendidos, a cabecinha inclinada para tr\u00e1s, quer partilhar sua felicidade o circo inteiro &#8211; uma vez que \u00e9 assim o espectador da galeria ap\u00f3ia o rosto sobre o parapeito e, afundando na marcha final como num sonho pesado, chora sem o saber.<\/p><\/blockquote>\n<p>No posf\u00e1cio que acompanha a edi\u00e7\u00e3o o tradutor Modesto Carone deixa transparecer sutilmente sua prefer\u00eancia por <em>Na Galeria<\/em> dentro do livro <em>Um m\u00e9dico rural<\/em>: n\u00e3o s\u00f3 ele chama esta pequena narrativa de &#8220;excepcional&#8221;, como esta \u00e9 uma das poucas a serem analisadas com uma certa profundidade &#8211; como se ver\u00e1 mais adiante.<\/p>\n<p>Quanto a mim, <em>Na galeria<\/em> n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 meu texto preferido dentro do excepcional <em>Um m\u00e9dico rural<\/em>, como tamb\u00e9m \u00e9 um dos mais belos textos que j\u00e1 tive oportunidade de ler. \u00c9 uma narra\u00e7\u00e3o totalmente visual e que segue por caminhos inesperados.<\/p>\n<p>No primeiro par\u00e1grafo existe a hip\u00f3tese de que uma bailarina <em>fr\u00e1gil e t\u00edsica<\/em> fosse impelida <em>meses sem interrup\u00e7\u00e3o<\/em>, por um diretor de circo<em> impiedoso<\/em>, a andar em c\u00edrculos sobre o cavalo em torno do picadeiro. Este espet\u00e1culo poderia seguir <em>\u00a0cinzento <\/em>pelo futuro <em>que se vai abrindo \u00e0 frente<\/em>. At\u00e9 aqui temos o universo usual de Kafka (ainda que no campo da hip\u00f3tese): o sofrimento n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem fim. Uma possibilidade de mudan\u00e7a aparece no final do par\u00e1grafo gra\u00e7as a <em>um jovem espectador<\/em> que<em> talvez gritasse basta! <\/em>ao ver a terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o da bailaria.<\/p>\n<p>E \u00e9 no in\u00edcio do segundo par\u00e1grafo que a situa\u00e7\u00e3o toma um rumo totalmente inesperado. Esta parte se inicia com a frase <em>Mas uma vez que n\u00e3o \u00e9 assim<\/em>: o que lemos anteriormente era uma mentira. A bailarina, na verdade, \u00e9 <em>uma bela dama <\/em>que <em>entra voando por entre as cortinas que os orgulhosos criados de libr\u00e9 abrem diante dela<\/em>. O diretor tem um orgulho ilimitado dela, <em>ergue-a cauteloso sobre o alaz\u00e3o como se fosse a neta amada<\/em>. Al\u00e9m disso, <em>beija-a nas duas faces e n\u00e3o considera suficiente nenhuma homenagem do p\u00fablico<\/em>. A felicidade da bailarina \u00e9 mostrada numa linda frase: <em>ela pr\u00f3pria, sustentada por ele, na ponta dos p\u00e9s, envolta pela poeira, de bra\u00e7os estendidos, a cabecinha inclinada para tr\u00e1s, quer partilhar sua felicidade o circo inteiro<\/em>. E \u00e9 no final que Kafka atinge uma beleza descritiva de arrepiar: <em>uma vez que \u00e9 assim o espectador da galeria ap\u00f3ia o rosto sobre o parapeito e, afundando na marcha final como num sonho pesado, chora sem o saber<\/em>. A verdade, pois, \u00e9 muito melhor do que a terr\u00edvel possibilidade apresentada no primeiro par\u00e1grafo: o espectador (que teria gritado <em>basta!<\/em> se a realidade fosse outra) chora de felicidade.<\/p>\n<p>A estrutura de <em>Na galeria <\/em>\u00e9 genial: existe uma oposi\u00e7\u00e3o deliberada entre o <em>Uma vez que n\u00e3o \u00e9 assim<\/em>, que anula a realidade do primeiro par\u00e1grafo, e o <em>uma vez que \u00e9 assim <\/em>do final do segundo. Al\u00e9m disso, s\u00f3 existem dois pontos finais no texto, um em cada par\u00e1grafo &#8211; o que d\u00e1 um ritmo veloz \u00e0 narrativa. E <em>Na galeria<\/em>, como dito acima, \u00e9 totalmente visual: Kafka apenas descreve o que se enxerga &#8211; aumentando enormemente a beleza do conjunto.O texto vem de chofre, r\u00e1pido, como se <em>chacoalhasse <\/em>o leitor. \u00c9 de tirar o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Esta enorme beleza tamb\u00e9m foi sentida pelo tradutor Modesto Carone &#8211; e por isto sua sutil prefer\u00eancia, citada acima, por esta narrativa. Mas h\u00e1 uma pequena diferen\u00e7a entre a interpreta\u00e7\u00e3o dele e a minha: no seu posf\u00e1cio ele escreve que<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) <em>Na galeria<\/em>, um verdadeiro poema em prosa composto por dois per\u00edodos e duas codas dialeticamente articuladas, em que os dados da realidade nua e crua do primeiro s\u00e3o apresentados como hip\u00f3tese, ao passo que a vers\u00e3o distorcida e cor-de-rosa do segundo vem marcada pelas certezas do indicativo. Nada disso no entanto \u00e9 estranho, principalmente para quem disse, um dia, que no mundo &#8220;h\u00e1 muita esperan\u00e7a, mas n\u00e3o para n\u00f3s&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>Modesto Carone \u00e9 um tradutor excepcional (\u00e9 s\u00f3 comparar alguns trechos de suas tradu\u00e7\u00f5es com algumas outras existentes para que se tenha uma id\u00e9ia do que estou falando), um dos primeiros a verter as obras de Kafka para o portugu\u00eas diretamente do alem\u00e3o. Seus posf\u00e1cios s\u00e3o simples, objetivos e profundos na an\u00e1lise das obras traduzidas &#8211; al\u00e9m de darem uma bela id\u00e9ia de sua t\u00e9cnica de trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 com um pouco de inseguran\u00e7a, portanto, que discordo da opini\u00e3o dele a respeito do sentido de <em>Na galeria<\/em>: n\u00e3o creio que a realidade, no texto, esteja no primeiro par\u00e1grafo, mas sim no segundo. Minha vers\u00e3o dos fatos \u00e9 mais literal, enquanto que\u00a0 Carone se prende mais \u00e0 <em>vis\u00e3o<\/em> de mundo de Kafka, <em>quase sempre<\/em> pessimista. Eu creio que Kafka pode muito bem ter desejado dar um al\u00edvio \u00e0s agruras de sua obra mostrando uma realidade mais <em>cor-de-rosa<\/em> &#8211; e por isto uma interpreta\u00e7\u00e3o literal de <em>Na galeria <\/em>ser\u00e1 sempre otimista. Ele pode simplesmente ter vislumbrado uma maneira de encontrar uma esp\u00e9cie de <em>salva\u00e7\u00e3o pela Arte<\/em>.<\/p>\n<p>Talvez nenhuma das duas interpreta\u00e7\u00f5es seja a correta: para qu\u00ea, afinal de contas, algu\u00e9m deveria tentar interpretar um texto t\u00e3o extraordinariamente belo quanto <em>Na galeria<\/em>? Este poema em prosa, assim, deveria ser apenas <em>sentido<\/em> &#8211; e n\u00e3o <em>analisado<\/em> <em>racionalmente<\/em>.<\/p>\n<p>Quem sabe Modesto Carone concorde, em parte, comigo: afinal de contas, quem chamou <em>Na galeria <\/em>de &#8220;poema em prosa&#8221; foi ele, e n\u00e3o eu.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2004)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O extraordin\u00e1rio texto abaixo deve ser lido com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o mas, se poss\u00edvel, de um f\u00f4lego s\u00f3. Ele faz parte da obra-prima Um m\u00e9dico rural (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001), livro com narrativas curtas de Franz Kafka (um dos poucos do grande escritor tcheco publicados em vida).<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":950,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[69],"class_list":["post-949","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-kafka","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/949","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=949"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":951,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/949\/revisions\/951"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/950"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}