{"id":891,"date":"2015-05-30T14:57:09","date_gmt":"2015-05-30T14:57:09","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=891"},"modified":"2015-05-21T03:32:18","modified_gmt":"2015-05-21T03:32:18","slug":"rapidos-comentarios-sobre-livros-lidos-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=891","title":{"rendered":"R\u00e1pidos coment\u00e1rios sobre livros lidos \u2013 3"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 pena que eu n\u00e3o tenha mais o exemplar da Enciclop\u00e9dia Abril cujo verbete sobre <strong>Georg Trakl<\/strong> me fez ficar apaixonado por este poeta austr\u00edaco, j\u00e1 h\u00e1 uns trinta anos. Ele falava de anjos azuis, ouro, podrid\u00e3o e morte. Era de uma beleza t\u00e3o extrema que eu n\u00e3o sabia direito como lidar com o assunto &#8211; Heidegger dizia que adorava a poesia de Trakl, mas n\u00e3o a entendia.\u00a0Lembro que na \u00e9poca procurei algum livro de Trakl nas livrarias e simplesmente n\u00e3o se achava nada &#8211; e isto n\u00e3o mudou tanto assim, se tratando de Trakl em portugu\u00eas. De todo modo, algum tempo mais tarde achei numa livraria &#8211; na Mal. Deodoro, ainda lembro bem disso &#8211; um livro portugu\u00eas que, n\u00e3o sei bem por que, n\u00e3o comprei na hora. Voltei na livraria mais tarde e o livro j\u00e1 tinha ido embora.\u00a0Agora, gra\u00e7as \u00e0 Estante Virtual, comprei <strong>&#8220;Poemas &#8211; Antologia, vers\u00e3o portuguesa e introdu\u00e7\u00e3o de Paulo Quintela&#8221;<\/strong>, um livro portugu\u00eas publicado em 1980 pela &#8220;O oiro do dia\/Porto&#8221;.<!--more-->\u00a0N\u00e3o tem muito o que comentar sobre um livro em que a toda hora lemos coisas como &#8220;Silencioso sobre o Calv\u00e1rio \/ abrem-se os olhos dourados de Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Primeiro livro da sua trilogia autobiogr\u00e1fica &#8220;Cenas da vida na prov\u00edncia&#8221;,<strong> &#8220;Inf\u00e2ncia&#8221;<\/strong> (Companhia das Letras &#8211; o terceiro, &#8220;Summertime&#8221;, j\u00e1 foi comentado aqui),do Pr\u00eamio Nobel de 2003, o sul-aficano <strong>J.M.Coetzee<\/strong>, \u00e9 extraordin\u00e1rio. O livro \u00e9 contado em terceira pessoa, e fala da inf\u00e2ncia e in\u00edcio da adolesc\u00eancia do autor.\u00a0Vindo de uma fam\u00edlia n\u00e3o religiosa, ele n\u00e3o sabe se \u00e9 crist\u00e3o (protestante, na verdade), cat\u00f3lico ou judeu. Escolhe ser cat\u00f3lico, mas n\u00e3o consegue justificar por que n\u00e3o fez primeira comunh\u00e3o. \u00c9 um excelente aluno, e vai melhor em matem\u00e1tica do que em hist\u00f3ria j\u00e1 que detesta decorar. Tem uma m\u00e3e que o adora, e uma rela\u00e7\u00e3o distante com o pai, que detesta.\u00a0John (\u00e9 assim que ele \u00e9 chamado no livro) \u00e9 um menino com permanente sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento, que n\u00e3o parece se sentir \u00e0 vontade praticamente em lugar nenhum. Coetzee conta a pr\u00f3pria vida como se fosse outra pessoa.<\/p>\n<p>Por causa de <strong>&#8220;Freedom&#8221;<\/strong> (Thorndike Press), <strong>Jonathan Franzen<\/strong> acabou sendo um dos \u00fanicos escritores americanos a ser capa da revista Time. O livro, best-seller recomendado inclusive por Oprah Winfrey e Barack Obama, realmente merece todo o barulho que causou. O romance conta tr\u00eas d\u00e9cadas na vida da fam\u00edlia Berglund &#8211; o casal Walter e Patty e seus dois filhos &#8211; e de um m\u00fasico, Richard Katz, que sempre esteve na \u00f3rbita do casal.\u00a0Os personagens s\u00e3o descritos com grande maestria, e o leitor acaba sentindo que os conhece &#8220;de verdade&#8221;. Acontecimentos hist\u00f3ricos &#8211; como a segunda guerra do Golfo &#8211; e preocupa\u00e7\u00f5es com a ecologia tamb\u00e9m t\u00eam papel importante no transcorrer da obra. Franzen quer retomar a grande tradi\u00e7\u00e3o romanesca realista do s\u00e9culo XIX &#8211; e podemos dizer que ele atingiu com louvores o seu objetivo.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Medo e del\u00edrio em Las Vegas&#8221;<\/strong> (L&amp;PM) \u00e9 a obra mais famosa do criador do jornalismo gonzo &#8211; em que o jornalista tamb\u00e9m faz parte da not\u00edcia -, o americano <strong>Hunter Thompson<\/strong>. O livro \u00e9 um del\u00edrio monumental: o autor e seu advogado, um gigante samoano de 150 quilos, v\u00e3o a Las Vegas cobrir uma corrida de motos, e n\u00e3o veem praticamente nada. Apenas se entopem com todas as drogas poss\u00edveis. Depois eles v\u00e3o a um encontro de promotores anti-drogas (!). E continuam detonando.\u00a0Por que o livro fascina tanto, mesmo com personagens principais praticando tanta insanidade? Ser\u00e1 que \u00e9 por que Hunter Thompson escreve bem demais? Ou por que o livro descreve parte do que foi a loucura dos anos 70 nos Estados Unidos, quando grande parte da popula\u00e7\u00e3o estava agindo de maneira desvairada?\u00a0N\u00e3o sei. Sei que li o livro praticamente de uma sentada, espantado e admirado.<\/p>\n<p>Descobri sobre <strong>&#8220;Cartas chilenas&#8221;<\/strong> (Companhia das Letras) lendo a respeito no cl\u00e1ssico &#8220;Forma\u00e7\u00e3o da Literatura Brasileira&#8221;, de Antonio Candido. Na primeira edi\u00e7\u00e3o do &#8220;Forma\u00e7\u00e3o&#8221; ainda n\u00e3o se tinha certeza de quem era o autor, que hoje \u00e9 reconhecido como <strong>Tom\u00e1s Antonio Gonzaga<\/strong>, que fez a obra pouco antes da Inconfid\u00eancia Mineira, em 1789.\u00a0O livro \u00e9 composto por 13 &#8220;cartas&#8221; &#8211; na verdade poemas em versos brancos &#8211; em que o autor, supostamente um tal de Critilo, critica o governador chileno &#8220;Fanfarr\u00e3o Min\u00e9sio&#8221;. Na verdade, o objetivo do autor das &#8220;Cartas chilenas&#8221; era criticar Lu\u00eds da Cunha Meneses, governador de Minas na \u00e9poca.\u00a0As den\u00fancias s\u00e3o graves. Segundo &#8220;Critilo&#8221;, &#8220;Fanfarr\u00e3o Min\u00e9sio&#8221; ajudava os amigos, mesmo quando iam contra a lei, e punia as demais pessoas de modo cruel e desumano. Gastava dinheiro de ajuda aos pobres e \u00e0 Igreja com festas onde o comportamento padr\u00e3o era imoral. Tentou construir uma obra fara\u00f4nica, com o sacrif\u00edcio e o sangue do povo. Um verdadeiro d\u00e9spota cruel.\u00a0As descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00edvidas e as den\u00fancias extremamente bem elaboradas. N\u00e3o \u00e0 toa &#8220;Cartas chilenas&#8221; foi sempre &#8211; e continua sendo &#8211; objeto de tantos estudos s\u00e9rios em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Journal d&#8217;un cur\u00e9 de campagne&#8221;<\/strong> \u00e9 considerado por muitos a obra-prima do escritor cat\u00f3lico franc\u00eas <strong>Georges Bernanos<\/strong>. O livro conta a hist\u00f3ria de um padre de uma cidadezinha francesa, que se v\u00ea \u00e0s voltas com a mediocridade e a mesquinhez dos paroquianos &#8211; particularmente dos mais ricos &#8211; e com seus pr\u00f3prios problemas de sa\u00fade.\u00a0Boa parte da obra \u00e9 composta por di\u00e1logos entre o padre e outras pessoas, do clero e fora dele. Muitos assuntos s\u00e3o debatidos, como a presen\u00e7a da Igreja na hist\u00f3ria, a atua\u00e7\u00e3o do mal no dia-a-dia, e a for\u00e7a ou a fraqueza da f\u00e9. &#8220;Journal d&#8217;un cur\u00e9 de campagne&#8221; \u00e9 um livro de leitura particularmente dif\u00edcil, devido \u00e0 complexidade narrativa, mas de leitura altamente recompensadora.<\/p>\n<p>O personagem principal de <strong>&#8220;Solar&#8221;<\/strong>, de <strong>Ian McEwan<\/strong> (Comapanhia das Letras), o f\u00edsico Pr\u00eamio Nobel Michael Beard, padece um pouco da falta de humanidade e de empatia de outros personagens de livros dele, ponto j\u00e1 comentado aqui. Beard \u00e9 um mau car\u00e1ter rematado: roubou ideias de um f\u00edsico mais jovem de sua equipe, casou v\u00e1rias vezes &#8211; tratando suas mulheres como simples objetos sexuais, as traindo de maneira sistem\u00e1tica -, n\u00e3o tem maior respeito pelos outros seres humanos, bebe demais e vive quase que exclusivamente dos louros do passado -fazendo confer\u00eancias pelo mundo gra\u00e7as ao Pr\u00eamio Nobel recebido na juventude. Al\u00e9m disso, tem problemas de sa\u00fade e de excesso de peso. \u00c9 um sujeito intelectualmente genial, mas de modo geral \u00e9 uma figura t\u00e3o estapaf\u00fardia que chega a ser c\u00f4mica.\u00a0Ian McEwan debate pontos interessantes no romance, como: o que \u00e9 mais dif\u00edcil, ser um f\u00edsico ou um literato? Por que a genialidade intelectual n\u00e3o tem nada a ver com a maturidade emocional? Al\u00e9m disso, a obra tem trechos extremamente c\u00f4micos (parece que McEwan n\u00e3o gostou que tenham achado seu livro hil\u00e1rio, mas enfim), o que me faz recomendar fortemente a leitura de &#8220;Solar&#8221; &#8211; mesmo com o por\u00e9m levantado l\u00e1 em cima.<\/p>\n<p>Expl\u00edcito \u00e9 <strong>&#8220;A casa dos budas ditosos&#8221;<\/strong>, de <strong>Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro<\/strong> (Objetiva). O livro usa uma antiga t\u00e9cnica liter\u00e1ria, que consiste em dizer que o autor recebeu a hist\u00f3ria pronta de outra pessoa, que pode ou n\u00e3o querer passar por an\u00f4nima. No presente caso, Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro &#8220;recebe&#8221; umas fitas cassete de CLB, uma mulher de 68 anos que conta com grande n\u00famero de detalhes sua vida sexual libertina &#8211; ela se considera &#8220;pansexual&#8221;, e fez sexo &#8211; muito sexo &#8211; com mulheres, homens e parentes pr\u00f3ximos, dos mais diversos modos e nas mais diversas ocasi\u00f5es. Quase sempre na maior alegria &#8211; apenas o relacionamento com um tio, que acabou pagando seu estudos, n\u00e3o foi plenamente satisfat\u00f3rio.\u00a0O estilo de Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro \u00e9 delicioso e o livro, al\u00e9m de explosivamente sexual, \u00e9 extremamente divertdo.<\/p>\n<p><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/livros-lidos-recentemente-7.html\" target=\"_blank\">blog do Mondo Bacana<\/a> em 28 de mar\u00e7o de 2011)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 pena que eu n\u00e3o tenha mais o exemplar da Enciclop\u00e9dia Abril cujo verbete sobre Georg Trakl me fez ficar apaixonado por este poeta austr\u00edaco, j\u00e1 h\u00e1 uns trinta anos. Ele falava de anjos azuis, ouro, podrid\u00e3o e morte. Era de uma beleza t\u00e3o extrema que eu n\u00e3o sabia direito como lidar com o assunto &#8211; Heidegger dizia que adorava a poesia de Trakl, mas n\u00e3o a entendia.\u00a0Lembro que na \u00e9poca procurei algum livro de Trakl nas livrarias e simplesmente n\u00e3o se achava nada &#8211; e isto n\u00e3o mudou tanto assim, se tratando de Trakl em portugu\u00eas. De todo modo, algum tempo mais tarde achei numa livraria &#8211; na Mal. Deodoro, ainda lembro bem disso &#8211; um livro portugu\u00eas que, n\u00e3o sei bem por que, n\u00e3o comprei na hora. Voltei na livraria mais tarde e o livro j\u00e1 tinha ido embora.\u00a0Agora, gra\u00e7as \u00e0 Estante Virtual, comprei &#8220;Poemas &#8211; Antologia, vers\u00e3o portuguesa e introdu\u00e7\u00e3o de Paulo Quintela&#8221;, um livro portugu\u00eas publicado em 1980 pela &#8220;O oiro do dia\/Porto&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":892,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[88,161,162,164,133,165,163,115],"class_list":["post-891","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-georg-trakl","tag-georges-bernanos","tag-hunter-thompson","tag-ian-mcewan","tag-j-m-coetzee","tag-joao-ubaldo-ribeiro","tag-jonathan-franzen","tag-tomas-antonio-gonzaga","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/891","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=891"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/891\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":895,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/891\/revisions\/895"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/892"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=891"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=891"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=891"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}