{"id":849,"date":"2015-05-16T02:07:29","date_gmt":"2015-05-16T02:07:29","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=849"},"modified":"2015-05-04T02:20:25","modified_gmt":"2015-05-04T02:20:25","slug":"o-conde-dabranhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=849","title":{"rendered":"O Conde d\u2019Abranhos"},"content":{"rendered":"<p>Depois da grat\u00edssima surpresa que tive com a leitura de \u201cA cidade e as serras\u201d, de E\u00e7a de Queir\u00f3s, foi com a melhor das expectativas que comecei a ler outro livro do grande escritor portugu\u00eas, o p\u00f3stumo <em>O Conde d\u2019Abranhos<\/em>, da Cole\u00e7\u00e3o Grande Obras da Literatura em Miniatura, da Planeta DeAgostini (ver mais detalhes <a href=\"http:\/\/fabriciomuller.tripod.com\/63.htm\">aqui<\/a>).<!--more--><\/p>\n<p>Logo na introdu\u00e7\u00e3o, a surpresa: o livro, segundo E\u00e7a, \u00e9 apenas uma tentativa de homenagear o grande car\u00e1ter moral, grande pol\u00edtico, o grande homem Conde d\u2019Abranhos \u2013 de quem o autor tinha sido secret\u00e1rio durante quinze anos. Fora a influ\u00eancia do Conde que fez E\u00e7a deixar as \u201cperniciosas id\u00e9ias democr\u00e1ticas\u201d e socialistas para se tornar um crist\u00e3o convicto e monarquista conservador.<\/p>\n<p>Estranho isto, pensei comigo. Primeiro por que o tom laudat\u00f3rio e unidimensional n\u00e3o costuma combinar com um escritor de primeira linha. Al\u00e9m disso me pareceu um pouco estranha esta convers\u00e3o ao conservadorismo da parte de E\u00e7a \u2013 convers\u00e3o esta da qual eu nunca tinha ouvido falar. De todo o modo, acabei aceitando o fato por que conhe\u00e7o pouco sobre sua vida e acabei lembrando que tamb\u00e9m era monarquista, crist\u00e3o e conservador outro gigante da literatura, Balzac.<\/p>\n<p>Mas estranho mesmo era este trecho da introdu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p><em>(O Conde d\u2019Abranhos) um dia exclamara na C\u00e2mara dos Deputados (sess\u00e3o de 15 de Agosto, \u00abDi\u00e1rio do Governo\u00bb n\u00ba 2758):<\/em>\u2013 <em>\u00abN\u00e3o podemos dar ao oper\u00e1rio o p\u00e3o na terra, mas obrigando-o a cultivar a f\u00e9, preparamos-lhe no C\u00e9u banquetes de Luz e de Bem-aventuran\u00e7a!\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>E quem negar\u00e1 a\u00ed que n\u00e3o seja esta a verdadeira maneira de promover a felicidade das classes trabalhadoras?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste ponto acabei pensando que E\u00e7a ficara maluco. Mas, sabe-se l\u00e1, a mentalidade da \u00e9poca poderia ser diferente. Conformei-me novamente.<\/p>\n<p>Depois da introdu\u00e7\u00e3o e mais algumas p\u00e1ginas do corpo do livro, acabei interrompendo a leitura do <em>Conde d\u2019Abranhos<\/em>. Afinal de contas, este E\u00e7a era muito diferente daquele que eu estava acostumado. Melhor mesmo ficar com a boa impress\u00e3o d\u2019<em>A cidade e as serras<\/em>.<\/p>\n<p>Mesmo assim, comecei a dar umas r\u00e1pidas olhadelas em partes aleat\u00f3rias do livro. O estilo j\u00e1 come\u00e7ava a me parecer v\u00edvido e, estranhamente, E\u00e7a n\u00e3o escondia os defeitos do Conde &#8211; por mais que sempre os justificasse e acabasse por elogi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que acabei procurando sobre o livro na internet e achei\u00a0uma\u00a0p\u00e1gina. O mist\u00e9rio, afinal, era-me desvendado! Tudo era fict\u00edcio no livro \u2013 a come\u00e7ar pelo Conde e por seu secret\u00e1rio, que n\u00e3o era E\u00e7a e sim um tal de Zagalo, um personagem criado para contar a hist\u00f3ria elogiando Abranhos mesmo quando ele fazia as maiores barbaridades: o conde, na verdade, era um sujeito mesquinho, fingido, completamente sem car\u00e1ter, capaz de literalmente qualquer coisa para obter poder e dinheiro.<\/p>\n<p>Obviamente senti-me um idiota quando descobri que estava diante de uma obra de fic\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o de uma elegia a um personagem real como eu tinha pensado antes. A auto-reprova\u00e7\u00e3o, contudo, logo cedeu lugar ao prazer em retornar a ler <em>O Conde d\u2019Abranhos<\/em>.<\/p>\n<p>O livro, agora, me parecia \u00e1cido, debochado, engra\u00e7ad\u00edssimo. Todas as p\u00e9ssimas atitudes do conde s\u00e3o elogiadas e\/ou justificadas pelo seu secret\u00e1rio Zagalo: Abranhos abandonara o pai na mis\u00e9ria por que era uma alma sens\u00edvel e sofisticada, que n\u00e3o suportava, por exemplo, o chiado daquele quando tomava sopa; abandonara o filho que tivera com a empregada por que esta era \u201cinconveniente\u201d e o conde era uma personalidade superior; como pol\u00edtico, mudava de partido apenas para ir aonde estava o poder por que tinha uma grande vis\u00e3o das coisas; era um Ministro da Marinha que tinha repulsa at\u00e9 em <em>olhar <\/em>o mar \u2013 o que n\u00e3o era nenhum problema, pois a Abranhos s\u00f3 interessavam as <em>grandes quest\u00f5es<\/em>.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 descrevendo o Conde d\u2019Abranhos que E\u00e7a \u00e9 brilhantemente \u00e1cido: existem outros personagens inesquec\u00edveis no livro, como o Conselheiro Gama Torres &#8211; que apenas repetia, s\u00e9rio e compenetrado, quando lhe faziam qualquer pergunta sobre pol\u00edtica: \u201ch\u00e1 quest\u00f5es! H\u00e1 quest\u00f5es terr\u00edveis, a mis\u00e9ria, a prostitui\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d (*).<\/p>\n<p>Segundo o site\u00a0supracitado, <em>\u00abO Conde d&#8217;Abranhos\u00bb foi deixado apenas em forma de esbo\u00e7o. Como afirma o seu filho, que em 1925 transcreveu e publicou a obra, \u00e9 natural que o autor planeasse rev\u00ea-la por completo, dando um tom mais moderado e subtil \u00e0 caricatura que esbo\u00e7ou. E\u00e7a de Queir\u00f3s teria ent\u00e3o eliminado o que pudesse ser \u00abexcessivo no rid\u00edculo ou exagerado na perversidade\u00bb. O romance ter-se-ia tornado mais subtil e menos caricatural, mas n\u00e3o teria, quase certamente, deixado de dirigir as suas farpas aos mesmos alvos.<\/em><\/p>\n<p>Fica a pergunta: ter\u00edamos mais prazer em ler um <em>O Conde d\u2019Abranhos <\/em>mais sutil e menos caricatural?<\/p>\n<p>Tenho sinceras d\u00favidas a este respeito.<\/p>\n<blockquote><p>(*)<em> vale a pena ler esta descri\u00e7\u00e3o do Conselheiro Gama Torres presente em O Conde d\u2019Abranhos:<\/em><\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes, segundo me contou o Conde, durante os meses de Estio em que a pol\u00edtica, refugiada na sombra das quintas ou na frescura das praias, dormita, o redactor da <em>Bandeira, <\/em>sem assunto para o seu artigo de fundo, recorria ao g\u00e9nio do Conselheiro, como um pobre envergonhado. Gama Torres, por\u00e9m, colocando-se no meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as m\u00e3os atr\u00e1s das costas, fitava o soalho e.23 bamboleando o cr\u00e2nio fecundo, murmurava surdamente:<\/p>\n<p>\u2013 Ele h\u00e1 muitas quest\u00f5es!&#8230; H\u00e1 quest\u00f5es terr\u00edveis. H\u00e1 a prostitui\u00e7\u00e3o&#8230; o pauperismo&#8230; Ele h\u00e1 muitas quest\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Mas, repito-o, era um avaro intelectual que n\u00e3o gostava de fazer a esmola de uma ideia. N\u00e3o o censuro, pois \u00e9 sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu g\u00e9nio \u00e0s grandes quest\u00f5es sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual \u2013 sempre que diante dele se falava de assuntos pol\u00edticos \u2013 ouvi-lo murmurar soturnamente:<\/p>\n<p>\u2013 Ele h\u00e1 muitas quest\u00f5es! Quest\u00f5es terr\u00edveis: o pauperismo, a prostitui\u00e7\u00e3o! S\u00e3o grandes quest\u00f5es! Quest\u00f5es terr\u00edveis!<\/p>\n<p>E pareciam com efeito terr\u00edveis essas quest\u00f5es, de uma tenebrosidade de abismo, quando se via o olhar esgazeado com que ele parecia contempl\u00e1-las mentalmente.<\/p>\n<p>Pouco tempo antes da sua morte, lembro-me de o ter visto, uma noite, em Casa do Conde, numa ocasi\u00e3o de crise ministerial, e nunca esquecerei a terr\u00edvel impress\u00e3o que me deixou aquele grande homem, de p\u00e9 no meio da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente:<\/p>\n<p>\u2013 Os senhores podem cr\u00ea-lo, nem tudo s\u00e3o chala\u00e7as; ele h\u00e1 quest\u00f5es terr\u00edveis&#8230; A prostitui\u00e7\u00e3o, o pauperismo, o ultramontanismo&#8230; Quest\u00f5es terr\u00edveis.<\/p>\n<p>E no sil\u00eancio apavorado que deixara aquela voz prof\u00e9tica, em que se sentia a amea\u00e7a de graves tormentas sociais rolando do fundo do horizonte, aproximei-me instintivamente do Conde, como quem procura asilo seguro.<\/p>\n<p>Tal era o director da <em>Bandeira. <\/em>Devo acrescentar que os \u00fanicos artigos que ele dava para o jornal anunciavam as suas jornadas para a Ericeira, ou os partos frequentes de sua esposa, ou ainda os progressos da sua doen\u00e7a de bexiga: artigos curtos, de resto, mas numa linguagem tersa, firme, grave, em que se sentia o homem de Estado!\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois da grat\u00edssima surpresa que tive com a leitura de \u201cA cidade e as serras\u201d, de E\u00e7a de Queir\u00f3s, foi com a melhor das expectativas que comecei a ler outro livro do grande escritor portugu\u00eas, o p\u00f3stumo O Conde d\u2019Abranhos, da Cole\u00e7\u00e3o Grande Obras da Literatura em Miniatura, da Planeta DeAgostini (ver mais detalhes aqui).<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":850,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[157],"class_list":["post-849","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-eca-de-queiros","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=849"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/849\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":854,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/849\/revisions\/854"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}