{"id":833,"date":"2015-05-13T01:36:21","date_gmt":"2015-05-13T01:36:21","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=833"},"modified":"2015-05-04T02:24:43","modified_gmt":"2015-05-04T02:24:43","slug":"marlon-brando-necrologio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=833","title":{"rendered":"Marlon Brando &#8211; necrol\u00f3gio"},"content":{"rendered":"<p>Considerado por muitos o maior ator da hist\u00f3ria do cinema, Marlon Brando nasceu em 3 de abril de 1924 em Omaha, no estado norte-americano de Nebraska. Tanto seu pai quanto sua m\u00e3e eram alco\u00f3latras e relapsos na educa\u00e7\u00e3o dos filhos, o que causou um trauma que Brando, de certa forma, levou pelo resto da vida.<!--more--><\/p>\n<p>Come\u00e7ou a estudar teatro em 1943, em Nova Iorque, e em 1947 o diretor Elia Kazan lhe convidou para o seu primeiro grande papel, como o rude Stanley Kowalski de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Nesta pe\u00e7a Brando j\u00e1 mostrava seu talento estupendo e seu vestu\u00e1rio em cena, chocante para a \u00e9poca \u2013 jeans apertados e camiseta rasgada \u2013 foi inspirado em pedreiros que ele via trabalhando.<\/p>\n<p>Depois de recusar v\u00e1rios convites de Hollywood, Brando finalmente faz a sua estr\u00e9ia no cinema em 1950, com Esp\u00edritos Ind\u00f4mitos, de Fred Zinemmann. Em 1951 ele, novamente com Kazan, faz Uma Rua Chamada Pecado, a vers\u00e3o filmada de Um Bonde Chamado Desejo \u2013 e consegue sua primeira indica\u00e7\u00e3o para o Oscar. Consegue novas indica\u00e7\u00f5es em seus filmes subseq\u00fcentes, Viva Zapata (tamb\u00e9m de Kazan) e J\u00falio C\u00e9sar (de Joseph Mankiewicz). Em 1954 Brando faz o personagem principal de O Selvagem, de Lazlo Benedek, um motoqueiro revoltado vestindo jaqueta de couro: o filme, gra\u00e7as principalmente ao ator, foi um verdadeiro marco cultural da chamada juventude tranviada, influenciando decisivamente os costumes de uma \u00e9poca marcada pela repress\u00e3o (os ecos deste filme se fazem sentir at\u00e9 mesmo no surgimento do rock and roll).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 1954 ele recebe seu primeiro Oscar de melhor ator, pelo Terry Malloy de O Sindicato de Ladr\u00f5es, novamente com a dire\u00e7\u00e3o de Elia Kazan: sua fala quase chorando, quando conclui que poderia ter sido grande e que n\u00e3o conseguiu s\u00ea-lo, \u00e9 um momento sempre lembrado entre os mais impressionantes do cinema. Faz mais alguns filmes e em 1957 recebe mais uma indica\u00e7\u00e3o para o Oscar, por Sayonara, de Joshua Logan. Em 1958 trabalha em Os Deuses Vencidos, de Edward Dmytryk; em 1960, Vidas em Fuga, de Sydney Lumet. Em 1961 toma A Face Oculta de Stanley Kubrick no meio das filmagens e resolve ele mesmo dirigir o filme: este estranho e soturno western, apesar do sucesso comercial alcan\u00e7ado, foi o \u00fanico dirigido por ele.<\/p>\n<p>Os anos 60 representaram uma longa decad\u00eancia para Marlon Brando: fez muitos filmes irregulares e, no in\u00edcio da d\u00e9cada seguinte, j\u00e1 era um veneno de bilheteria t\u00e3o grande que teve de fazer um teste com Francis Ford Coppola para obter o papel de Vito Corleone em O Poderoso Chef\u00e3o (lan\u00e7ado em 1972). Neste teste ele alterou a voz e colocou algod\u00f5es nas bochechas, criando ent\u00e3o um tipo inesquec\u00edvel &#8211; o que acabou convencendo os produtores do filme, que n\u00e3o o queriam, a aceit\u00e1-lo: foi a volta do sucesso para Marlon Brando, que recebeu novamente um Oscar por sua atua\u00e7\u00e3o (s\u00f3 que desta vez ele mandou uma atriz fantasiada de \u00edndia para receber o pr\u00eamio em seu lugar, e ainda fez com que ela lesse um discurso sobre a situa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios americanos na cerim\u00f4nia).<\/p>\n<p>Em 1973 recebe nova indica\u00e7\u00e3o para o Oscar por A \u00daltima Noite em Paris, de Bernardo Bertolucci, onde faz o papel de um norte-americano em Paris atormentado pelo suic\u00eddio da mulher, e que tem um conturbado caso de amor com a personagem vivida por Maria Schneider. De 1979 \u00e9 Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola (baseado no livro O Cora\u00e7\u00e3o das Trevas, de Joseph Conrad), onde Brando faz seu \u00faltimo grande personagem: o Coronel Walter E. Kurtz, um militar americano que ensandece no Vietn\u00e3 e torna-se ditador de uma comunidade local. Nos \u00faltimos anos de sua vida Brando passou a cobrar fortunas por personagens que pouco apareciam nos filmes \u2013 chegando a concorrer a um Oscar de melhor ator coadjuvante por A Dry White Season, de Euzhan Paulcy, de 1988.<\/p>\n<p>Os anos 90 foram de grande sofrimento pessoal para o ator: seu filho Christian, filho da primeira mulher de Brando, \u00e9 condenado a dez anos de pris\u00e3o por matar o namorado da meia-irm\u00e3 Cheyenne, filha da terceira mulher, depois de saber que ele a teria violentado. Cinco anos depois da condena\u00e7\u00e3o, Cheyenne se suicida. O pr\u00f3prio Brando reconheceu, no julgamento de Christian, que n\u00e3o foi um bom pai. Esta trag\u00e9dia fez o grande ator passar os \u00faltimos anos de sua vida praticamente recluso. Segundo uma biografia n\u00e3o-autorizada a ser publicada proximamente, o ator tamb\u00e9m estaria falido por causa dos excessos de gastos, e tamb\u00e9m pelas custas dos advogados, morando em um bangal\u00f4 e vivendo de uma aposentadoria do Estado.<\/p>\n<p>Marlon Brando estudou na Actor\u2019s Studio, que segue o m\u00e9todo de Stanislavski, que tenta fazer com que os atores busquem dentro das pr\u00f3prias experi\u00eancias solu\u00e7\u00f5es para os problemas colocados pelas personagens. Uma professora sua de teatro, por\u00e9m, disse que Brando nunca precisou aprender a atuar \u2013 seu talento j\u00e1 era inato. Na mesma linha, Paulo Francis dizia que os outros atores precisavam anos de treino para tentar fazer o que ele fazia naturalmente \u2013 s\u00f3 que Brando, mesmo assim, sempre tinha melhores resultados. Sua presen\u00e7a em cena era carism\u00e1tica e hipnotizante; al\u00e9m disso, ele era mestre em fazer pap\u00e9is bastante diferentes dele pr\u00f3prio: fez, por exemplo, um mexicano em Viva Zapata! e um japon\u00eas em Casa de Ch\u00e1 do Luar de Agosto.<\/p>\n<p>Era exigente e independente, e costumava n\u00e3o dar bola para conven\u00e7\u00f5es sociais (ficava, inclusive, grandes per\u00edodos de tempo sem tomar banho). Foi um dos homens mais bonitos do seu tempo no come\u00e7o da carreira e, mesmo obeso no final da vida, tinha um enorme charme que atra\u00eda as mulheres \u2013 casou pelo menos tr\u00eas vezes e teve cerca de oito filhos, com as esposas e com outras mulheres (segundo ele pr\u00f3prio, seu desejo sexual era excessivo). Preocupava-se muito e de maneira constante, tamb\u00e9m, com causas sociais como o problema ind\u00edgena (visitou, inclusive, os \u00edndios da Amaz\u00f4nia bem antes de Sting).<\/p>\n<p>Descanse em paz, Marlon Brando. O mundo vai ficar mais chato sem voc\u00ea.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2004)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Considerado por muitos o maior ator da hist\u00f3ria do cinema, Marlon Brando nasceu em 3 de abril de 1924 em Omaha, no estado norte-americano de Nebraska. 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