{"id":801,"date":"2015-05-08T18:17:01","date_gmt":"2015-05-08T18:17:01","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=801"},"modified":"2015-05-08T20:22:02","modified_gmt":"2015-05-08T20:22:02","slug":"pensamentos-dispersos-sobre-musica-classica-de-maneira-geral-e-sobre-as-cantatas-46-48-de-johann-sebastian-bach-em-particular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=801","title":{"rendered":"Pensamentos dispersos sobre m\u00fasica cl\u00e1ssica de maneira geral, e sobre as cantatas 46-48 de Johann Sebastian Bach em particular"},"content":{"rendered":"<p>Percebi um certo menosprezo contra a m\u00fasica cl\u00e1ssica em alguns textos que li recentemente em sites indies . Pode ser que eu seja meio ing\u00eanuo, mas penso que\u00a0 isto \u00e9 um erro. Nada contra quem n\u00e3o gosta de m\u00fasica erudita \u00a0(muito pelo contr\u00e1rio), mas \u00e9 uma atitude lament\u00e1vel tentar fechar as portas para poss\u00edveis futuros amantes e conhecedores do estilo &#8211; ainda mais quando se sabe que a quantidade de discos cl\u00e1ssicos vendidos \u00e9 muitas vezes menor que a de m\u00fasica pop.<\/p>\n<p>Para me contrapor e eu poderia simplesmente apelar, discorrendo sobre a eternidade e a complexidade da m\u00fasica erudita. Mas n\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que existe <em>uma enorme beleza<\/em> na melhor m\u00fasica cl\u00e1ssica. E \u00e9 por isto que ela ainda \u00e9 ouvida e admirada &#8211; e n\u00e3o por pedantismo da parte dos amantes do estilo, como algum detrator (que normalmente n\u00e3o entende nada do assunto) possa imaginar. Certas can\u00e7\u00f5es de Schubert, por exemplo, s\u00e3o t\u00e3o pop e t\u00eam melodias t\u00e3o ou mais belas que Beatles ou Stone Roses. Beethoven pode nos conduzir a sensa\u00e7\u00f5es totalmente inauditas. Mahler pode nos levar a estados de devaneio da mesma forma que o mais recente disco do Massive Attack. Brahms nos faz compreender a beleza que pode existir no complexo e\/ou no inesperado. Schumann tem certos temas de um lirismo arrebatador. E tem Bach.<\/p>\n<p>Bach, meus amigos, \u00e9 um assombro.<\/p>\n<p>Dia destes li um excelente ensaio de Mario Vargas Llosa, que dizia que a obra liter\u00e1ria de Victor Hugo era perfeitamente compar\u00e1vel a um oceano: <em>&#8220;um mar imenso, \u00e0s vezes calmo, \u00e0s vezes agitado por tormentas avassaladoras, um oceano habitado por formosos bandos de golfinhos e por crust\u00e1ceos s\u00f3rdidos e enguias el\u00e9tricas, um infinito mare magnum de \u00e1guas encrespadas, onde convivem o que h\u00e1 de melhor e pior &#8211; de mais belo e mais feio &#8211; entre as cria\u00e7\u00f5es humanas&#8221;<\/em>. Creio que este ep\u00edteto pode ser utilizado para descrever a obra de Bach &#8211; mas com um sen\u00e3o: neste imenso <em>oceano <\/em>que \u00e9 a obra do grande compositor alem\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 praticamente nada que se possa dizer: <em>&#8220;isto \u00e9 feio&#8221; <\/em>ou <em>&#8220;isto est\u00e1 entre o que h\u00e1 de pior da cria\u00e7\u00e3o humana&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p>Bach \u00e9 um assombro.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que s\u00f3 se podemos ter a exata dimens\u00e3o da beleza do alem\u00e3o &#8211; por muitos considerado o melhor compositor de todos os tempos &#8211; ouvindo suas obras. Por outro lado, pode-se ter uma bela id\u00e9ia da <em>imensid\u00e3o <\/em>do que ele criou acessando o <em><a href=\"http:\/\/jsbach.org\/\">J.S.Bach HomePage<\/a><\/em>. Este site, desculpem a insist\u00eancia, \u00e9 um<em>assombro<\/em>.<\/p>\n<p>A p\u00e1gina inicial do site \u00e9 simples. Tem um link para a biografia, retratos e literatura; outros links s\u00e3o para a obra completa do compositor; outros para grava\u00e7\u00f5es recomendadas, e assim por diante. Embora todas as partes do site sejam bastante completas, \u00e9 nos links referentes \u00e0 obra do compositor \u00a0que o\u00a0<em><a href=\"http:\/\/jsbach.org\/\">J.S.Bach HomePage<\/a><\/em> se mostra realmente extraordin\u00e1rio. Para cada uma das 1200 obras de Bach, ou BWV, existe um link &#8211; e, para cada um destes, pode-se ir a outros links, cada um detalhando (com coment\u00e1rios especializados, data, instrumentistas, etc) uma diferente execu\u00e7\u00e3o da mesma obra. \u00c9 de perder o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Na p\u00e1gina inicial do site h\u00e1 um link para o <em>Projeto Cantatas (The Cantatas Project)<\/em>, que \u00e9 um projeto ambicioso do holand\u00eas Jan Koster que visa publicar, no original alem\u00e3o e em ingl\u00eas &#8211; com coment\u00e1rios &#8211; os textos de todas as cantatas de Bach. O criador deste projeto visava, a partir do seu in\u00edcio em 1998, &#8220;j\u00e1 que n\u00e3o trabalhava exclusivamente no assunto&#8221;, inserir cerca de 20 cantatas por ano neste site. Mas problemas de trabalho e de sa\u00fade o tem impedido de ir t\u00e3o r\u00e1pido quanto gostaria, apesar das &#8220;valiosas colabora\u00e7\u00f5es de pessoas de todas as partes do mundo&#8221; que o projeto tem recebido.<\/p>\n<p>Falando nisso, a monumental cole\u00e7\u00e3o das mais de 200 cantatas existentes at\u00e9 hoje (acredita-se que Bach tenha composto 300 no total) \u00e9 considerada por muitos &#8211; entre os quais este que vos escreve &#8211; o melhor da cria\u00e7\u00e3o bachiana. As cantatas religiosas serviam para o of\u00edcio luterano e foram criadas, cada uma delas, para serem executadas num domingo ou festividade religiosa espec\u00edficos, enquanto que as profanas (em torno de 50 no total) foram elaboradas para comemorar ocasi\u00f5es especiais &#8211; como casamentos, anivers\u00e1rios de nascimento, homenagens a personalidades, ou para cerim\u00f4nias na Universidade de Leipzig.<\/p>\n<p>Como uma modesta forma de homenagear todos aqueles que lutam para manter viva a obra de Bach nos dias de hoje, segue abaixo uma pequena resenha de um dos meus discos preferidos de cantatas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>________________________________<\/p>\n<p><strong>Cantatas BWV 46-48 com o Bach-Ensemble, com a reg\u00eancia de Helmuth Rilling<\/strong><\/p>\n<p>Este disco faz parte da edi\u00e7\u00e3o da obra completa de Bach, pela gravadora <em>h\u00e4nssler Classic<\/em>. A soprano \u00e9 Arleen Aug\u00e9r; as contraltos s\u00e3o Hellen Watts (BWV 46) e Marga Hoeffgen (BWV 48); os tenores s\u00e3o Adalbert Kraus (BWV 46) e Aldo Baldin (BWV 48); e os baixos s\u00e3o Wolfgang Sch\u00f6ne (BWV 46) e Phillipe Huttenlocher (BWV 47). As cantatas BWV 46, 47 e 48 foram criadas especificamente para serem executadas, respectivamente, nos dias 1<span style=\"text-decoration: underline\"><sup>o<\/sup><\/span>de agosto de 1723; 17<span style=\"text-decoration: underline\"><sup>o<\/sup><\/span> e 19<span style=\"text-decoration: underline\"><sup>o<\/sup><\/span> domingo ap\u00f3s a Trindade. As letras das composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o baseadas na B\u00edblia ou em hinos religiosos protestantes.<\/p>\n<p>Mais detalhes sobre o disco abaixo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Cantata BWV 46:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>1 &#8211; <em>Schauet doch und sehet<\/em>: um coro em duas partes bem distintas. Na primeira, as vozes femininas e masculinas cantam lentamente, com grande lirismo, a frase <em>Shauet doch und sehet, ob irgendein Schmerz sei wie mein Schmerz, der mich troffen hat<\/em>. Na segunda, a frase <em>Denn der Herr hat mich voll Jammers gemacht am Tage seines grimmingen Zorns<\/em>, \u00e9 cantada tamb\u00e9m em contraponto por todo o coro, mas agora com grande energia. A primeira parte \u00e9 um dos mais belos corais de Bach.<\/p>\n<p>2 &#8211; <em>So klage, du zert\u00f6rte Gotesstadt<\/em>: lento recitativo para tenor, acompanhado por um cont\u00ednuo de oito instrumentos. Bonito, mas normal para os padr\u00f5es de Bach.<\/p>\n<p>3 &#8211; <em>Dein Wetter zog sich auf von weiten<\/em>: \u00e1ria para baixo cantada em andamento r\u00e1pido. Tem alguns belos momentos, mas \u00e9 cansativa de maneira geral.<\/p>\n<p>4 &#8211; <em>Doch bildet euch, o S\u00fcnder, ja nicht ein<\/em>: recitativo para contralto, com o cont\u00ednuo formado por violoncelo e \u00f3rg\u00e3o. N\u00e3o chega a ter grandes atrativos musicais.<\/p>\n<p>5 &#8211; <em>Doch Jesus will auch bei der Strafe<\/em>: bel\u00edssima \u00e1ria para contralto, acompanhada apenas por duas flautas doces e dois obo\u00e9s <em>da caccia<\/em>. A linda melodia e o contraponto entre os instrumentos de sopro s\u00e3o os pontos altos.<\/p>\n<p>6 &#8211; <em>O Gro<\/em><em>ber Gott von Treu<\/em>: coral acompanhado por oito instrumentos. A massa vocal em un\u00edssono dialoga belissimamente com as duas flautas doce solistas.<\/p>\n<p><strong><em>Cantata BWV 47:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>7 &#8211; <em>Wer sich selbst erh\u00f6het<\/em>: bel\u00edssimo e imponente coro. Na maior parte do tempo, a frase <em>Wer sich selbst erh\u00f6het<\/em> \u00e9 cantada sucessivamente pelas vozes masculinas e femininas, resultando num lindo efeito.<\/p>\n<p>8 &#8211; <em>Wer ein wahrer Christ will hei<\/em><em>ben<\/em>: nesta \u00e1ria para soprano o \u00f3rg\u00e3o \u00e9 o instrumento solista, enquanto que o baixo cont\u00ednuo \u00e9 formado por um <em>cello<\/em> e um cravo. Se por um lado a voz \u00e9 dram\u00e1tica \u00e0 maneira das grandes \u00e1rias de Bach, por outro o as notas agudas do \u00f3rg\u00e3o d\u00e3o um belo colorido \u00e0 pe\u00e7a.<\/p>\n<p>9 &#8211; <em>Der Mensh ist Kot, Stank, Asch und Erde<\/em>: recitativo para baixo mais dram\u00e1tico que o habitual &#8211; possivelmente pelo fato de oito instrumentos acompanharem a voz, e n\u00e3o um ou dois, como o usual em Bach.<\/p>\n<p>10 &#8211; <em>Jesu, beuge doch mein Herze<\/em>: bonita \u00e1ria para baixo, que inicia de forma singela e vai ficando mais dram\u00e1tica \u00e0 medida que se desenvolve. \u00c9 interessante tamb\u00e9m di\u00e1logo estabelecido entre os dois obo\u00e9s e os dois violinos.<\/p>\n<p>11 &#8211; <em>Der zeitclichen Ehrn will ich gern entbehrn<\/em>: belo coral, mas &#8220;normal&#8221; &#8211; em se tratando de Bach.<\/p>\n<p><strong><em>Cantata BWV 48:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>12 &#8211; <em>Ich elender Menshch<\/em>: coro bel\u00edssimo, com um tema arrebatador. Bach em um de seus (muitos) grandes momentos.<\/p>\n<p>13 &#8211; <em>O Schmerz, o Elend, so mich trifft<\/em>: recitativo para contralto com certa intensidade dram\u00e1tica, mas n\u00e3o muito interessante musicalmente.<\/p>\n<p>14 &#8211; <em>Solls ja so sein, da<\/em><em>b Straf und Pein<\/em>: coral curto, em tudo semelhante \u00e0queles que costumam encerrar as cantatas de Bach.<\/p>\n<p>15 &#8211; <em>Ach, lege das Sodom der s\u00fcndlichen Glieder<\/em>: curta \u00e1ria para contralto de qualidade menor que o usual em Bach, e com um tema um tanto repetitivo.<\/p>\n<p>16 &#8211; <em>Hier aber tut des Heilands Hand<\/em>: recitativo para tenor acompanhado por um cont\u00ednuo formado por violoncelo, contrabaixo e cravo.<\/p>\n<p>17 &#8211; <em>Vergibt mir Jesus meine S\u00fcnden<\/em>: \u00e1ria para tenor. Tentamos manter a sobriedade quando falamos de Johann Sebastian Bach, mas tem horas que \u00e9 dif\u00edcil &#8211; esta pe\u00e7a, por exemplo, \u00e9 t\u00e3o linda que palavras ficam in\u00fateis.<\/p>\n<p>18 &#8211; <em>Herr Jesu Christ, einiger Trost<\/em>: depois da \u00e1ria anterior, este bel\u00edssimo coral acaba servindo como uma esp\u00e9cie de volta \u00e0 realidade &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 ruim, acreditem.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percebi um certo menosprezo contra a m\u00fasica cl\u00e1ssica em alguns textos que li recentemente em sites indies . Pode ser que eu seja meio ing\u00eanuo, mas penso que\u00a0 isto \u00e9 um erro. Nada contra quem n\u00e3o gosta de m\u00fasica erudita \u00a0(muito pelo contr\u00e1rio), mas \u00e9 uma atitude lament\u00e1vel tentar fechar as portas para poss\u00edveis futuros amantes e conhecedores do estilo &#8211; ainda mais quando se sabe que a quantidade de discos cl\u00e1ssicos vendidos \u00e9 muitas vezes menor que a de m\u00fasica pop. Para me contrapor e eu poderia simplesmente apelar, discorrendo sobre a eternidade e a complexidade da m\u00fasica erudita. Mas n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":802,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[148,149],"class_list":["post-801","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-bach","tag-musica-classica","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/801","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=801"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/801\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":911,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/801\/revisions\/911"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/802"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=801"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=801"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=801"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}