{"id":791,"date":"2015-06-03T18:05:20","date_gmt":"2015-06-03T18:05:20","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=791"},"modified":"2015-05-24T04:47:58","modified_gmt":"2015-05-24T04:47:58","slug":"sehnsucht-nach-der-waldengend-de-robert-schumann-com-dietrich-fischer-dieskau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=791","title":{"rendered":"Sehnsucht nach der Waldengend, de Robert Schumann, com Dietrich Fischer-Dieskau"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 interessante como \u00e0s vezes demoramos para entender certos artistas. Em outra ocasi\u00e3o\u00a0eu tinha comentado como levei tempo para tomar consci\u00eancia do real valor do tenor alem\u00e3o Christoph Pr\u00e9gardien.\u00a0Com o bar\u00edtono Dietrich Fischer-Dieskau, normalmente considerado o mais importante do mundo no g\u00eanero <em>lied <\/em>(*), acabou acontecendo praticamente a mesma coisa.<!--more--><\/p>\n<p>Nos primeiros discos que ouvi com Fischer-Dieskau, este\u00a0me pareceu pouco melodioso. Sua potente voz de bar\u00edtono me parecia mais afeita ao discurso do que \u00e0 melodia, dada a tend\u00eancia dele &#8211; que eu acreditava existir &#8211; em se utilizar de um canto quase falado\u00a0(e mesmo berrado \u00e0s vezes).<\/p>\n<p>Isto\u00a0foi mudando \u00e0 medida que eu fui ouvindo novos &#8211; e antigos &#8211; discos com o cantor. Repetidas audi\u00e7\u00f5es recentes do lado A do meu velho LP com monumental\u00a0s\u00e9rie<em>Winterreise<\/em>, de Schubert (que eu, francamente, ouvi pouco desde que comprei) me fizeram recentemente ach\u00e1-la superior\u00a0\u00e0quela cantada por\u00a0Christoph Pr\u00e9gardien&#8230; N\u00e3o que eu creia que essa tend\u00eancia seja definitiva, em absoluto: por ter uma voz ainda mais \u00e1spera nos graves que Pr\u00e9gardien, nem sempre\u00a0considero o seu canto o melhor. Mas quando Fischer-Dieskau acerta, \u00e9 extraordin\u00e1rio. O <em>lied <\/em>comentado aqui, <em>Sehnsucht nach der Waldengend<\/em>, de Schumann, com versos de Justinus Kerner (**), \u00e9 um belo exemplo disso.<\/p>\n<p>A letra da can\u00e7\u00e3o, em alem\u00e3o, \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Sehnsucht nach der Waldengend<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em> W\u00e4r&#8217; ich nie aus euch gegangen,<\/em><\/p>\n<p><em> W\u00e4lder, hehr und wunderbar!<\/em><\/p>\n<p><em> Hieltet liebend mich unfangen<\/em><\/p>\n<p><em> Doch so lange, lang Jahr&#8217;.<\/em><\/p>\n<p><em> Wo in euren D\u00e4mmerunge<\/em><\/p>\n<p><em> Vogelsang und Siberquell<\/em><\/p>\n<p><em> Ist auch manches Lied entsprungen<\/em><\/p>\n<p><em> Meinem Busen, frisch und hell.<\/em><\/p>\n<p><em> Euer Wogen, euer Hallen,<\/em><\/p>\n<p><em> Euer S\u00e4nseln nimmer m\u00fcd&#8217;.<\/em><\/p>\n<p><em> Eure Melodien alle<\/em><\/p>\n<p><em> Weckten in der Brust das Lied.<\/em><\/p>\n<p><em> Hier in diesen welten Triften<\/em><\/p>\n<p><em> Ist mir alles \u00f6d&#8217; und stumm,<\/em><\/p>\n<p><em> Und ich sch\u00e4u&#8217; in blauen L\u00fcften<\/em><\/p>\n<p><em> Mich nach Wolkenbirden um<\/em><\/p>\n<p><em> Wenn ihr&#8217;s in den Busen zwinget,<\/em><\/p>\n<p><em> Regt sich selten nur das Lied:<\/em><\/p>\n<p><em> Wie der Vogel halb nur singet,<\/em><\/p>\n<p><em> Den von Baum und Blatt man schied.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A partir da tradu\u00e7\u00e3o em franc\u00eas inserida no encarte do cd fiz uma tradu\u00e7\u00e3o literal para o portugu\u00eas:<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Saudade da Floresta<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em> Se eu pudesse n\u00e3o\u00a0t\u00ea-las jamais deixado,<\/em><\/p>\n<p><em> Nobres e espl\u00eandidas florestas!<\/em><\/p>\n<p><em> Voc\u00eas que durante tanto tempo<\/em><\/p>\n<p><em> Me abrigaram com amor!<\/em><\/p>\n<p><em> Ent\u00e3o na sua penumbra<\/em><\/p>\n<p><em> Ressoavam o canto dos passarinhos e o murm\u00fario das fontes argentinas<\/em><\/p>\n<p><em> Mais de um canto claro e jovial<\/em><\/p>\n<p><em> Jorrou do meu peito.<\/em><\/p>\n<p><em> Suas ondula\u00e7\u00f5es, seus ecos,<\/em><\/p>\n<p><em> Seus murm\u00farios incessantes,<\/em><\/p>\n<p><em> Todas as suas melodias<\/em><\/p>\n<p><em> Fizeram nascer em mim estes cantos.<\/em><\/p>\n<p><em> Mas agora, nestes vastos campos<\/em><\/p>\n<p><em> Tudo me parece deserto e mudo,<\/em><\/p>\n<p><em> E eu levo meus olhares em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u azulado<\/em><\/p>\n<p><em> Para descobrir as figuras que as nuvens desenham.<\/em><\/p>\n<p><em> Acontece raramente que um canto<\/em><\/p>\n<p><em> Nas\u00e7a de um cora\u00e7\u00e3o apertado pela tristeza;<\/em><\/p>\n<p><em> O p\u00e1ssaro, nem mesmo ele, \u00e9 inclinado a cantar<\/em><\/p>\n<p><em> Quando \u00e9 retirado de sua \u00e1rvore.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Neste <em>lied<\/em> Schumann une com maestria\u00a0m\u00fasica\u00a0e\u00a0poesia. A primeira e a \u00faltima\u00a0estrofes &#8211;\u00a0que respectivamente tratam do arrependimento do poeta em ter deixado a floresta e da tristeza presente &#8211;\u00a0t\u00eam praticamente a mesma melodia e s\u00e3o soturnas e melanc\u00f3licas. A terceira e a quarta, que versam sobre o contentamento do autor\u00a0quando morava na floresta, s\u00e3o\u00a0cantadas num <em>crescendo<\/em>: enquanto que os versos 5 e 6 ainda t\u00eam um pouco da tristeza do in\u00edcio do <em>lied <\/em>e os versos 7 e 8 j\u00e1 s\u00e3o um pouco mais alegres, a terceira estrofe \u00e9 quase que totalmente jovial: as palavras <em>Eure Wogen, eure Allen<\/em>, que iniciam o verso 9, j\u00e1 v\u00eam de s\u00fabito dar um tom mais feliz\u00a0\u00e0 can\u00e7\u00e3o. A quarta estrofe \u00e9 de um lirismo e de uma beleza not\u00e1veis, e o\u00a0verso 16 \u00e9 cantado em ritmo desacelerado, preparando o terreno para a tristeza do final. O \u00faltimo verso do <em>lied<\/em> (o de n\u00famero 20), \u00e9\u00a0cantado lenta e tristemente (ao contr\u00e1rio do seu correspondente na primeira estrofe, o verso 4), em perfeita sintonia com a melancolia da letra.<\/p>\n<p>\u00c9\u00a0com extraordin\u00e1ria maestria que Dietrich Fischer-Dieskau passeia por todos estes estados de esp\u00edrito. Mas \u00e9 nas passagens dos versos 1 para 2, e\u00a017 para 18, correspondentes com a mesma melodia na primeira e na quinta estrofes,\u00a0que se sente o sopro do g\u00eanio. Os versos 1 e 17 s\u00e3o soturnos, graves, quase em tom de repreens\u00e3o. Quando esperamos algo mais s\u00e9rio para a seq\u00fc\u00eancia, Fischer-Dieskau canta de maneira absolutamente doce os finais dos\u00a0versos 2 e 18. A suavidade de sua voz neste ponto,\u00a0inesperada dado o tom sombrio do verso anterior, \u00e9\u00a0totalmente convincente e arrebatadora.<\/p>\n<p>E pensar que eu achava\u00a0o canto dele pouco melodioso&#8230;<\/p>\n<address>(texto escrito em 2002)<\/address>\n<address>___________________________<\/address>\n<p>(*) <em>lied <\/em>\u00e9 can\u00e7\u00e3o em alem\u00e3o, cujo plural \u00e9 <em>lieder<\/em>. Usualmente\u00a0o termo \u00e9 utilizado para\u00a0nomear can\u00e7\u00f5es com voz e piano,\u00a0g\u00eanero em que\u00a0os grandes compositores de origem alem\u00e3 do s\u00e9c. XIX foram mestres\u00a0.<\/p>\n<p>(**) Este <em>lied <\/em>\u00e9 encontrado no cd Vol. III (Robert Schumann) da cole\u00e7\u00e3o de\u00a0grava\u00e7\u00f5es ao vivo de Fischer-Dieskau no Festival de Salzburgo (1957-1965). A gravadora \u00e9 a Orfeo e quem acompanha o bar\u00edtono \u00e9 o pianista Gerald Moore.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 interessante como \u00e0s vezes demoramos para entender certos artistas. Em outra ocasi\u00e3o\u00a0eu tinha comentado como levei tempo para tomar consci\u00eancia do real valor do tenor alem\u00e3o Christoph Pr\u00e9gardien.\u00a0Com o bar\u00edtono Dietrich Fischer-Dieskau, normalmente considerado o mais importante do mundo no g\u00eanero lied (*), acabou acontecendo praticamente a mesma coisa.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":793,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[146,147],"class_list":["post-791","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-dietrich-fischer-dieskau","tag-schumann","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/791","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=791"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/791\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":798,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/791\/revisions\/798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=791"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=791"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=791"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}