{"id":783,"date":"2015-05-06T02:55:45","date_gmt":"2015-05-06T02:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=783"},"modified":"2016-08-09T22:52:33","modified_gmt":"2016-08-10T01:52:33","slug":"conexao-wright-santos-dumont-de-salvador-nogueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=783","title":{"rendered":"Conex\u00e3o Wright Santos-Dumont, de Salvador Nogueira"},"content":{"rendered":"<p>Quem inventou o avi\u00e3o? Foram os irm\u00e3os norte-americanos Orville e Wilbur Wright ou o brasileir\u00edssimo Alberto Santos-Dumont? Esta pol\u00eamica, que parece n\u00e3o ter fim, tem uma import\u00e2ncia muito grande&#8230; aqui no Brasil. Fora do pa\u00eds, ningu\u00e9m tem a menor d\u00favida: os irm\u00e3os da cidade de Dayton, Ohio, fizeram o primeiro v\u00f4o com um aparelho mais pesado que o ar, o <em>Flyer<\/em>, no dia 17 de dezembro de 1903.<!--more--> O v\u00f4o inaugural do <em>14bis<\/em>, ocorrido a 12 de novembro de 1906, foi praticamente esquecido no mundo todo.<\/p>\n<p>Para tentar dirimir esta pol\u00eamica por aqui, o jornalista Salvador Nogueira escreveu <em>Conex\u00e3o Wright Santos-Dumont<\/em> (Record, 386 p\u00e1ginas). O livro \u00e9 uma hist\u00f3ria dos pioneiros da avia\u00e7\u00e3o contada de maneira romanceada (ao contr\u00e1rio da primeira obra do autor, a tamb\u00e9m \u00f3tima <em>Rumo Ao Infinito<\/em>, publicado pela Globo, que discorre sobre a corrida espacial de maneira mais tradicional).<\/p>\n<p>Para dar uma id\u00e9ia melhor da evolu\u00e7\u00e3o dos anos iniciais da avia\u00e7\u00e3o, Salvador Nogueira faz com que a cada cap\u00edtulo corresponda a um ano, em ordem cronol\u00f3gica. O primeiro cap\u00edtulo do livro corresponde ao ano de 1896 e mostra como o grande cientista <em>lord <\/em>Rayleigh era refrat\u00e1rio \u00e0 id\u00e9ia de que fosse poss\u00edvel criar um objeto &#8220;mais pesado que o ar&#8221; que voasse, enquanto que os finais, 1903 e 1906, contam a hist\u00f3ria pessoal do envolvimento do autor com o objeto do livro e d\u00e1 novas informa\u00e7\u00f5es e teorias sobre a hist\u00f3ria da avia\u00e7\u00e3o. Outra t\u00e9cnica de Salvador Nogueira no livro \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o extensiva de di\u00e1logos, o que acaba deixando a leitura de <em>Conex\u00e3o Wright Santos-Dumont<\/em> bastante \u00e1gil e agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>O livro mostra que os irm\u00e3os Wright eram donos de uma pequena oficina de venda, fabrica\u00e7\u00e3o e conserto de bicicletas em Dayton. Wilbur foi o primeiro a ter a id\u00e9ia de fazer o avi\u00e3o: ele &#8220;sentia que sua habilidade como construtor de bicicletas serviriam bem \u00e0 tarefa. Nada como o mestre de confec\u00e7\u00e3o de um invento inerentemente inst\u00e1vel, mas ainda assim manobr\u00e1vel e pr\u00e1tico, conceber outro invento de instabilidade similar, conferindo-lhe a praticidade exigida para um meio de transporte. Era assim que ele via a coisa toda. Mera quest\u00e3o de engenharia.&#8221; Como a oficina dos irm\u00e3os praticamente parava no inverno, era nesta esta\u00e7\u00e3o do ano que eles trabalhavam &#8211; sem nenhum patroc\u00ednio externo &#8211; em seus inventos. O local escolhido para as experi\u00eancias foi Kitty Hawk, na Carolina do Norte. A partir do ano 1900 eles come\u00e7aram a fazer testes de seu avi\u00e3o, o <em>Flyer<\/em>, at\u00e9 que conseguem faz\u00ea-lo voar, em 1903.<\/p>\n<p>Wilbur e Orville Wright faziam suas experi\u00eancias secretamente porque queriam preservar as patentes de seu invento. Quando do primeiro v\u00f4o de Santos-Dumont, em 1906, praticamente n\u00e3o havia fotos p\u00fablicas do avi\u00e3o dos irm\u00e3os de Dayton. De todo modo, na \u00e9poca era fato conhecido por praticamente todos os envolvidos com avia\u00e7\u00e3o que os dois americanos poderiam ter conseguido voar, j\u00e1 que eles mandavam cartas para v\u00e1rios governos tentando vender seu invento, al\u00e9m de tentar patente\u00e1-lo. Depois que o <em>14bis<\/em> levantou v\u00f4o de maneira oficial e reconhecida por todos, finalmente os irm\u00e3os Wright resolveram dar publicidade a seu <em>Flyer<\/em>, e seus primeiros v\u00f4os j\u00e1 eram de v\u00e1rios quil\u00f4metros, cobrindo dist\u00e2ncias muit\u00edssimo maiores que aquelas que o avi\u00e3o do inventor brasileiro conseguia percorrer. Isto provava, portanto, que entre 1903 e 1906, Orville e Wilbur desenvolveram com grande compet\u00eancia o seu invento. Este fato, somado \u00e0 grande quantidade documentos \u2013 como fotografias, correspond\u00eancias, anota\u00e7\u00f5es detalhadas de seus di\u00e1rios e dos resultados de seus experimentos &#8211; feitos antes de 1906 e posteriormente mostrados pelos irm\u00e3os de Dayton, s\u00e3o a prova definitiva de que eles foram os primeiros a voar com o &#8220;mais pesado que o ar&#8221;.<\/p>\n<p>Se uma das principais obje\u00e7\u00f5es brasileiras aos primeiros v\u00f4os dos Wright &#8211; a de que eles foram feitos secretamente e, portanto, podem n\u00e3o ter ocorrido \u2013 cai, como vimos acima, facilmente por terra, a segunda obje\u00e7\u00e3o, a de que eles eram lan\u00e7ados a partir de catapultas (os irm\u00e3os Wright achavam que era mais pr\u00e1tico utilizar pequenas dist\u00e2ncias para decolagem, e com este intento utilizavam for\u00e7a externa para ajudar a tirar o seu avi\u00e3o do solo) e n\u00e3o por seus pr\u00f3prios meios tamb\u00e9m \u00e9 derrubada por Salvador Nogueira. Primeiro, porque os jatos de ca\u00e7a que s\u00e3o lan\u00e7ados de porta-avi\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o impelidos desta forma e nem por isto deixam de ser avi\u00f5es. Depois, porque o v\u00f4o inicial do <em>Flyer <\/em>n\u00e3o utilizou catapulta e sim o vento favor\u00e1vel na ocasi\u00e3o \u2013 ali\u00e1s, exatamente como foram feitos os primeiros v\u00f4os do <em>14 bis<\/em>&#8230; Em outras palavras: se este argumento valer, o primeiro v\u00f4o de Santos-Dumont tamb\u00e9m &#8220;n\u00e3o vale&#8221;.<\/p>\n<p>Se praticamente elimina a possibilidade de que Alberto Santos-Dumont tenha inventado o avi\u00e3o (os argumentos finais de Salvador Nogueira no livro, comentando a respeito dos &#8220;muitos inventores&#8221; do aparelho s\u00e3o contradit\u00f3rios com o que vem antes e, por isto, n\u00e3o podem ser muito levados em conta), por outro lado a leitura de <em>Conex\u00e3o Wright Santos-Dumont<\/em> refor\u00e7a a id\u00e9ia da genialidade do brasileiro. Ele criou um dirig\u00edvel extremamente eficiente, o <em>N\u00famero 6<\/em>, que ganhou o pr\u00eamio Deutsch de La Meurthe, de 100.000 francos, por ter sido o primeiro a fazer um percurso em Paris que inclu\u00eda dar uma volta na Torre Eiffel e voltar em menos de 30 minutos. Al\u00e9m disso, quando os irm\u00e3os Wright j\u00e1 voavam com seu <em>Flyer <\/em>ele ainda nem pensava em projetar avi\u00f5es. Deste modo, o tempo decorrido entre o in\u00edcio do projeto do <em>14bis <\/em>e o primeiro v\u00f4o foi curt\u00edssimo \u2013 lembremos aqui que j\u00e1 havia muitos anos que outros inventores na Fran\u00e7a tentavam voar com uma m\u00e1quina mais pesada que o ar e Santos-Dumont rapidamente passou na frente de todos eles. Outra prova da genialidade do brasileiro \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o, logo depois do <em>14bis<\/em>, do extremamente eficiente <em>Demoiselle<\/em>, o menor avi\u00e3o da \u00e9poca. Se o brasileiro tivesse maiores ambi\u00e7\u00f5es comerciais \u2013n\u00e3o as tinha provavelmente por ser riqu\u00edssimo, filho de um grande fazendeiro de caf\u00e9\u00a0 de Minas Gerais \u2013 e n\u00e3o tivesse, desde a \u00e9poca da cria\u00e7\u00e3o do seu segundo avi\u00e3o, come\u00e7ado a desenvolver uma esclerose m\u00faltipla, Santos-Dumont certamente teria realizado ainda muito mais pela avia\u00e7\u00e3o mundial. Ele \u00e9 um g\u00eanio que n\u00e3o pode, e n\u00e3o deve, ser esquecido.\u00a0Mas o avi\u00e3o \u00e9 dos irm\u00e3os Wright.<\/p>\n<p><em>(texto publicado no suplemento dominical do jornal O Estado do Paran\u00e1 em junho de 2006)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem inventou o avi\u00e3o? Foram os irm\u00e3os norte-americanos Orville e Wilbur Wright ou o brasileir\u00edssimo Alberto Santos-Dumont? Esta pol\u00eamica, que parece n\u00e3o ter fim, tem uma import\u00e2ncia muito grande&#8230; aqui no Brasil. Fora do pa\u00eds, ningu\u00e9m tem a menor d\u00favida: os irm\u00e3os da cidade de Dayton, Ohio, fizeram o primeiro v\u00f4o com um aparelho mais pesado que o ar, o Flyer, no dia 17 de dezembro de 1903.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":784,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[54],"tags":[145,214,144],"class_list":["post-783","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","tag-irmaos-wright","tag-salvador-nogueira","tag-santos-dumont","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/783","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=783"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/783\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2804,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/783\/revisions\/2804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/784"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=783"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=783"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=783"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}