{"id":776,"date":"2015-04-30T12:13:30","date_gmt":"2015-04-30T12:13:30","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=776"},"modified":"2015-04-30T12:54:23","modified_gmt":"2015-04-30T12:54:23","slug":"a-honra-perdida-de-katharina-blum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=776","title":{"rendered":"A honra perdida de Katharina Blum"},"content":{"rendered":"<p>Katharina Blum \u00e9 uma empregada dom\u00e9stica muito s\u00e9ria, que odeia quando os homens lhe s\u00e3o \u201cinconvenientes\u201d, previdente com dinheiro (chega a comprar um apartamento e um carro com suas economias), e com pouqu\u00edssimo senso de humor. Esta mo\u00e7a t\u00e3o s\u00e9ria tamb\u00e9m tem l\u00e1 suas peculiaridades: adora dan\u00e7ar, leva alguns homens para casa, mas tudo isto n\u00e3o chega a representar um problema: pior mesmo \u00e9 quando ela se apaixona por Ludwig Gotten, um fora-da-lei (terrorista? bandido?) ca\u00e7ado pela pol\u00edcia. <!--more-->A paix\u00e3o de Katharina pelo rapaz \u00e9 de tal monta que ela o ajuda a fugir quando de uma persegui\u00e7\u00e3o policial. \u00c9 ent\u00e3o que os problemas da mo\u00e7a come\u00e7am: um jornal sensacionalista (chamado simplesmente de JORNAL) come\u00e7a a persegui-la implacavelmente, chamando-a de terrorista, de comunista, de fora-da-lei. Ningu\u00e9m foge da sanha irrespons\u00e1vel do JORNAL: nem Katharina, nem seus empregadores, nem seus amigos, nem sua m\u00e3e. No \u00e1pice da irrita\u00e7\u00e3o a mo\u00e7a vai at\u00e9 o jornalista respons\u00e1vel pela persegui\u00e7\u00e3o e o mata a tiros de rev\u00f3lver. Esta \u00e9, basicamente, a hist\u00f3ria apresentada no \u201cconto longo\u201d (conforme a defini\u00e7\u00e3o da editora do livro, a Artenova) \u201cA honra perdida de Katharina Blum\u201d, do alem\u00e3o Heinrich B\u00f6ll &#8211; pr\u00eamio Nobel de 1972. E n\u00e3o tem nenhum <em>spoiler<\/em> no que foi apresentado acima: o assassinato do jornalista \u00e9 citado j\u00e1 no terceiro dos 58 curtos cap\u00edtulos do livro.<\/p>\n<p>Publicado originalmente em 1974, a hist\u00f3ria de \u201cA honra perdida de Katharina Blum\u201d se passa na Alemanha Ocidental no auge da Guerra Fria, e a paranoia daqueles tempos perpassa todo o livro: para que se tenha uma ideia, \u201ccomunista\u201d \u00e9 o maior insulto que o JORNAL utiliza contra aqueles que persegue. A cr\u00edtica ao jornalismo sensacionalista \u00e9 outra caracter\u00edstica marcante da obra: a maneira como o JORNAL distorce os depoimentos tomados durante o \u201ccaso Katharina Blum\u201d \u00e9 abjeta \u2013 imposs\u00edvel de ser repetida, quem sabe, nestes tempos politicamente corretos. De todo modo, se fosse apenas uma cr\u00edtica \u00e0 imprensa marrom e um retrato da Guerra Fria, \u201cA honra perdida de Katharina Blum\u201d poderia ter sido um livro datado, que teria envelhecido mal. Mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece: este \u201cconto longo\u201d \u00e9 muito mais do que isso.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica utilizada por Heinrich B\u00f6ll \u00e9 engenhosa: a hist\u00f3ria come\u00e7a do fim e vai retrocedendo para o come\u00e7o, e v\u00e1rios assuntos que ser\u00e3o desenvolvidos ao longo do livro s\u00e3o \u201cjogados\u201d, de chofre, sem maiores explica\u00e7\u00f5es \u2013 cabe ao leitor montar os diversos quebra-cabe\u00e7as que aparecem. Mas o maior charme de \u201cA honra perdida de Katharina Blum\u201d est\u00e1 no carinho que o autor tem pela personagem principal (de ineg\u00e1vel riqueza psicol\u00f3gica) e na maneira divertida pela qual hist\u00f3ria \u00e9 contada (apesar da den\u00fancia contra o sensacionalismo). O trecho que vou reproduzir abaixo conta uma das in\u00fameras confus\u00f5es que aparecem na obra, e o tom falsamente s\u00e9rio e debochado que Heinrich B\u00f6ll utiliza \u00e9 um primor:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00c9 f\u00e1cil imaginar que nesse ponto houve desentendimentos muito graves no gabinete de Blorna, inadequados \u00e0quele meio-ambiente. Dizem \u2013 <\/em>dizem<em> \u2013 que Straubleder realmente tentou agredir Trude Blorna fisicamente, mas o marido o conteve, chamando a aten\u00e7\u00e3o sobre a impropriedade de se agredir uma dama. Dizem \u2013 <\/em>dizem<em> \u2013 que Straubleder retrucou que uma mulher t\u00e3o linguaruda n\u00e3o merecia ser chamada de dama, e que ele n\u00e3o admitia que ela mencionasse aquela malfadada palavra, que ela n\u00e3o tinha o direito de usar a ironia ao comunicar acontecimentos tr\u00e1gicos, e se ela mencionasse aquela palavra mais uma s\u00f3 vez, ent\u00e3o \u2013 sim \u2013 ent\u00e3o seria o fim.<\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Katharina Blum \u00e9 uma empregada dom\u00e9stica muito s\u00e9ria, que odeia quando os homens lhe s\u00e3o \u201cinconvenientes\u201d, previdente com dinheiro (chega a comprar um apartamento e um carro com suas economias), e com pouqu\u00edssimo senso de humor. 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