{"id":769,"date":"2015-05-03T21:20:13","date_gmt":"2015-05-03T21:20:13","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=769"},"modified":"2015-05-30T23:31:52","modified_gmt":"2015-05-30T23:31:52","slug":"rapidos-comentarios-sobre-livros-lidos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=769","title":{"rendered":"R\u00e1pidos coment\u00e1rios sobre livros lidos \u2013 2"},"content":{"rendered":"<p><strong>Austerlitz<\/strong>, de W.G.Sebald (Companhia das Letras): Austerlitz \u00e9 um sujeito de grande cultura geral, que fascina o personagem que \u00e9 o narrador deste espetacular romance do alem\u00e3o W.G.Sebald, falecido em 2001. Os encontros do narrador com Austerlitz acontecem meio aleatoriamente, em per\u00edodos muitos espa\u00e7ados \u00a0e em diferentes pa\u00edses da Europa. Os coment\u00e1rios sobre arquitetura, arte e literatura de Austerlitz s\u00e3o profundos e interessantes.<!--more--> Mas \u00e9 a hist\u00f3ria da sua vida \u2013 sobre a qual eu n\u00e3o posso dar nenhuma dica para n\u00e3o estragar a surpresa \u2013 que \u00e9 realmente tocante, fazendo deste um dos melhores romances dos \u00faltimos anos. (10\/10)<\/p>\n<p><strong>Servid\u00e3o humana<\/strong> (Editora Globo), de W. Somerset Maugham: Pode-se dizer que cada livro de Philip Roth versa sobre um tema. \u201cO complexo de Portnoy\u201d \u00e9 sobre o sexo, \u201cIndigna\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 sobre o destino, \u201cCasei com um comunista\u201d \u00e9 o retrato de uma \u00e9poca. N\u00e3o consigo dizer qual seria o tema do semiautobiogr\u00e1fico \u201cServid\u00e3o humana\u201d, excelente livro do ingl\u00eas Somerset Maugham. O romance conta a hist\u00f3ria de Philip Carey, jovem \u00f3rf\u00e3o ingl\u00eas que \u00e9 cuidado pelos tios \u2013 uma tia amorosa e um tio obtuso e mesquinho \u2013, tenta a vida na Alemanha (onde vai estudar a l\u00edngua local), na Fran\u00e7a (onde tenta ser pintor) e acaba voltando para a Inglaterra para estudar medicina &#8211; passando por grandes dificuldades financeiras e amorosas no processo, al\u00e9m de uma importante desilus\u00e3o religiosa. Se n\u00e3o tem um tema central, \u201cServid\u00e3o humana\u201d conta a hist\u00f3ria de uma vida \u2013 de maneira brilhante. Est\u00e1 mais que bom, n\u00e3o \u00e9? (9\/10)<\/p>\n<p><strong>Historias de cronopios y de famas<\/strong>, de Julio Cort\u00e1zar (da cole\u00e7\u00e3o \u201cCuentos completos\u201d, da Punto de Lectura): Os cronopios, famas e esperan\u00e7as s\u00e3o seres esquisitos. Por mais que os famas, por exemplo, sejam mais racionais que os cronopios, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir simpatia pelo imenso cora\u00e7\u00e3o deles. Mas \u201cHistorias de cronopios y de famas\u201d \u00e9 mais do que apenas as hist\u00f3rias desses seres estranhos, nascidos da fenomenal imagina\u00e7\u00e3o de Cort\u00e1zar. Tem tamb\u00e9m as estranhas ocupa\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia Humboldt. Tem tamb\u00e9m as estranhas instru\u00e7\u00f5es do in\u00edcio do livro. Sim, \u00e9 um livro estranho. Mas \u00e9 caloroso e se l\u00ea com um prazer imenso. (9\/10)<\/p>\n<p><strong>Cle\u00f3patra<\/strong>, de Christian-Georges Schwentzel (da Cole\u00e7\u00e3o L&amp;PM Pocket Encyclopaedia): Da linha dos Ptolomeus, governantes gregos que tomaram o poder no Egito ap\u00f3s a conquista de Alexandre, o Grande, Cle\u00f3patra \u00e9 uma das figuras mais famosas e controvertidas da Hist\u00f3ria. \u201cCle\u00f3patra\u201d, de Christian-Georges Schwentzel, n\u00e3o deixa nada de fora: a sem-cerim\u00f4nia com que os Ptolomeus matavam parentes pr\u00f3ximos para assumir o poder (coisa que Cle\u00f3patra tamb\u00e9m fez), os casos amorosos da rainha, e a sua fama posterior. \u00c9 pena que fiquemos com uma sensa\u00e7\u00e3o de que nunca poderemos saber exatamente como Cle\u00f3patra realmente era, j\u00e1 que s\u00e3o poucos os documentos hist\u00f3ricos que realmente restaram sobre sua vida. (7\/10)<\/p>\n<p><strong>Fanny Hill<\/strong>, de John Cleland (<a href=\"http:\/\/fr.feedbooks.com\/book\/5717\/m%C3%A9moires-de-fanny-hill-femme-de-plaisir\" target=\"_blank\">aqui<\/a>): Fanny Hill \u00e9 um dos cl\u00e1ssicos mais famosos \u2013 sen\u00e3o o mais famoso \u2013 da literatura er\u00f3tica mundial. Conta a hist\u00f3ria de uma \u00f3rf\u00e3 que precisa se prostituir para sobreviver \u2013 mas que gosta disso. A leveza e o estilo com que a hist\u00f3ria \u00e9 contada fazem com que o livro mere\u00e7a a fama de cl\u00e1ssico que acabou obtendo (existe at\u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o da Penguin Classics!), apesar de ter sido sin\u00f4nimo de obscenidade por muito tempo. (8\/10)<\/p>\n<p><strong>El mal de montano<\/strong>, de Enrique Vila-Matas (Anagrama): Montano \u00e9 um sujeito que sofre de \u201cmal de literatura\u201d. Confunde sua vida com seus livros, e n\u00e3o consegue tomar um cafezinho sem citar Kafka, Borges ou Robert Musil. N\u00e3o d\u00e1 para entender. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que um livro t\u00e3o bobo e irritante seja t\u00e3o querido pela cr\u00edtica atual. (4\/10)<\/p>\n<p><strong>Coraz\u00f3n tan blanco<\/strong>, de Javier Mar\u00edas (Debolsillo): O primeiro livro de sucesso do espanhol Javier Mar\u00edas. O romance conta a hist\u00f3ria do tradutor Juan: sua vida profissional, seu casamento e, principalmente, as mal contadas hist\u00f3rias de seu pai, o especialista em arte Ranz. A estranheza e a fascina\u00e7\u00e3o que Juan sente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres em geral, e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mulher em particular; as v\u00e1rias camadas com as quais a vida de Ranz vai sendo dissecada; e o estilo caloroso e fascinante de Javier Mar\u00edas fazem com que este livro seja de leitura altamente recomendada. (10\/10)<\/p>\n<p><strong>Juliet, naked<\/strong>, de Nick Hornby (Penguin): Duncan \u00e9 um f\u00e3 obcecado (muito obcecado mesmo) pelo cantor (fict\u00edcio) Tucker Crowe. Annie \u00e9 sua esposa, que sofre com a loucura de seu marido. E Tucker Crowe \u00e9 um cantor que fez alguns discos considerados (por seus f\u00e3s) obra-primas, e l\u00e1 pelas tantas sumiu do mapa. A partir disto, a hist\u00f3ria vai continuando, sempre com lances surpreendentes. Como sempre, Nick Hornby \u00e9 delicioso de ler \u2013 mas n\u00e3o \u00e9 um Philip Roth, n\u00e3o mesmo. (8\/10)<\/p>\n<p><strong>Invention of solitude<\/strong>, de Paul Auster (Penguin): O livro de estreia do ingl\u00eas Paul Auster \u00e9 considerado por muitos, at\u00e9 hoje, a sua obra-prima. \u201cInvention of solitude\u201d \u00e9 dividido em duas partes: a primeira \u00e9 sobre seu pai, uma \u201cn\u00e3o-pessoa\u201d, um sujeito terrivelmente distante; da segunda constam v\u00e1rios pequenos ensaios e coment\u00e1rios sobre diversos assuntos \u2013 entre os quais a rela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Auster com seu filho, que o escritor, claro, quer que seja bem diferente daquela que ele mesmo tinha com seu pai. A maneira com a qual Auster descreve o pai \u00e9 precisa, forte e fascinante \u2013 e o modo com o qual ele mostra por que o pai era assim t\u00e3o distante \u00e9 enormemente comovedor. \u201cInvention of solitude\u201d \u00e9 uma obra-prima. (9\/10)<\/p>\n<p><strong>Noticia de un secuestro<\/strong>, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (Debolsillo): O livro \u00e9 uma longa reportagem sobre uma s\u00e9rie de sequestros patrocinados pelo narcoterrorista Pablo Escobar na Col\u00f4mbia do in\u00edcio dos anos 90. Precis\u00e3o jornal\u00edstica e uma grande empatia pelo sofrimento humano s\u00e3o as marcas de mais uma obra-prima do meu escritor latino preferido. (9\/10)<\/p>\n<p><strong>Operation Shylock<\/strong>, de Philip Roth (Vintage): Philip Roth, no in\u00edcio do livro, tem uma s\u00e9rie de del\u00edrios causados por um medicamento que estava tomando depois de uma opera\u00e7\u00e3o. Depois, acaba sabendo que em Israel existe um impostor se fazendo passar por ele. Roth vai para l\u00e1, e acaba sendo perseguido pelo Mossad. O que \u00e9 realidade em \u201cOperation Shylock\u201d? O que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o? O que \u00e9 del\u00edrio? O tempo todo Roth parece brincar com estas quest\u00f5es \u2013 e o leitor fica na d\u00favida at\u00e9 depois de acabar o livro. Parece que o autor continua contando que o que aconteceu em \u201cOperation Shylock\u201d \u00e9 a mais pura verdade. N\u00e3o vamos saber nunca o que \u00e9 real ou n\u00e3o \u2013 mas nem importa. Roth \u00e9 sempre Roth, afinal de contas. (10\/10)<\/p>\n<p><strong>Recorda\u00e7\u00f5es do Escriv\u00e3o Isa\u00edas Caminha<\/strong>, de Lima Barreto (Penguin-Companhia das Letras): Confesso que tenho um problema com Lima Barreto. J\u00e1 tinha sido um sofrimento ler \u201cTriste fim de Policarpo Quaresma\u201d, e com este \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do Escriv\u00e3o Isa\u00edas Caminha\u201d a coisa n\u00e3o foi diferente. Ele tem algo no estilo \u2013 lamentoso demais \u2013 que acaba dificultando a leitura. Mas o painel preciso que ele pinta das mazelas brasileiras \u2013 o racismo, a falta de palavra dos pol\u00edticos, o sensacionalismo da imprensa, a falta de responsabilidade generalizada \u2013 \u00e9 impressionante. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que sua import\u00e2ncia liter\u00e1ria cresce a cada dia. (8\/10)<\/p>\n<p><strong>In the heart of the country<\/strong>, de J. M. Coetzee (Penguin): Uma solteirona, vivendo na \u00c1frica do Sul no tempo do apartheid, resolve apelar feio quando seu pai se casa com uma negra. Este \u00e9 certamente o mais chocante dos livros de Coetzee que eu j\u00e1 li, escrito num estilo forte, l\u00edrico e estranho \u2013 \u00e0 moda de Faulkner. Frequentemente desagrad\u00e1vel, \u201cIn the heart of the country\u201d \u00e9 um soco no est\u00f4mago. (9\/10)<\/p>\n<p><strong>Deus, um del\u00edrio<\/strong>, de Richard Dawkins (Companhia das Letras): \u201cDeus, um del\u00edrio\u201d \u00e9 uma violenta diatribe contra todos os tipos de religi\u00e3o. O ateu praticante Richard Dawkins parece achar que quase todo o mal do mundo est\u00e1 na religi\u00e3o, e quase todo o bem no darwinismo. O fato de ele sequer citar ateus genocidas como Mao e Pol Pot, passar rapidamente por St\u00e1lin, simplesmente n\u00e3o mencionar o darwinismo social (nem que fosse para descart\u00e1-lo) &#8211; doutrina aceita e praticada por todos os nazistas -, al\u00e9m de n\u00e3o fazer um coment\u00e1rio sequer sobre todo o bem que a religi\u00e3o faz a milh\u00f5es de pessoas (mesmo elogiando parte da doutrina de Jesus Cristo), mostra que Dawkins s\u00f3 quer \u00e9 fazer muito barulho por nada. Afinal de contas, ele odeia a religi\u00e3o, parece odiar os religiosos, mas considera o bispo de Oxford seu amigo. (2\/10)<\/p>\n<p><strong>Sabbath&#8217;s Theater<\/strong>, de Philip Roth (Vintage): Mickey Sabbath \u00e9 um judeu que s\u00f3 pensa em sexo. Ele trabalhava com um teatro de bonecos quase pornogr\u00e1fico, mas seus dedos desenvolveram artrite e para ele s\u00f3 sobrou viver \u00e0 custa de sua mulher, que ele odeia. A sua grande obsess\u00e3o \u00e9 Drenka, uma croata cinquentona que \u00e9 t\u00e3o obcecada por sexo quanto ele &#8211; ela trai seu marido com quem passar pela frente. E assim por diante. A grande cr\u00edtica liter\u00e1ria Michiko Kakutani\u00a0 considerou \u201cSabbath&#8217;s Theater\u201d \u201cdesagrad\u00e1vel e hip\u00f3crita\u201d. J\u00e1 o grande cr\u00edtico liter\u00e1rio Harold Bloom, assim como Arthur Nestrovski, da Folha, acharam \u201cSabbath&#8217;s Theater\u201d uma obra-prima. Fico com eles. (9\/10)<\/p>\n<p><strong>O emblema vermelho da coragem<\/strong>, de Stephen Crane (Penguin-Companhia das Letras): \u00a0Um dos primeiros grandes cl\u00e1ssicos norte-americanos. O romance \u00e9 a jornada interior de um jovem combatente ianque na Guerra Civil Americana. A maneira com a qual o autor apresenta sua covardia inicial e sua passagem para a bravura posterior \u00e9 cr\u00edvel e fascinante. (9\/10)<\/p>\n<p><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/livros-lidos-recentemente-8.html\" target=\"_blank\">blog do Mondo Bacana<\/a> em junho de 2011)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Austerlitz, de W.G.Sebald (Companhia das Letras): Austerlitz \u00e9 um sujeito de grande cultura geral, que fascina o personagem que \u00e9 o narrador deste espetacular romance do alem\u00e3o W.G.Sebald, falecido em 2001. Os encontros do narrador com Austerlitz acontecem meio aleatoriamente, em per\u00edodos muitos espa\u00e7ados \u00a0e em diferentes pa\u00edses da Europa. 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