{"id":758,"date":"2015-05-02T19:12:23","date_gmt":"2015-05-02T19:12:23","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=758"},"modified":"2015-04-24T19:21:14","modified_gmt":"2015-04-24T19:21:14","slug":"auf-den-tod-einen-nachtigall-de-franz-schubert","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=758","title":{"rendered":"&#8220;Auf den Tod einen Nachtigall&#8221;, de Franz Schubert"},"content":{"rendered":"<p>A tecla <em>repeat 1<\/em> raramente \u00e9 pressionada em meus cd players. N\u00e3o costumo ouvir uma mesma m\u00fasica repetidas vezes, n\u00e3o mesmo. At\u00e9 Boxers, de Morrissey, a minha m\u00fasica preferida, reluto em ouvir mais de uma vez seguida. Mas existe um lied chamado \u201cAuf den Tod einer Nachtigall\u201d (Sobre a morte de um rouxinol), composta por Franz Schubert que simplesmente n\u00e3o canso de ouvir. Meu recorde \u00e9, sei l\u00e1, vinte vezes seguidas. N\u00e3o pretendo ouvir outra m\u00fasica enquanto escrevo esta p\u00e1gina do meu di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Este lied tem uma hist\u00f3ria bem interessante: Schubert comp\u00f4s uma s\u00e9rie de lieder (plural alem\u00e3o de lied) sobre poemas de Ludwig H\u00f6lty em 1815, mas interrompeu tudo para come\u00e7ar a compor sua Terceira Sinfonia. <!--more-->Tendo conclu\u00eddo esta obra, Schubert voltou ao poeta para escrever \u201cAuf den Tod einer Nachtigall\u201d. Por algum motivo desconhecido, Schubert deixou a pen\u00faltima linha da voz sem preencher, assim como as \u00faltimas tr\u00eas linhas do piano, de modo que a pe\u00e7a (como muitas outras que ele comp\u00f4s sobre poemas de H\u00f6lty) acabou n\u00e3o tendo sido publicada por estar incompleta. Em 1970 (mais de um s\u00e9culo e meio mais tarde, portanto) Reinhard van Hoorickx (bendito seja) completou a parte que faltava. Esta can\u00e7\u00e3o foi gravada pela primeira vez no corpo da obra completa de Schubert no cd Hyperion Schubert Edition &#8211; 10, com Martyn Hill, tenor, e Graham Johnson, piano, que \u00e9 a vers\u00e3o comentada aqui. Vale ressaltar ainda que os int\u00e9rpretes fizeram pequenas mudan\u00e7as na harmonia da vers\u00e3o de Hoorickx.<\/p>\n<p>O poema de H\u00f6lty \u00e9 um lamento sobre a morte de um rouxinol, e diz mais ou menos o seguinte: o rouxinol, o cantor, \u201ccujas notas ecoavam na alma\u201d do poeta enquanto ele \u201cdeitava em meio as flores, n\u00e3o existia mais\u201d. Enquanto vivia, das \u201cprofundezas de sua garganta\u201d o rouxinol \u201clan\u00e7ava suas notas de prata\u201d. O \u201ceco ressoava suavemente nas cavernas\u201d. Suas melodias r\u00fasticas faziam as donzelas \u201cdan\u00e7arem no brilho do escurecer\u201d.<\/p>\n<p>O poema n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o extraordin\u00e1rio, mas o efeito visual \u00e9 muito bom &#8211; d\u00e1 pra sentir exatamente o que H\u00f6lty quis mostrar.<\/p>\n<p>Agora, a transcri\u00e7\u00e3o para a m\u00fasica \u00e9 simplesmente indescrit\u00edvel. \u00c9 um lied em tom menor, que n\u00e3o chega a ser triste por ser extremamente calmo. O poema tem duas estrofes de oito versos cada um, e o oitavo verso \u00e9 repetido, perfazendo duas estrofes de nove versos no lied.<\/p>\n<p>Os quatro primeiros versos de cada estrofe t\u00eam uma melodia quase parada, lenta demais e em suspens\u00e3o. N\u00f3s ficamos esperando o que vai acontecer. Os versos 5 a 7, ent\u00e3o, v\u00eam numa progress\u00e3o, o ritmo e a tens\u00e3o aumentam &#8211; mas n\u00e3o muito, pois tudo \u00e9 muito tranquilo. No final do verso 7 esta &#8220;tens\u00e3o est\u00e1 no m\u00e1ximo, mas, logo em seguida, no oitavo verso, h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o de ritmo na voz &#8211; o piano continua progredindo. No nono verso (repeti\u00e7\u00e3o da letra do oitavo) voz e piano se unem e a estrofe vai terminando aos poucos, triste, como se fosse por falta de energia vital &#8211; o efeito \u00e9 inesperado, bel\u00edssimo e devastador.<\/p>\n<p>Eu tenho minhas d\u00favidas de que se o lied fosse cantado em outro idioma, que n\u00e3o o alem\u00e3o, o efeito seria assim t\u00e3o bonito. O quinto e o s\u00e9timo versos da primeira estrofe (&#8230; Seele hallte \/ (&#8230;) \/ &#8230;Abendgolde wallte) e da segunda (&#8230; Gesang&#8217; und Fendschalmeien \/ (&#8230;) \/ &#8230; ihre Reihen) t\u00eam uma sonoridade que praticamente s\u00f3 pode ser obtida neste idioma. Ao contr\u00e1rio das cantatas de Bach, em que mal reconhecemos a sonoridade da l\u00edngua dada a magnific\u00eancia da melodia, nos lieder de Schubert, muito mais intimistas (quase conversas ou uma can\u00e7\u00f5es de ninar), a linda sonoridade do alem\u00e3o aparece em todo o seu esplendor.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 26 de julho de 2001)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tecla repeat 1 raramente \u00e9 pressionada em meus cd players. N\u00e3o costumo ouvir uma mesma m\u00fasica repetidas vezes, n\u00e3o mesmo. At\u00e9 Boxers, de Morrissey, a minha m\u00fasica preferida, reluto em ouvir mais de uma vez seguida. Mas existe um lied chamado \u201cAuf den Tod einer Nachtigall\u201d (Sobre a morte de um rouxinol), composta por Franz Schubert que simplesmente n\u00e3o canso de ouvir. Meu recorde \u00e9, sei l\u00e1, vinte vezes seguidas. N\u00e3o pretendo ouvir outra m\u00fasica enquanto escrevo esta p\u00e1gina do meu di\u00e1rio. Este lied tem uma hist\u00f3ria bem interessante: Schubert comp\u00f4s uma s\u00e9rie de lieder (plural alem\u00e3o de lied) sobre poemas de Ludwig H\u00f6lty em 1815, mas interrompeu tudo para come\u00e7ar a compor sua Terceira Sinfonia.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":759,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[129],"class_list":["post-758","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-schubert","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/758","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=758"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/758\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":766,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/758\/revisions\/766"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=758"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=758"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=758"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}