{"id":732,"date":"2015-04-28T16:17:33","date_gmt":"2015-04-28T16:17:33","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=732"},"modified":"2015-04-20T16:23:00","modified_gmt":"2015-04-20T16:23:00","slug":"o-disco-de-estreia-do-korn","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=732","title":{"rendered":"O disco de estreia do Korn"},"content":{"rendered":"<p>Se na hist\u00f3ria do <em>heavy metal<\/em> o ano de 1970 ser\u00e1 sempre lembrado pelo lan\u00e7amento do primeiro disco do Black Sabbath, 1994 vai ficar registrado como o ano do \u00e1lbum de estr\u00e9ia do Korn. Os paralelos entre eles \u2013 al\u00e9m de terem sido batizados apenas com os nomes de suas respectivas bandas \u2013 \u00e9 evidente: ambos s\u00e3o sombrios e agressivos, representando uma esp\u00e9cie de ruptura com quase tudo o que veio antes, tanto em termos de tem\u00e1tica como, principalmente, de sonoridade. <!--more--><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a influ\u00eancia dos dois \u00e9 decisiva e inquestion\u00e1vel, mas com uma diferen\u00e7a: se por um lado o Black Sabbath s\u00f3 passou a ser massivamente influente mesmo quase duas d\u00e9cadas depois de seu primeiro disco (com o advento do <em>grunge<\/em>), <em>Korn<\/em>, o disco, em pouco tempo passou a ser considerado o marco inicial no movimento que revitalizou decisivamente o <em>heavy metal<\/em>, o muitas vezes incompreendido e subestimado (por\u00e9m extremamente popular) <em>n\u00fc metal<\/em>.<\/p>\n<p>O Korn nasceu em 1993 em uma cidadezinha da Calif\u00f3rnia chamada Bakersfield. Veio da dissolu\u00e7\u00e3o de duas bandas: ArtSex e LAPD. Jonathan Davis, o vocalista, alco\u00f3latra e depressivo, entre outros empregos chegou a trabalhar como assistente de legista em um necrot\u00e9rio \u2013 e esta experi\u00eancia provavelmente influiu na sua vis\u00e3o m\u00f3rbida de mundo.<\/p>\n<p><em>Korn<\/em> \u00e9 um disco raivoso, violento, amargurado, vingativo. Em praticamente todas as letras o vocalista despeja suas frustra\u00e7\u00f5es e raivas com uma enorme sinceridade. Os objetos de seu \u00f3dio s\u00e3o as drogas que deixaram-no &#8220;cego&#8221; na adolesc\u00eancia (\u201cBlind\u201d), algu\u00e9m que tinha sido amado (\u201cNeed To\u201d), um <em>skinhead<\/em> (\u201cClown\u201d), os que o chamaram de homossexual na juventude (\u201cFaget\u201d), algu\u00e9m que n\u00e3o o quis e que agora o quer (\u201cDivine\u201d), o auto-engano (\u201cLies\u201d). Em \u201cHelmet In The Bush\u201d, Davis pede desesperadamente a Deus para poder dormir. A letra mais impressionante \u00e9 a de \u201cDaddy\u201d, na qual ele descreve os abusos sexuais que sofrera na inf\u00e2ncia (ao contr\u00e1rio do que diz a letra, na vida real foi um vizinho \u2013 e n\u00e3o os pais \u2013 o abusador; estes, por\u00e9m, n\u00e3o acreditaram nele). &#8220;Voc\u00ea estuprou\/ Eu me sinto sujo\/ Machuca\/ Como uma crian\u00e7a\/ Amarrado\/ \u2018\u00c9 um bom garoto\u2019\/ E fode\/ Seu pr\u00f3prio filho\/ Eu grito\/ Ningu\u00e9m me escuta\/ Machuca\/ N\u00e3o muito\/ Meu Deus\/ Viu voc\u00ea olhar\/ Mam\u00e3e, por qu\u00ea?\/ Seu pr\u00f3prio filho&#8221;.<\/p>\n<p>A guitarra e o baixo s\u00e3o afinados abaixo do tom usual, resultando em uma sonoridade extremamente sombria e violenta (eu mesmo achei a banda terrivelmente agressiva e desagrad\u00e1vel quando a conheci, com aquelas notas graves todas). Some-se a isto o <em>punch<\/em> invej\u00e1vel da banda, que faz um perfeito contraponto com o vocal e as letras de Jonathan Davis (cuja maneira de cantar tamb\u00e9m impressiona, por causa da freq\u00fcente varia\u00e7\u00e3o de estados de esp\u00edrito, indo do sussurrado at\u00e9 o grito desesperado). Outra caracter\u00edstica do Korn \u2013 embora n\u00e3o t\u00e3o importante quanto em outras bandas de <em>n\u00fc metal<\/em> que vieram depois \u2013 \u00e9 o canto em forma de rap que aparece aqui e ali.<\/p>\n<p>Os destaques do disco s\u00e3o \u201cClown\u201d e \u201cLies\u201d, ambas com hipn\u00f3ticos <em>continuum<\/em> de baixo, guitarra e bateria nos refr\u00f5es; \u201cDivine\u201d, r\u00e1pida e agressiva; \u201cFaget\u201d, com seu impressionante tema de contrabaixo; \u201cShoots And Ladders\u201d, que come\u00e7a magistralmente com gaita de fole (tocada por Jonathan Davis); a hipn\u00f3tica \u201cHelmet In The Bush\u201d; e, finalmente, a violent\u00edssima \u201cDaddy\u201d, que inicia com uma esp\u00e9cie de canto gregoriano.<\/p>\n<p>O visual tamb\u00e9m era original. Ao contr\u00e1rio da enorme maioria das bandas de <em>heavy metal<\/em>, desde o in\u00edcio o Korn sempre usou roupas esportivas e coloridas, como se fosse uma banda de rap. Al\u00e9m disso, instrumentos diferentes como a gaita de fole e at\u00e9 mesmo os <em>dreadlocks<\/em> de Jonathan Davis eram inusitados para &#8220;metaleiros&#8221;.<\/p>\n<p>Pronto: afina\u00e7\u00e3o baixa, letras desesperadas, um pouco de rap e hip hop, visual mais descontra\u00eddo que o comum no <em>heavy metal<\/em>, abertura para novas sonoridades&#8230; Todas as principais caracter\u00edsticas do <em>n\u00fc metal<\/em> j\u00e1 estavam presentes no primeiro \u00e1lbum do subestimado estilo. Na verdade, <em>Korn<\/em>, o disco, \u00e9 uma verdadeira obra-prima.<\/p>\n<p><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/edicao-23-curitiba-pop-festival-2004\/colecao-korn.html\" target=\"_blank\">Mondo Bacana<\/a> em 2008)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se na hist\u00f3ria do heavy metal o ano de 1970 ser\u00e1 sempre lembrado pelo lan\u00e7amento do primeiro disco do Black Sabbath, 1994 vai ficar registrado como o ano do \u00e1lbum de estr\u00e9ia do Korn. 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