{"id":721,"date":"2015-04-26T06:10:13","date_gmt":"2015-04-26T06:10:13","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=721"},"modified":"2015-04-19T06:14:42","modified_gmt":"2015-04-19T06:14:42","slug":"jt-leroy-jack-kerouac","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=721","title":{"rendered":"JT Leroy, Jack Kerouac"},"content":{"rendered":"<p>Jack Kerouac \u00e9 o autor do romance mais importante da gera\u00e7\u00e3o <em>beat<\/em>, famoso movimento de car\u00e1ter art\u00edstico e social dos anos 50 que foi de uma import\u00e2ncia fundamental para todas as correntes libert\u00e1rias que se desenvolveram nas d\u00e9cadas seguintes: <em>On the road<\/em> (em portugu\u00eas, \u201cP\u00e9 na estrada\u201d), que conta basicamente a hist\u00f3ria das viagens alucinadas, no final dos anos 40 e in\u00edcio dos 50, pelos Estados Unidos, de dois amigos: Sal Paradise, personagem baseado no pr\u00f3prio escritor, e Dean Moriarti.<\/p>\n<p><!--more-->Por toda a vida, Kerouac (que nasceu em 1922, no estado americano do Massachusetts, e faleceu em 1969, na Fl\u00f3rida) carregava consigo durante grande parte do tempo um caderno onde anotava acontecimentos, poemas e pensamentos de toda a ordem. Uma pequena parte deste gigantesco material foi editada e selecionada pelo historiador norte-americano Douglas Brinkley, e o seu trabalho resultou no livro <em>Di\u00e1rios de Jack Keruac \u2013 1947-1954<\/em>, cuja tradu\u00e7\u00e3o brasileira foi publicada recentemente pela Editora L&amp;PM (359 p\u00e1ginas). Os textos desta edi\u00e7\u00e3o s\u00e3o partes escolhidas dos di\u00e1rios do escritor durante o per\u00edodo em que o autor estava elaborando os seus dois primeiros livros, a saga familiar \u2013 que teve pouco sucesso &#8211; <em>The town and the city<\/em> (literalmente, algo como \u201cA cidade e o munic\u00edpio\u201d), e <em>On the road<\/em>.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de di\u00e1rios de escritores importantes falecidos \u00e9, muitas vezes, temer\u00e1ria: afinal de contas, se o pr\u00f3prio autor confiasse na import\u00e2ncia liter\u00e1ria destes textos, ele mesmo t\u00ea-los-ia publicado. Este \u00e9 o tipo de pensamento que vem \u00e0 baila freq\u00fcentemente durante a leitura dos <em>Di\u00e1rios <\/em>de Jack Kerouac, j\u00e1 que muitos de seus trechos s\u00e3o redundantes, confusos e\/ou desprovidos de maior interesse. Por outro lado, o livro \u00e9 praticamente obrigat\u00f3rio para quem \u00e9 interessado no movimento <em>beat<\/em>: a partir dele, por exemplo, pode-se saber que, ao contr\u00e1rio do que Kerouac sempre dizia, ele utilizou um longo tempo para preparar e escrever <em>On the road<\/em>. Al\u00e9m disso, seus <em>Di\u00e1rios <\/em>apresentam suas opini\u00f5es, muitas vezes contradit\u00f3rias, sobre outros <em>beats <\/em>importantes, como Allen Ginsberg, Neal Cassady e William S. Burroughs, e mostram suas principais influ\u00eancias liter\u00e1rias: C\u00e9line, Dostoi\u00e9vski e Mark Twain \u2013 Kerouac acreditava numa literatura que fosse escrita de maneira objetiva e direta, e se queixava de escritores \u201cexcessivamente sutis\u201d como Marcel Proust. Outros aspectos importantes nos <em>Di\u00e1rios<\/em> s\u00e3o o cap\u00edtulo final, originado do caderno de di\u00e1rios chamado \u201cChuvas e rios\u201d &#8211; com descri\u00e7\u00f5es de muitas viagens de Kerouac que acabaram aparecendo em sua obra-prima &#8211; e a mostra de como foi fundamental para o autor ter uma m\u00e3e forte e compreensiva que, com grande dificuldade, \u201csegurou as pontas\u201d em casa enquanto ele n\u00e3o tinha nenhuma fonte de renda.<\/p>\n<p>Mas o que mais impressiona \u2013 e, porque n\u00e3o dizer, apaixona &#8211; na leitura dos <em>Di\u00e1rios<\/em> \u00e9 a personalidade do pr\u00f3prio Kerouac: o grande autor da gera\u00e7\u00e3o <em>beat<\/em> tinha uma grande f\u00e9 m\u00edstica em Jesus Cristo, era atormentado \u2013 com freq\u00fcentes altera\u00e7\u00f5es de humor, passando rapidamente da euforia \u00e0 depress\u00e3o -, bastante esperan\u00e7oso em se tornar um escritor importante, e profundamente preocupado em entender o sentido da vida: s\u00e3o muitos os trechos, com linguagem po\u00e9tica, em que ele tenta \u2013 de maneira muitas vezes confusa \u2013 atingir este objetivo.<\/p>\n<p>Se <em>Di\u00e1rios <\/em>de Jack Kerouac \u00e9 um livro autobiogr\u00e1fico que n\u00e3o foi escrito com a finalidade de ser publicado, a situa\u00e7\u00e3o de <em>Maldito Cora\u00e7\u00e3o<\/em>, o segundo livro escrito por JT Leroy (Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 213 p\u00e1ginas) \u00e9 ironicamente oposta: o livro era supostamente autobiogr\u00e1fico, mas \u00e9 o produto de uma farsa &#8211; foi escrito apenas para ser publicado, portanto. Ele conta a hist\u00f3ria do in\u00edcio da vida de Jeremiah, um rapaz que foi transformado em um travesti prostituto pela pr\u00f3pria m\u00e3e, a tamb\u00e9m prostituta Sarah. S\u00f3 que, na verdade, este JT Leroy \u2013 que supostamente <em>era <\/em>o Jeremiah &#8211; n\u00e3o existe: descobriu-se recentemente que ele \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma roqueira fracassada, Laura Albert &#8211; e quem circulou pelo mundo interpretando o seu papel \u00e9 a mocinha Savannah Knoop, meia irm\u00e3 do companheiro de Laura, Geoffrey Knoop (atualmente brigando com a ex-mulher na justi\u00e7a pelos direitos autorais do autor inexistente). \u00c9 claro que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a mesma coisa ler os livros de JT Leroy sabendo que aquilo tudo \u00e9 apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o de uma autora, e n\u00e3o hist\u00f3rias baseadas em acontecimentos reais &#8211; de todo o modo, o que continua mais importante \u00e9 saber se eles t\u00eam, ou n\u00e3o, valor liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>O primeiro romance lan\u00e7ado por JT Leroy, <em>Sarah<\/em> \u2013 comentado recentemente aqui na Revista do Estado do Paran\u00e1 \u2013 contava a adolesc\u00eancia do garoto Jeremiah e tinha, como principal qualidade, uma delirante atmosfera de supersti\u00e7\u00f5es que fazia com que, \u00e0s vezes, o leitor se sentisse entrando num universo paralelo &#8211; onde cervos empalhados t\u00eam poderes para ajudar prostitutas, e onde milagres ocorrem a cada esquina. Apesar de ter sido publicado posteriormente, <em>Maldito Cora\u00e7\u00e3o<\/em> \u2013 que teve uma vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica, a cargo da diretora Asia Argento &#8211; conta a hist\u00f3ria do in\u00edcio da vida de Jeremiah (antes dos acontecimentos narrados em <em>Sarah<\/em>, portanto). O novo romance tem caracter\u00edsticas gerais de narrativa semelhantes \u00e0s do anterior \u2013 narrativa propositadamente confusa (o que \u00e9 coerente com a pouca instru\u00e7\u00e3o do personagem que conta a hist\u00f3ria), em primeira pessoa e no tempo presente \u2013 s\u00f3 que, no lugar da atmosfera ricamente delirante de <em>Sarah<\/em>, <em>Maldito Cora\u00e7\u00e3o <\/em>pega pesado nos acontecimentos s\u00f3rdidos.<\/p>\n<p>No livro, o pequeno Jeremiah tinha pais adotivos de um bom n\u00edvel financeiro, carinhosos e compreensivos. S\u00f3 que a Sarah, sua insana m\u00e3e biol\u00f3gica, resolve querer seu filho de volta e, para isso, ela apela para o pai dela, um pastor protestante rico e extremamente r\u00edgido: como ela sabia de algum \u201cesqueleto no arm\u00e1rio\u201d (que o livro n\u00e3o conta qual \u00e9) do av\u00f4 de Jeremiah, este compra ju\u00edzes para que ela recupere a guarda do filho. A partir da\u00ed, a as viol\u00eancias f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas a que ela submete o garoto s\u00e3o de revoltar o est\u00f4mago: abandonos por semanas ou meses, amea\u00e7as verbais horrendas e absurdas, surras hom\u00e9ricas, uso de drogas pesadas diante dele, viol\u00eancia sexual (por parte dela e de seus namorados), transforma\u00e7\u00e3o do menino num travesti. De tempos em tempos o av\u00f4 de Jeremiah consegue a guarda dele, mas os espancamentos a que este fan\u00e1tico religioso submete o garoto n\u00e3o tornam a sua situa\u00e7\u00e3o muito melhor.<\/p>\n<p>Com o decorrer de <em>Maldito Cora\u00e7\u00e3o<\/em>, vai ficando claro que a Sarah \u00e9 uma doente mental que, no fundo e apesar de tudo, realmente gosta de Jeremiah \u2013 o qual, \u00e0 medida que vai ficando mais velho, come\u00e7a, morbidamente, a gostar de sofrer viol\u00eancias. Um final de impacto, espantoso mesmo, para um livro repulsivo &#8211; inferior certamente a <em>Sarah<\/em> &#8211; mas que exerce uma estranha aten\u00e7\u00e3o no leitor desavisado.<\/p>\n<p><em>(publicado em junho de 2006 na revista dominical do jornal O Estado do Paran\u00e1)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jack Kerouac \u00e9 o autor do romance mais importante da gera\u00e7\u00e3o beat, famoso movimento de car\u00e1ter art\u00edstico e social dos anos 50 que foi de uma import\u00e2ncia fundamental para todas as correntes libert\u00e1rias que se desenvolveram nas d\u00e9cadas seguintes: On the road (em portugu\u00eas, \u201cP\u00e9 na estrada\u201d), que conta basicamente a hist\u00f3ria das viagens alucinadas, no final dos anos 40 e in\u00edcio dos 50, pelos Estados Unidos, de dois amigos: Sal Paradise, personagem baseado no pr\u00f3prio escritor, e Dean Moriarti.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":722,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[121,120],"class_list":["post-721","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-jack-kerouac","tag-jt-leroy","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=721"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":724,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/721\/revisions\/724"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}